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Um projeto de vida: tornar-se um “Goethe brasileiro”?

O rompimento entre os dois parece ter sido por causa de Heloisa Alberto Torres que, segundo as lembranças de Milú, exercia muita influência sobre seu pai. “Até nas votações da Academia, era ela que decidia em quem ele deveria votar”. Aconteceu o seguinte: Noemia foi trabalhar com Roquette no Museu. Não era funcionária; estagiava, trabalhando com mineralogia. Recordemos que ele chegou a publicar um trabalho sobre o assunto. A partir de um determinado momento, porém, ele estaria dando muita atenção à filha do grande Alberto Torres. Foi uma grande decepção para Noemia, que nunca o perdoou (Barbosa, 1996, p. 441-443).

No mesmo ano em que nasceu Carmen Lúcia, Riza Baptista passou a viver com Jorge Dodsworth Martins, ex-colega de Roquette-Pinto no Colégio Aquino e depois almirante da Marinha, carreira sonhada pelo antropólogo (ibidem, p. 451-452).

Com efeito, os valores da vida intelectual e científica e as atitudes dos sábios e dos outros, participam também, desde há dois bons séculos, no ativismo econômico geral. Para que possamos pensar no trabalho científico como um investimento nobre, até mesmo heróico, é necessário, antes de mais, que a ação em geral seja valorizada: dito de outro modo, é necessário fazer, agir, criar, superar-se, sentir um estado, conseguir uma transformação espiritual; preferir a energia ao equilíbrio. É necessário que a direção passe do interior para o exterior: que a vontade de transformar o mundo para o controlar triunfe sobre o trabalho virado para si mesmo para se mudar a si próprio. É necessário que um ideal de atividade (conquistadora, científica, criadora) substitua um ideal de sabedoria. A virtù da Renascença, essa energia individual fonte de iniciativas e de aventuras, de grandes explorações e de jogos de poder, essa afirmação de força constituía já uma afirmação de si mesmo e da autonomia da individualidade (Schlanger, 1997, p. 25-26).

A dualidade de movimentos na vida de Roquette era notável. Combinava valores familiares aristocráticos e tendências liberais, bem como tradições “bandeirantes” coloniais com um modelo de vocação moderna. Suas viagens traduziam não apenas alguns dos sentidos da conquista colonizadora como também o espírito científico similar àquele presente pelo menos desde as missões francesas da década de 1810. Roquette procurava atualizar os valores do mundo antigo no qual havia sido criado, moldando-os às mudanças que se apresentavam em seu tempo. Do mesmo modo que a cultura senhorial foi adaptada e somada aos valores liberais, ainda que em uma vertente organicista e de tendência autoritária, as vocações iniciais, pertencentes à lógica daquele mundo aristocrático, converteram-se em e somaram-se a desejos modernizantes e cosmpolitas (pois os sonhos iniciais não foram inteiramente

“abandonados”, mas diluídos e readaptados às novas condições objetivas).

Se as viagens a Serra do Norte na qualidade de antropólogo do Museu Nacional lhe permitiram forjar uma aura de heroísmo, sua fascinação por Goethe e o investimento no conhecimento do autor rendeu-lhe uma alta condecoração do Estado alemão em 1932 (a

“Grande Medalha de Goethe”), um ano antes de Hitler ascender ao poder, por seus estudos e conferências sobre o autor. “1932 é o ano do centenário da morte de Goethe. Neste ano, foi conferida a Roquette-Pinto a Grande Medalha de Goethe, marcada com o seu nome, com a seguinte inscrição: ‘Pró-arte e Ciência. Fundada no ano goetheano de 1932. O Presidente do Reich’” (Ribas, 1990, p. 56). O prêmio foi dado após conferência proferida em 1932.

Alberto Venancio Filho comenta que “a conferência [sobre Goehte] mostra uma total identificação com a vida e a obra do intelectual alemão, tornando-o mesmo um modelo”

(Venancio Filho, 2004b, p. 11). Goethe tinha sido uma referência fundamental em suas leituras desde a infância e a medalha recebida apenas coroava sua dedicação ao pensador:

Roquette-Pinto inicia a sua vida intelectual nos estudos naturalistas. Ele lê autores não tanto conhecidos por terem sido naturalistas e destaca as suas contribuições para com o naturalismo.

O maior exemplo talvez seja o da leitura que fez de Goethe. O conhecido poeta alemão (autor de Fausto) inspirou Roquette-Pinto justamente pela sua visão de mundo: uma visão naturalista. Em 1932, ele publica o texto Goethe, escrito para a Sociedade Pró-Arte, na qualidade de discurso inaugural da Exposição Goetheana. Tal ensaio é publicado também com o título de Goethe naturalista. A questão do Naturalismo era tão forte em Goethe que Roquette-Pinto chega a apontar para uma suposta crença divina que o poeta alemão teria tido na Natureza (Ribas, 1990, p. 32).

