1. Dos espaços e tempos vividos
1.3 Um re (en) torno: Foucault e Wittgenstein
A opção pelas filosofias wittgensteinianas e foucaultianas, embora em grande parte diferentes, são importantes para tecermos sentidos às concepções de linguagem, sujeito e poder que se articulam tanto com as discussões, análises e descrições das práticas “indisciplinares” de avaliação que constituem a Prova Campinas, quanto com a problematização da normatização simbólico-discursiva das Políticas Públicas de Avaliação Sistêmica que constituem o contexto educacional atualmente.
Embora Foucault e Wittgenstein tenham vivido em contextos sociais e acadêmicos diferentes e estejam vinculados a correntes filosóficas distintas parece-nos importante produzir entre eles algumas aproximações, tentando constituir sentidos, buscar semelhanças e encontrar ressonância entre o que dizem e as políticas e práticas de avaliação do ensino.
A Virada Linguística e o movimento pós-estruturalista, no qual Foucault e Wittgenstein ancoram suas obras partem do “caráter não representacional da linguagem e da sua inextricável relação com o mundo” (VEIGA-NETO, 2007, p. 19). A partir do século XX, assume-se a centralidade da linguagem na construção do conhecimento, passa-se a entendê-la como uma prática social, historicamente determinada e como aquela que constitui, produz e institui modos de ser e de estar no mundo. Nessa outra forma de pensar, “não importa a busca por fundamentos últimos, mas o modo como a linguagem, entendida como um símbolo que depende de regras de uso (e não de associação a fatos) expõe o mundo” (VILELA, 2007, p. 12).
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A partir destas considerações, toma-se a linguagem no contexto deste trabalho a partir das semelhanças e diferenças existentes entre as filosofias de Foucault e Wittgenstein. O conceito de jogos de linguagem de Wittgenstein nos fundamenta para pensar a prática da linguagem em processo de avaliação do ensino, buscar rastros nas
semelhanças de família existentes entre uma prática e outra e assim constituir um outro
modo de entender e praticar avaliação no contexto educacional. Os conceitos wittgensteinianos, articulados ao sentido que Foucault atribui ao discurso entendido também como prática, mas carregado de efeitos de poder, nos permite olhar de outra maneira para o que fundamenta as Políticas Públicas de Avaliação Sistêmica e assim buscar nos fios que tecem estas práticas os elementos normatizadores, as regulamentações ou as regras que direcionam os modos de proceder em avaliações.
Sendo assim, faremos na próxima seção uma apresentação dos conceitos wittgensteinianos de jogo de linguagem, semelhanças de família e gramática que nos servirão de inspiração para buscar nos rastros das práticas de testar, examinar e provar, assim como nos rituais normatizadores da avaliação, outros sentidos que nos possibilitem olhar de forma diferenciada para estes jogos. O propósito não é delimitar as contribuições wittgensteinianas a este espaço, mas situar o leitor sobre os conceitos que serão mobilizados ao longo deste trabalho e que se vinculam a uma concepção de linguagem entendida como prática. Na sequência, apresentaremos as contribuições foucaultianas de linguagem e poder para discutirmos, posteriormente, as Políticas Públicas de Avaliação Sistêmica no contexto neoliberal meritocrático em que se inserem tais avaliações.
1.3.1 A PRÁTICA ENQUANTO JOGO DE LINGUAGEM.
Os escritos de Wittgenstein, filósofo austríaco do séc. XX se dividem em duas fases sobre as quais se assentam concepções diferentes de linguagem. Embora alguns conceitos estejam presentes tanto no primeiro, quanto no segundo Wittgenstein é importante destacar que os sentidos não são os mesmos e que faremos uso, no contexto deste trabalho, da filosofia do segundo Wittgenstein.
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Para o primeiro Wittgenstein a função da linguagem é descrever o mundo (CONDÉ, 2004). A significação de uma palavra, na sua concepção inicial, está diretamente vinculada ao objeto, como se neste houvesse guardada uma essência, mobilizada toda vez que a palavra do “objeto” fosse pronunciada. Assim, objeto, palavra e significado apresentam um sentido indissociável. Esse modo de compreender a linguagem refere-se ao “paradigma da representação”, constituído por concepções filosóficas que entendem a filosofia e a linguagem como uma forma de conhecimento que é essencialmente a representação do mundo (CONDÉ, 2004, p. 60). Neste sentido, o filósofo (apud CONDÉ, 2004) defende que a significação de uma palavra é que lhe permite o uso. É como se a palavra estivesse determinada a ter sempre o mesmo sentido, não havendo possibilidade de questionar o que ela poderia significar e como poderia ser utilizada em diferentes contextos, pois as regras de seu uso já estariam definidas na essência da palavra ao ser enunciada. Não poderíamos pensar nessa concepção que o contexto de enunciação alteraria o seu significado. Entretanto, em um segundo Wittgenstein, esta proposição seria totalmente válida, pois é sobre o uso que se assenta a segunda fase de seus escritos.
