CAPÍTULO 1 – UM PASSEIO POR REMÍGIO: A HISTÓRIA E O COTIDIANO DOS
1.1. NOS LABIRINTOS DAS VIVÊNCIAS: O COTIDIANO E AS FESTIVIDADES DA
1.1.1 UM PERCURSO PELOS ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS
A cidade que conhecemos hoje possui uma visão totalmente diferente da que tinham os moradores na década de 1940 e 1950, pois atualmente a cidade conta com ruas largas, praças, postos de saúde, escolas da zona urbana e da zona rural, além da diversificação comercial. Na década de 1940 o comércio concentrava-se nas principais ruas. A partir das edições desse “jornalzinho” tomamos como base alguns anúncios de comércios para saber quais eram os
estabelecimentos comerciais que existiam na segunda metade da década de 1940 e 1950, e que atendiam as necessidades da população. A seguir, listamos os comércios existentes na época que atendiam as necessidades da população.
A casa de Manoel Mizael de Lima ou simplesmente “Casa Lima”, localizava-se na principal rua da vila, a Rua João Pessoa, 55 (Atualmente é Câmara Municipal). Contava com um “estoque moderno e completo de miudezas e perfumaria.” (SERAFIM, 1992, p.310) Além de louças e vidros, era uma referência que determinava o centro da vila e posteriormente da cidade. Sua loja comercial era ponto de encontro, do lado esquerdo, de quem nela entrava, instalou um banco de madeira para que as visitas sentassem para um pouco de conversa. Além de loja comercial era o centro onde se buscava notícias sobre o que ocorria no Brasil e no mundo.
Conhecido como um ponto comercial que se destacava por ser um comércio muito popular e recebia mensalmente algumas edições de jornais que circulavam no Estado, embora as notícias que chegavam não fossem tão atuais, alguns homens reuniam-se e discutiam o que era notícia. Era um lugar que chamavam de centro cultural e centro das especulações sobre o aproveitamento escolar dos estudantes e as potencialidades de cada um, pois conta-se que o Sr. Mizael de Lima preocupava-se com o desempenho escolar dos estudantes remigenses.
A Padaria e Mercearia Santo Antonio de Edson Machado 30, oferecia um completo sortimento de pães, biscoitos e bolachas, além de estivas em geral e perfumarias. Era um lugar em que a população poderia encontrar boa parte do que consumiam em um só lugar. Em casos de pessoas doentes, a população contava com a Drogaria Garcia do farmacêutico Eurides Garcia que atendia com um completo sortimento de “Drogas nacionais e estrangeiras. Atende a qualquer hora do dia e da noite.” 31 Localizava-se a Rua 4 de Outubro, número 8, com produtos diversificados, entre eles comprimidos, xaropes e pomadas.
A Casa São João, de João Inácio de Melo localizado na Rua João Pessoa, 51 também contava com miudezas e estivas a retalhos em geral, além de ferragens, tintas, vernizes, louças e vidros32. Outra casa comercial que atendia à população era a Casa do Povo de José Inacio de
Melo, que comercializava estivas em grosso e a retalho, massas, conservas, bebidas nacionais
30 O PAPAGAIO. Ano I, número 1, p.2. Remígio, 31 de dezembro de 1946. 31 O PAPAGAIO. Ano III, número 3, p.3. Remígio, 30 de dezembro de 1948. 32 O PAPAGAIO. Ano IV, número 2, p.2. Remígio, 31 de dezembro de 1949.
e estrangeiras. Provavelmente João Inacio e José Inacio eram irmãos que comercializavam na vila, diferenciando-se em algumas mercadorias.
A Alfaiataria Vitória de Aprígio Nogueira de Oliveira inovava ao confeccionar roupas civis e militares. Seu anuncio voltava-se pelo atrativo de tornar uma pessoa elegante, ao informar sobre seus serviços, deixa claro “Confeccione suas roupas na Alfaiataria Vitoria, e seja elegante”. Por estar localizado em uma vila em plena década de 1940, o alfaiate exercia sua função ao confeccionar roupas de acordo com as preferências e medidas de cada pessoa e era visto como “o campeão da tesura (sic.)” 33 onde a qualidade fica em primeiro lugar para
satisfazer as necessidades e exigências de cada cliente.
Contavam também com o funcionamento da primeira Oficina Mecânica, do sr. Laudelino Martins, que localizava-se na praça João Soares. Tendo em vista um maior número de veículos motorizados que circulava pela vila e o “grande número de motores industriais”, a oficina servia para atender as necessidades dos proprietários de veículos e motores e tinha como discurso que “ajudá-lo, é economizar tempo e dinheiro.” 34 Quem tinha acesso a esses serviços,
era quem tinha condições de possuir carro nesse período, pois tendo em vista a situação econômica que vivia a população, ter carro era restrito a poucas pessoas.
A existência de Armazéns também se destacava nesse cenário comercial, pois dispunham do Armazém de Manoel Fortunato, na rua do sertão, s/n; o Armazém Leal do Sr. José Leal, na rua 4 de outubro; o Armazém de Antônio Medonho, na rua José Laureano e o Armazém de Antonio Padre, na avenida Zé Leal, s/n. Os donos dos armazéns eram produtores, em sua maioria, de algodão e agave e dispunham do espaço físico para o armazenamento de mercadorias na cadeia de abastecimento.
A área central da vila já havia passado por um processo de urbanização, mas continuava com mais projetos urbanísticos. Nas ruas, havia calçamentos, estabelecimentos comerciais, praças construídas e algumas casas contavam com as calçadas alinhadas para passar a imagem de organização e para o uso dos pedestres em seus passeios públicos. Algumas casas foram destruídas para abrir novas ruas e atender a demanda de novos moradores que iam surgindo com a construção de casas e novos prédios.
33 O PAPAGAIO. Ano V, número1, p. 4. Remígio, 24 de dezembro de 1950. 34 A Voz de Remígio, Ano II, número 8, p.5, julho de 1949.
Ao analisar o cotidiano dos remigenses nos deparamos com algumas maneiras de se divertir que repercutiam na vida da sociedade, mesmo com poucas alternativas de lazer e trabalho, as pessoas procuravam se divertir como podiam: nas ruas, nos bares, nas praças e nas festas da padroeira. Muitos contribuíram para promover uma movimentação social e cultural em Remígio, privilegiando o que estava ao alcance e investindo em equipamentos ditos “modernos” para deleite de uma sociedade pouco alfabetizada.
Anos mais tardes, no final da década de 1940, as opções de lazer e divertimento vão sendo ampliadas, e os velhos hábitos foram sendo substituídos pelas maravilhas que a modernização proporcionava para o povo remigense. O ano de 1948 marca avanços no tocante ao lazer e divertimento, principalmente pela chegada do cinema, que foi considerado uma grande novidade na região. Esse é o cotidiano, sobre o qual lançamos nosso olhar para descrever como eram as formas de viver e se divertir no período que Remígio ainda era uma vila.
1.1.2 A SÉTIMA ARTE PRESENTE NA VILA: A CHEGADA DO CINE SÃO