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UM PROGRAMA, DUAS CONCEPÇÕES

No documento Curitiba - PR 2018 (páginas 86-95)

Entre 1986 e 2018, percebe-se logo de cara uma diferença fundamental: o noticiário factual, na edição mais antiga confinado ao primeiro bloco, na mais atual fica espalhado ao longo do programa, intercalado com outros assuntos. Neste sentido, o único bloco “exclusivo” de notícias do domingo é o esportivo, que continua no final do Fantástico e dá maior destaque ao futebol. Como em 12 de agosto de 2018 não houve Grande Prêmio de Fórmula 1, o campeonato mundial de corredores não foi noticiado naquele dia.

Aronchi (2004) cita o Fantástico como exemplo de programa do gênero revista que consegue manter-se no ar durante longos períodos, ainda que sua estrutura se desgaste com o tempo. Ele argumenta que um dos motivos é o bloco informativo do programa, capaz de fazer com que o público de diferentes classes sociais sinta-se “bem informado” com a pauta oferecida todos os domingos. Como se verá adiante nesta mesma pesquisa, quatorze anos depois dos escritos de Aronchi, o telespectador do Fantástico ainda credita ao programa a capacidade de manter seu público “bem informado” sobre fatos de repercussão geral. Esta preocupação é visível não apenas na estrutura das edições analisadas, mas também em falas da equipe do programa.

Em entrevista ao autor deste trabalho, Bruno Bernardes, diretor do Fantástico, ressaltou a necessidade de reformular-se uma edição do programa diante de acontecimentos de grande importância. A conversa entre ele e o pesquisador aconteceu em 11 de setembro de 2018. Cinco dias antes, o então

candidato à presidência da república, Jair Bolsonaro, fora esfaqueado em pleno ato de campanha em Juiz de Fora (MG). O fato levou a equipe do programa a se mobilizar para produzir materiais que dessem conta de cobrir todas as suas dimensões (retomada do acontecimento, estado de saúde do candidato, perfil do agressor etc).

[...] Na terça a gente tem um start, mas depois a gente tem reunião na quarta, na quinta, na sexta, a gente vai constantemente pensando o programa. E refazendo o programa se for preciso. Se acontece um factual forte, a gente muda tudo. Joga fora matéria e começa a fazer novas matérias sobre o que tá acontecendo. (BERNARDES, 2018)

Ao mesmo tempo em que percebe-se uma preocupação por parte de seus produtores de manter o programa conectado à atualidade, a análise da decupagem das edições torna possível perceber que a “costura” dos fatos atuais ao material

“atemporal” ficou mais natural. A separação radical dos blocos factuais do Fantástico de 1986 do restante do conteúdo se distancia da abordagem do programa em 2018.

O primeiro bloco de ambos é significativo: há 32 anos, o programa concentrava em seu início o material “quente”, a maior parte dele com notas cobertas feitas a partir de imagens remetidas por agências de notícias. Em 2018, reportagens como a de um homem tetraplégico que realizou o sonho de ser pai convivem com matérias sobre latrocínios em São Paulo e tiroteios na Grande Rio ocorridos entre sábado e aquele mesmo dia.

De toda forma, em ambos os programas, parte do material factual foi exibida nos blocos finais. Pela natureza de algumas pautas — em 1986, sobre o resultado das eleições na Espanha, e em 2018, protestos pró e contra supremacia racial nos Estados Unidos, por exemplo —, pode-se inferir que as reportagens ficaram prontas durante a exibição do programa. Algo também relatado por seu diretor (ver APÊNDICE 3).

Outra mudança muito perceptível e importante para compreender a evolução do formato está na apresentação. Nos anos 1980, ainda que já tivesse enorme plasticidade visual e figurasse entre os programas de maior cuidado da Globo, o Fantástico tinha apresentação mais simples, com apresentadores lendo em estúdio, sentados e com foco apenas do busto para cima, as cabeças de cada conteúdo. Os planos não variavam, sendo sempre fechados, em close-up. Não havia interação

entre Sérgio Chapelin, responsável pelo Fantástico “jornalístico”, e os atores que se revezavam na função de apresentar os videoclipes ao longo do programa.

FIGURA 14 — SÉRGIO CHAPELIN APRESENTANDO O FANTÁSTICO EM 1986

FONTE: YouTube23

A edição de 2018, apresentada no cenário integrado à redação introduzido pela reforma de 2014, representa nítida evolução frente à de 1986: os apresentadores se movimentam pelo cenário; não há bancada, e as imagens utilizam long shot, médium shot e close up de forma alternada; as interações são parte fundamental da introdução a cada VT ou material; as artes gráficas são aplicadas mesmo no estúdio. No lugar do cenário virtual que reproduzia detalhes da vinheta de 1983 na edição mais antiga, vê-se estúdio com telão que dá suporte ao conteúdo de cada reportagem. O próprio texto dos apresentadores é mais natural, menos tradicional que o anterior.