Ao abandonar o caráter semântico da linguagem, assumindo-a como prática, Wittgenstein coloca em suspenso uma série de verdades filosóficas e centraliza no uso da linguagem, no que ela tem de ordinária e cotidiana, o papel constituinte e constitutivo da realidade. O modo como o filósofo desconstrói os problemas da filosofia clássica e moderna, atribuindo à linguagem, o papel central da prática filosófica, configura-se como elemento fundamental àquela que ficou conhecida como a Virada Linguística da filosofia contemporânea, e à constituição de outra concepção de conhecimento, construído por meio de uma pragmática da linguagem. Neste sentido, a palavra por si só, não é suficiente para determinar o significado que ela pode assumir em diferentes usos e contextos, já que em cada um desses, a regra de uso e a prática da linguagem é que servem de meios para a significação. Assim, a “cada mudança de regra implica uma mudança de significação, pois a mudança de regra foi acarretada pela mudança no uso, e é o uso que constitui a significação” (CONDÉ, 2004, p. 95).
Conforme aponta Wittgenstein (1975) assim, “nós reconduzimos as palavras do seu emprego metafísico para seu emprego ordinário”. A linguagem passa a ser
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“constituída de elementos dos nossos conhecimentos de modo que, para essa filosofia, a reflexão incide não sobre o que existe e sim, sobre o modo como podemos falar, interpretar e entender as coisas, o uso.” (VILELA, p. 439, 2010). Desta forma, o uso passa a ter relação com a situação na qual as palavras são proferidas. Esta relação se dá por meio de um sistema de referência (Wittgenstein, 1975, p. 93) em que as regras determinam o modo como interpretamos uma linguagem, como a significamos.
O sistema de referência e as regras que o constituem também podem ser equiparados com o conceito de “gramática”, desenvolvido por Wittgenstein, pois para o autor, a gramática é a prática social de uso da linguagem, “o que nos diz o que é lógico e o que tem e o que não tem sentido, o que está dentro e o que está fora dos limites do sentido” (CONDÉ, 2004, p. 92). Conforme aponta o autor16
é o uso que condiciona a regra e essa regra é que determinará se o uso estará correto ou não. Portanto, “a significação de uma palavra é seu uso na linguagem” (WITTGENSTEIN, 1975, p. 43) e este “envolve não apenas expressões e palavras, mas também as atividades e as práticas com as quais estas expressões estão interligadas” (WITTGENSTEIN, 1975, p. 16).
Desta forma, o uso de uma palavra em diferentes contextos não é interpretado somente a partir do dito, mas pelo jogo de linguagem criado no momento do dizer. A prática social da linguagem, a cultura constituinte de determinada comunidade, suas histórias, o modo como cada pessoa se comporta, os gestos, o tom de voz, o olhar e todo o jogo de cena criado no momento da enunciação são responsáveis pelo processo de construção dos sentidos e, por isso, a função da regra é essencial para entender um jogo, pois é por meio dela que nós nos conduzimos e é por ela que somos conduzidos na prática do jogo. Por esta razão, Wittgenstein vinculou a palavra regra ao conceito de “jogo de linguagem17”, pois ela conduz o modo como jogamos e interpretamos uma linguagem. Para o autor, o jogo de linguagem é uma atividade guiada por regras que conduz a uma forma de vida. A significação de uma palavra se dá no cotidiano e na
práxis da linguagem sempre direcionada por “hábitos, costumes e instituições”.
(WITTGENSTEIN, p. 92, 1975). Miguel e Vilela (2008) afirmam, a partir do conceito de
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Ibidem. 17
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regras wittgensteiniano, que ao agirmos em conformidade com elas, não estamos necessariamente sendo obrigados, mas utilizando-as como indicativos de direções, conduzindo os nossos modos de proceder, sem fixá-los nem defini-los.
Wittgenstein não apresentou o conceito de jogo de linguagem de modo fechado, mas desenvolveu o seu sentido ao longo das suas Investigações filosóficas. O intuito de não definir o conceito de “jogo de linguagem” está relacionado também ao abandono da concepção de que a palavra possui uma essência invariável, um significado verdadeiro, determinado ou uma identidade.
Ao contrário, Wittgenstein preferiu dizer que existem “jogos de linguagem” e que entre eles há no máximo semelhanças, não igualdades. É por isso, que se pode utilizar uma palavra em diferentes contextos e em uma frase com diferentes sentidos. As semelhanças que existem entre um jogo e outro são denominadas “semelhanças de
família” (WITTGENTEIN, 1975, p. 52). Essas se referem aos traços que definem certo
grau de parentesco entre o uso que é feito de uma palavra em um jogo de linguagem e o seu uso em outro jogo. Ao invés de indicar algo que é comum a estes fenômenos, em virtude do qual empregamos para eles a mesma palavra, Wittgenstein afirma que estão
aparentados uns com os outros de muitos modos diferentes. Por causa deste
parentesco ou parentescos, chamamo-los todos de “linguagens18”.
