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Um pouco da história da Inteligência Artificial

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I. PERSPECTIVAS E ABORDAGENS

1.4. Um pouco da história da Inteligência Artificial

Como atestam desenhos, pinturas, esculturas e narrativas registradas, tudo indica que a criação de mecanismos para simular partes do comportamento humano é uma obsessão bem antiga. São tantos casos que não seria possível apresentar todos aqui. Optamos por uma pequena seleção. Pierre Devaux (1964), autor do livro “Autômatos, Automatismo e Automatização”, aponta a Ilíada como um dos exemplos. Homero conta “que Hefesto – o

Vulcano grego – construiu trípodes automotores que desempenhavam o papel de servidores fiéis e iam por si próprios para os seus lugares logo que terminavam a jornada” (DEVAUX, 1964, p.13). Já Aristóteles falava sobre uma Vênus de madeira, movida por um motor. Ela foi construída por Dédalo e o estranho segredo

parece ter-se espalhado, porque se deu o nome de “dedálicas” a estátuas fabricadas pelos ferreiros de Creta e Rodes e que tinham uma reputação deplorável: era necessário acorrentá-las, durante a noite, para impedir que fossem cometer os mais lamentáveis atentados na pessoa dos homens e das

19 A ênfase da Cibernética na análise das relações entre os elementos permite que ela dialogue com a Teoria Geral dos Sistemas e com a Teoria Ator-Rede, conforme demonstrado nessa dissertação.

estátuas dos deuses: é bem a primeira revolta dos robots (DEVAUX, 1964, p.13).

Leonardo da Vinci, em 1495, também desenhou um robô humanoide que poderia sentar, mover braços, cabeça e abrir a mandíbula. Já em 1651, Thomas Hobbes, no livro Leviatã chegou a falar sobre a construção de um possível animal artificial. Talvez por isso, segundo o cientista da computação, Nils Nilsson, o historiador George Dyson atribua a Hobbes o papel de patriarca da Inteligência Artificial (NILSSON, 2010, p.21). No século 19, a autora inglesa Mary Shelley escreveu uma ficção sobre Victor Frankenstein, um jovem cientista que criou uma criatura através de modernos experimentos científicos.

No século seguinte, mais precisamente em 1920, o autor e dramaturgo checo Karel Capek escreveu uma peça chamada “Rossum’s Universal Robots”, onde cunhou a palavra

robô com o significado de trabalho forçado ou labuta. Num jornal em 1935, Capek escreveu uma coluna onde dizia que considerava que o trabalho era um elemento essencial da vida humana. Ele tinha horror a pensar que as máquinas tomariam o lugar do homem, pois considerava que esta possibilidade era uma sobrevalorização imperdoável da mecânica, um tipo de insulto grave à vida (NILSSON, 2010, p.23).

Pouco depois de Karel Capek, o russo Isaac Asimov, que acabou migrando para os Estados Unidos e era, entre outras atividades, autor de ficção científica, escreveu várias histórias sobre robôs e criou três leis da robótica que ficaram muito conhecidas, principalmente porque forneciam princípios para amenizar o temor tão bem demonstrado na literatura e no cinema sobre um possível controle da humanidade pelos robôs. Assim, para Asimov (apud NILSSON, 2010, p.25),

1- Um robô não pode ferir um ser humano ou por omissão prejudicá-lo;

2- O robô precisa obedecer às ordens dos seres humanos, exceto quando elas entrarem em conflito com a primeira lei;

3- O robô tem que se proteger desde que isso não esteja em conflito com a primeira e segunda leis.

Depois, Asimov acrescentou uma lei zero chamada de proteção dos interesses da humanidade:

0- Um robô não pode ferir a humanidade, ou, por falta de ação, permitir que a humanidade venha a se prejudicar.