23 https://www.youtube.com/watch?v=Nmfga1irVEA

FIGURA 15 — TADEU SCHMIDT E POLIANA ABRITTA APRESENTANDO O FANTÁSTICO EM 2018

FONTE: Globoplay (2018)24

Na estrutura das reportagens, reside outra diferença: em 1986, predominam materiais que são narrados ou por Dirceu Rabelo ou por Sérgio Chapelin, isso mesmo naqueles em que a presença de microfones da Globo e de suas afiliadas (como a RBS TV) permite inferir a participação de repórteres. O elemento dá impressão de unidade ao conjunto, mas, ao mesmo tempo, torna a sucessão dos conteúdos pouco dinâmica. Em 2018, a narração de reportagens pelos apresentadores ainda se faz presente, mas em menor escala. Os repórteres aparecem de forma ostensiva, sendo figuras tão reconhecíveis no programa quando os apresentadores. Há, inclusive, a utilização de duas membras da equipe (sendo uma delas a apresentadora Poliana Abritta) como personagens de reportagens.

A presença feminina é outro ponto inquestionavelmente diferente. Em 1986, os apresentadores do programa eram Sérgio Chapelin, César Filho, Angelina Muniz e Nicole Puzzi. Apesar da aparente igualdade de números, Angelina e Nicole apareciam apenas para apresentar um videoclipe cada uma. Além disso, a própria forma de finalizar os VTs com narração de Chapelin e Dirceu Rabelo reduz consideravelmente a participação das mulheres na edição. Em 2018, porém, além de Poliana Abritta dividir com Tadeu Schmidt de forma igualitária a apresentação do Fantástico, boa parte do reportariado e das fontes dos materiais exibidos pelo programa são mulheres.

24 https://globoplay.globo.com/v/6940210/programa/

Falando sobre o telejornalismo francês e suas transformações nas décadas entre 1970 e 1990, Cohen (2012) relata que a chegada das mulheres às bancadas de telejornais foi consoante com “a tomada de palavra das mulheres na sociedade francesa após 1968” (COHEN, 2011, p.195). O processo, na França, começou em 1976, com Helène Vida, mas se intensificou a partir da chegada de Christine Ockrent ao posto de âncora de telejornal no canal TF1, em 1981. No Brasil, especificamente na Globo, mulheres apresentavam telejornais desde a década de 1970. Mas no Fantástico, sua presença seria vista de maneira fixa a partir de 1988, ano em que Valéria Monteiro tornou-se apresentadora titular do programa ao lado de Sérgio Chapelin e William Bonner (MEMÓRIA GLOBO, 2013).

O aumento da presença feminina no Fantástico, tanto no estúdio quanto fora dele, reflete um peso maior das mulheres nos demais espaços jornalísticos da emissora. Em 1986, o Jornal Nacional era apresentado por dois homens, Cid Moreira e Celso Freitas (MEMÓRIA GLOBO, 2013). Em 2018, a bancada é comandada por um homem, William Bonner, e uma mulher, Renata Vasconcellos.

Ao mesmo tempo, ajuda a maior presença dos repórteres como “rosto” das reportagens. Em 1986, a “costura” do programa ficava por conta da narração de Dirceu Rabelo e Sérgio Chapelin, como relatado anteriormente. A maior quantidade de passagens (trecho de reportagem em que o repórter aparece em vídeo para fazer a transição de um bloco de informações para outro) da edição de 2018 leva mais caras femininas ao vídeo. Entre elas a de Poliana Abritta, repórter e personagem em reportagem sobre fertilidade.

A música está presente em ambas as edições, mas em 1986, ela constitui 19% do material analisado e cerca de 10% da duração total do programa naquele período; em 2018, ela chega a apenas 4% da duração total. Esta redução pode ser fruto de vários fatores: o Fantástico era uma das únicas fontes do público brasileiro, nos anos 1980, para exibição de videoclipes nacionais e internacionais. No caso dos vídeos nacionais, por exemplo, o programa os produzia com artistas de vários estilos. Em 22 de junho de 1986, foram exibidos quatro videoclipes, sendo dois nacionais (de Simone e do grupo RPM) e dois internacionais (de Neil Diamond e David Bowie). A partir dos anos 1990, com a criação da MTV Brasil, esse tipo de atração teve seu espaço reduzido no programa, até que, na década seguinte, simplesmente não fazia mais parte dele.