O antropólogo entendia que seu combate à idéia de degeneração do mestiço, reinante entre a intelectualidade brasileira, era similar à importância de Goethe na Alemanha, cuja

“influência foi destruidora dos velhos preconceitos, desatravancadora do terreno espiritual”

(Roquette-Pinto, 1932, p. 4-5). Comparando-se ao alemão, queria ter a mesma ascendência sobre a “cultura brasileira” que Goethe teve entre os germânicos. A busca de pontos de contato também se manifestava em relação ao “espírito” científico, notadamente o interesse pela medicina e pelas ciências naturais (Roquette-Pinto, 1932, p. 10-11).

O naturalismo de Goethe auxiliava a sustentar a posição de Roquette no Museu Nacional, mostrando que era possível ser naturalista e, ao mesmo tempo, pensar nos destinos e no “espírito” de seu “povo” e de sua nação. De acordo com a narrativa que Roquette sustentava de si mesmo, teria se “descoberto naturalista” nos primeiros anos de faculdade (Barbosa, 1996, p. 7), o que provavelmente decorreu de seu regime de leituras. Ao afirmar essa “descoberta”, mais uma vez apontava para a noção de “vocação” como fio condutor de sua trajetória de vida: a predileção pelas ciências naturais era apresentada como destino inevitável já desde os primeiros anos de curso superior. No entanto, a aproximação com a antropologia (à época mais próxima às ciências naturais) e com o Museu Nacional foram posteriores e não corresponderam à sua opção profissional preferida desde o início.

De qualquer modo, assim como Goethe teria sido um “civilizador”, Roquette avaliava estar seguindo passos similares aos do alemão cerca de dois séculos depois:

(…) a Alemanha em 1700 estava como o Brasil em 1932 quanto à cultura popular. De um lado, classicaly trained scholars; de outro, uneducated mass.

Aqui, literatura, ciência ou arte para a massa do nosso povo são as que lhe ensinam o cinema e um pouco o rádio ou o jornal político. Na Alemanha, era a função do teatro ambulante, de que em Wilhelm Meister tantos lances são evocados.

Foi quando surgiram os semanários, interessantes para os letrados e acessíveis aos incultos.

(…) O Hamburger Patriot, semanário iniciado em 1724, dizia no idioma da época: “Um alemão deve hoje entender francês, latim e italiano para poder ler um livro na sua própria língua”.

Era ou não era situação equivalente a de um brasiliano de 1932?

A literatura dos acrósticos, dos jeux de mots, dos versinhos de glosa e mote foi, aos poucos, desmontada (Roquette-Pinto, 1932, p. 8, grifos do original).

Ao tentar seguir os passos do mestre alemão, Roquette afirmava-se como “sábio”

capaz de conduzir o Brasil a um estágio mais “civilizado” de sociedade, salvando a nação da submissão ao estrangeiro e dos impulsos da suposta emocionalidade do “brasiliano”. Com isso, buscava o reconhecimento como herói nacional, fundamentando-se em suas pretensas vocações delineadas desde cedo. Seu trabalho não era apenas um trabalho, mas uma espécie de ofício sagrado devotado a um fim supremo. Nesse sentido, Judith Schlanger faz a seguinte análise, na qual engloba os “eruditos”: “de acordo com a opinião vigente, a vocação por excelência é a vocação criadora, a do pintor, do poeta, do músico, do escritor etc. Este conceito inclui também o sábio, mas não o cientista vulgar que se contenta em trabalhar na sua profissão: o sábio épico, heróico, único, genial” (Schlanger, 1997, p. 27). A imagem de

“herói civilizador” e “homem de gênio” que Roquette buscava para si também era desfrutada por Goethe, conforme Norbert Elias ressalta:

Até que ponto são fidedignos os retratos que temos de Mozart, especialmente do jovem Mozart, é uma questão ainda em aberto. Mas um dos traços que o tornam mais atraente ou, se preferirem, mais humano, é que ele não tinha um desses semblantes heróicos, como as bem conhecidas fisionomias de Goethe ou de Beethoven, que os marcavam como homens de gênio, fosse quando entravam num recinto ou quando punham o pé na rua (Elias, 1995, p. 11-12, grifo meu).

Inspirado no exemplo dos gloriosos alemães, Roquette-Pinto trabalhou incansavelmente, legitimou-se através do discurso das ciências naturais, soube se movimentar na lógica dos gabinetes sem deixar de fazer pesquisas de campo destacadas e, a partir dessa sólida base, construiu um pensamento sobre a realidade brasileira, fazendo um diagnóstico do que considerava ser os problemas do país. A partir daí, tomou iniciativas e propôs medidas voltadas ao desenvolvimento social e econômico nacional. Tornou-se mais do que um intelectual: foi um ideólogo, um orientador de políticas oficiais, considerando a educação como o setor que mais precisava receber atenção do Estado. Mas a resolução dos problemas do país através a educação era apenas o “remédio” proposto. Para contextualizar o sentido dessa noção, é preciso analisar seu “diagnóstico”, as linhas estruturantes de seu pensamento.