Outro exemplo que vale ser citado é narrado por Pierre Devaux (1964). Até mesmo o carro sem motorista do Google tem um precedente na história dos sonhos dos inventores. Em 4 de abril de 1934, “um estranho espetáculo atraía os acadêmicos para o pátio do instituto. Diante da venerável companhia, um inventor suíço, François Dussaud, fazia evoluir o seu primeiro veículo endomecânico, digamos em termos mais familiares, o seu primeiro carro sem condutor” (DEVAUX, 1964, p.51). Mas a audiência não se entusiasmou e a academia “declarou-se insuficientemente satisfeita” com aquilo que chamou de “automatismo fatal” (1964, p.52). A partir de estudos sobre os casos citados, Devaux encontrou uma maneira simples de definir automatismo, autômatos e automatização. Para ele, autômatos são “um sorriso da mecânica. Automatismo: uma disciplina geral, que permite substituir os homens pelas máquinas. Automatização é uma universalização do automatismo” (1964, p.10).

Mas a Inteligência Artificial é muito mais ampla do que robótica e automatismo. Para se desenvolver, assim como a Cibernética, ela buscou conhecimento de campos diversos do saber, o que reforça seu caráter multidisciplinar. Uma das bases lógicas da Inteligência Artificial, por exemplo, baseia-se no silogismo desenvolvido, no período anterior a era cristã, por Aristóteles, filósofo grego que viveu de 384 a.C. a 322 a.C. A etimologia encarrega-se de mostrar o significado do termo. Silogismo no grego antigo συλλογισμός é formado pelo prefixo σύν (com) + λογισμός (cálculo). Portanto, ele era usado com o significado de cálculo

para conectar ideias, ou seja, para organizar o raciocínio. O silogismo aristotélico é uma argumentação lógica formada por três proposições: as duas primeiras são premissas que induzem à uma conclusão. Ele pode ser representado com o seguinte modelo:

Premissa a: Paulo é homem.

Premissa b: Todos os homens são mortais. Conclusão: Então, Paulo é mortal.

A lógica de Aristóteles fornece uma pista essencial para os sistemas de inteligência artificial (NILSSON, 2010, p.28): todo padrão de raciocínio parecido com o modelo do silogismo pode ser representado por formas, símbolos ou por números. Assim, por exemplo,

1- Todo B é A. 2- Todo C é B. 3- Logo, todo C é A.

regras para estruturar o raciocínio. Mas evidentemente, ele pode representar apenas o raciocínio lógico e não os processos que envolvem criatividade, por exemplo. Além disso, dependendo do teor e da forma de construção das premissas, elas podem induzir respostas erradas. Voltando à questão das fontes de inspiração para a Inteligência Artificial, ela também usou os conhecimentos do positivismo lógico do Círculo de Viena, modelo que restringiu o conhecimento à ciência e buscou o verificacionismo. Da Matemática, vieram ensinamentos de estudiosos já citados como Leibniz, Boole, von Neumann e Turing. Mas também de outros: a probabilidade de Bayes (1760), a lógica e quantificação de Frege (1880), a formalização da matemática de Hilbert (1900), o teorema da incompletude de Gödel (1930), etc. Da Neurofisiologia, que faz parte da Neurociência e se dedica ao estudo do sistema nervoso, foram fornecidas pistas importantes a partir de pesquisas sobre conversão de informação sensorial em ação e sobre o trabalho dos neurônios através de sua vasta rede de conexões. Da Psicologia, uma forte inspiração partiu dos behavioristas, como B.F. Skinner (1904-1990). Ele se concentrou no que podia ser objetivamente medido, nomeado e especificado e rejeitou a ideia de tentar identificar os estados mentais internos como crenças, intenções, desejos e objetivos. O trabalho de Skinner gerou a ideia de que reforçar algum tipo de recompensa conduz a certo tipo de comportamento (estímulos que geram respostas), princípio que ficou popular na Inteligência Artificial. O cientista da computação, Russell Kirsch (1930) foi um dos primeiros a trabalhar com a ideia de aprendizagem por reforço (NILSSON, 2010, p.40). Da Linguística, a Inteligência Artificial, buscou ensinamentos que foram vitais para a chamada Geração de Linguagem Natural.

A Inteligência Artificial também se apoiou na concepção de processo evolucionário como geração aleatória e seleção natural, ou ainda em estratégias de evolução dos sistemas mais simples para os mais complexos. Assim, alguns programas de computador podem desenvolver eles mesmos a solução de um problema (aprendizagem de máquina). Da Cibernética, foram herdados vários conhecimentos, entre eles a ideia de retroalimentação e feedback de Wiener e que já foi explicada anteriormente.

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