Em 2018, percebe-se que a música está de volta, mas em outro formato: ao invés de exibir um clipe musical, o Fantástico levou Pitty a seu estúdio para que ela cantasse ao vivo algumas músicas de seu repertório e, no mesmo espaço, concedesse entrevista à apresentadora Poliana Abritta. Os números musicais sequer são exibidos em sua integralidade: a atração é musical, mas a música em si não é seu único conteúdo. Ela é mais um veículo para chamar atenção para o artista que se apresenta e também conta elementos de sua vida e carreira. É uma forma diferente da exibição passiva de vídeos musicais que a edição de 1986 revela.

Tendo o Fantástico como exemplo, Aronchi (2004) afirma que a revista de televisão se caracteriza por juntar entretenimento e informação, e chega a cunhar um termo — infortenimento — para definir o produto de tal miscigenação. Aqui, pode-se aplicar o conceito para compreender a inserção da música no programa nos anos 2010: o musical não é exibido de forma completa porque seu papel não é o de simplesmente entreter ao público, mas também o de informar a respeito do artista. O que nos anos 1980 provavelmente seria uma cabeça apresentada pelo elenco da Globo, agora torna-se uma entrevista em que o músico revela aspectos relevantes da concepção de seu trabalho. No caso de Pitty, cantora que se apresenta na edição de 12 de agosto de 2018, era o retorno ao trabalho depois da maternidade.

Talvez a mudança mais marcante do formato entre uma edição e outra seja no tom das reportagens, especialmente nas de denúncia. Em 1986, o arquivo analisado pelo pesquisador tem uma delas, sobre falsas empregadas domésticas que cometiam furtos em casas nas quais se empregavam. A reportagem tem tom fortemente dramático, sublinhado por trilha sonora orquestral e pelo uso de desenhos, produzidos pela equipe do programa para exemplificar a ação das ladras.

No mesmo VT, em um reconhecimento policial, os rostos dos suspeitos são todos exibidos, prática pouco usual no jornalismo da Globo atualmente (mas ainda adotada pelas concorrentes).

A edição de 2018 tem várias reportagens com tom de denúncia. A que mais se aproxima da relatada no parágrafo anterior é a que relata sequestros de gerentes de banco por quadrilhas especializadas. Vítimas do crime, todas traumatizadas pelo acontecimento, são entrevistadas pela equipe; imagens reais de operações de resgate são exibidas, com a devida proteção às identidades dos gerentes; artes gráficas ajudam a explicar a ação dos bandidos. No entanto, a trilha sonora, ainda que presente e intensa, utiliza base eletrônica, mais hermética que a orquestral.

Além disso, elementos textuais conferem à narrativa elementos fortes, mas não tão assustadores quanto os da reportagem de 1986. Neste sentido, mostra-se uma mudança de tom do Fantástico para narrativas menos sensacionais e mais informativas.

Cohen (2012) analisa a espetacularização da informação através da figura da revista eletrônica L’Heure de vérité, do canal Antenne 2, e que ficou no ar de 1982 a 1995. O nome de revista eletrônica não ajuda a revelar que seu formato está mais próximo de um programa de entrevistas, como definido por Aronchi (2004), mas o programa serve à análise da autora como exemplo da valorização do fait divers no telejornalismo francês em um contexto de abertura da televisão aos canais privados, o que levou a uma competição por verbas publicitárias e, consequentemente, por audiência.

Novamente, a ideia de infortenimento traçada por Aronchi (2004) serve para analisar as reportagens de denúncia das duas edições analisadas do Fantástico.

Tomando-se por exemplo o VT sobre falsas empregadas domésticas do programa de 1986 e o material sobre sequestros a gerentes de banco exibido em 2018, percebe-se que ambos exploram os aspectos mais impactantes de cada fato para passar ao telespectador uma narrativa espetacularizada.

A reconstituição dos roubos das falsas empregadas por meio de ilustrações ou os depoimentos de vítimas de sequestro com mecanismos de proteção a suas identidades são acompanhados de trilha sonora (orquestral, em 1986, e com base eletrônica, em 2018). A voz policial presente em ambas as reportagens também contribui para a construção de ambos os fatos como “preocupantes” para a população em geral. Ainda que em 32 anos o tom geral das pautas de denúncia do Fantástico tenha se amenizado, é possível perceber que as narrativas criadas pelo programa ainda mobilizam recursos que as tornem mais empáticas e, por isso mesmo, impactantes.

Em resumo, pode-se afirmar, com a análise detalhada das edições, que o Fantástico manteve seu formato geral, de uma revista eletrônica com jornalismo, show, esportes e música. Ao mesmo tempo, porém, nota-se que o programa em 2018 é mais guiado pelo jornalismo do que pelo espetáculo, ainda que suas reportagens jornalísticas estejam distantes daquelas encontradas nos telejornais da própria Globo.

Da mesma forma, tanto nos anos 1980 quanto na década de 2010, o programa carrega uma responsabilidade típica de telejornal ao informar seu público dos acontecimentos importantes do dia no Brasil e no mundo. Seu material mais extenso não tem temporalidade definida: são pautas “frias”, como se diz no jargão jornalístico. Ainda assim, assuntos da semana que passou, do dia ou da hora em que o programa é exibido não são negligenciados.

Quanto aos materiais que não estão enquadrados como puramente jornalísticos, percebe-se, além de uma maior integração deles ao restante do programa, uma preocupação de que sejam informativos. Comparando diretamente as intervenções musicais de uma edição e outra, conclui-se que, se nos anos 1980, a intenção era a de entreter com a exibição de videoclipes de diferentes gêneros, em 2018, a ideia central dos musicais é a de contextualizar o conteúdo apresentado. Tal contextualização é feita através de elementos jornalísticos.

8 O QUE O PÚBLICO PENSA SOBRE O FANTÁSTICO

Para compreender como o formato do Fantástico e as alterações feitas nele se relacionam à compreensão do público sobre o programa, o pesquisador realizou, nas ruas de Curitiba, pesquisa com 19 pessoas que vivem na cidade ou em municípios da região metropolitana. A pesquisa consistiu na aplicação de um questionário com 23 perguntas (ver APÊNDICE 4), abrangendo desde aspectos classificatórios (faixa etária, classe social e gênero) até questões pessoais, como profissão e modos de deslocamento pela cidade. A mistura de perguntas objetivas e abertas se deu pela necessidade de se compreender as possíveis relações entre a percepção sobre o programa e a Rede Globo e a vida de cada respondente.

Como descrito no capítulo 7.1, o pesquisador optou por entrevistar grupos de 10 pessoas, um de telespectadores que assistem ao Fantástico pelo menos uma vez por mês e outro com pessoas que não assistem ao programa. Ao final, chegou-se a 19 respostas, chegou-sendo nove25 de telespectadores da revista e 10 de não-telespectadores. As entrevistas foram feitas entre os dias 12 de setembro e 10 de outubro de 2018, e os respondentes foram abordados em pontos de circulação pública da cidade, como as praças Rui Barbosa e Santos Andrade e a rua XV de Novembro.

Sobre o período de coleta das respostas, faz-se necessário ressaltar que, por ele abranger a campanha eleitoral das eleições de 2018, os resultados principalmente das questões dissertativas, responsáveis por apontar as impressões do público sobre o Fantástico, a Globo e a televisão aberta em geral, trazem alguma carga crítica, em alguns casos com discursos politicamente alinhados. Este tipo de resposta é minoria na pesquisa, mas faz-se presente e pode ajudar a apontar alguns elementos de análise ligados ao papel político que um meio de comunicação onipresente na vida nacional acaba desempenhando.

A seguir, esta pesquisa traça três panoramas distintos: os resultados gerais, isto é, entre pesquisados que assistem e que não assistem ao Fantástico, e os números em separado, ou seja, dos espectadores e dos não espectadores do programa. Ao final, alguns aspectos de ambos os lados são comparados, de forma a

25O único perfil que não se conseguiu entrevistar no tempo disponível para a pesquisa foi o de um indivíduo do sexo masculino, com idade entre 30 e 35 anos, de classes A ou B e que assistisse ao Fantástico.

se compreender como o Fantástico repercute em diferentes grupos sociais e também quais as diferenças e semelhanças no consumo de mídia e nas avaliações sobre a mesma feitos pelos dois grupos.

É importante lembrar que, como a pesquisa não foi aplicada em uma amostra representativa da população da Região Metropolitana de Curitiba, os resultados discutidos a seguir também não são estatisticamente representativos das opiniões desta população. Esta pesquisa faz a leitura dos números como opiniões de membros de determinado grupo social, mas não como uma representação daquilo que cada um desses grupos, em média, pensa sobre os tópicos pesquisados. Os percentuais, calculados de acordo com a totalidade de cada grupo considerado, estão arredondados, e por isso sua soma pode não ser de 100%

mesmo em questões com apenas uma escolha de alternativa.

No documento Curitiba - PR 2018 (páginas 86-95)