Wittgenstein utiliza o próprio exemplo dos jogos para explicitar o sentido de “semelhanças de família”. Ele aponta que existem diferentes tipos de jogos, jogos de tabuleiro, de bola, jogos de cartas e muitos outros. Entretanto ainda que sejam jogos diferentes, cujas regras se alterem, há entre eles traços semelhantes que permitem denominá-los jogos. É sobre estes traços que certo grau de parentesco se mantém e sobre os quais se podem reconhecer os membros de uma mesma família. Assim acontece com os jogos de linguagem, cujas semelhanças nos permitem reconhecê-los e interpretá-los.
Ao estabelecer essa analogia entre diversas características no interior de um jogo de linguagem ou entre vários jogos, o autor das Investigações não está propriamente buscando a identidade, a igualdade de um jogo para outro, mas a diferença que, apesar de existir, ainda permite compreender aquela atividade
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como um jogo de linguagem no interior do qual os usos das palavras estabelecem as significações. (CONDÉ, 2004, p. 56).
Os jogos de linguagem encontram-se, portanto, fundamentados sobre os usos e as regras que definem a gramática como uma forma de vida. Desta forma, a significação de uma palavra está vinculada a todos estes aspectos práticos e normativos19 da linguagem. Sobre o caráter regrado dos jogos de linguagem pretendemos discutir, no âmbito desse trabalho, a normatização das práticas de avaliação, no contexto atual, em relação às práticas indisciplinares que constituem a Prova Campinas.
1.3.2 A PRÁTICA DISCURSIVA ENQUANTO JOGO DE PODER.
Escrever, ainda que sejam algumas ideias de Foucault, coloca-se como um grande desafio, na medida em que ele próprio, sempre lutou contra o aprisionamento dos dizeres. Embora não seja esse o nosso objetivo, o exercício desta escrita não é mais do que a transgressão a sua luta, já que escrever é tentar manter por aqui, do modo como estiveram em algum lugar, na instância de seu acontecimento, os dizeres de Foucault. Tratar os estudos desse filósofo como um “objeto-evento” (FOUCAULT, 2005a) é atender à provocação que nos coloca em uma situação de desconforto. Mas, fazendo nossa a sua palavra, quase imperceptível entre tantas outras, recopia-se, fragmenta-se, repete-se, simula-se, desdobra-se e desaparece sem, contudo, reivindicar o direito de ser senhora de seu próprio dizer, de impor o quer que seja dito.
Assim, nos aproximando de Foucault, filósofo francês, tentamos no âmbito deste trabalho, contextualizá-lo ao modo como fizemos com Wittgenstein, apresentando as principais ideias que se articulam às discussões tecidas nesta pesquisa.
Os estudos de Foucault são comumente divididos em fases. A escolha por uma de suas fases para fundamentar ou inspirar teórica e metodologicamente as pesquisas é uma prática. Ressaltamos, desde já, que nós não nos conduziremos desta forma, por
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acreditar que as contribuições foucaultianas não se encontram engessadas, mas estão no fluxo descontínuo de seus estudos. Nesta direção, preferimos tratá-las a partir de “domínios”, ao modo como nos apresenta Veiga – Neto (1995).
Os domínios dos quais se ocupou Foucault, conforme aponta o autor20 se referem aos sistemas de saberes, às modalidades de poder e às relações de cada um consigo mesmo. Para cada um destes domínios, o autor utilizou um modo de abordagem diferente, sendo para o primeiro a arqueologia, para o segundo a genealogia e para o terceiro a ética.
No primeiro domínio, Foucault realiza um estudo arqueológico. Nele pode-se observar a busca por permanências, fragmentos e regularidades presentes nas práticas discursivas que de certo modo, constituíram formas de saber ao longo da história. A análise arqueológica procura as “articulações entre as práticas discursivas e toda a outra ordem de coisas que se pode chamar de práticas não-discursivas, tais como as condições econômicas, sociais, políticas e culturais.” (VEIGA-NETO, p. 22, 1995). É importante destacar que essas articulações não remetem a mecanismos de causa e efeito, nem para a busca de uma origem do discurso, qualquer que seja este, mas para as suas regras de formação e suas possíveis relações.
Neste sentido, Foucault não faz uma história das ideias, tão pouco das ciências, mas uma análise das possibilidades de uma ordem instituir modos de saber ou como preferiria o autor uma epistémê (FOUCAULT, 1999b) – não mais do que um conjunto de regras – que permite que determinados discursos funcionem, em determinada época, produzindo saberes. Assim, “numa cultura e num dado momento, nunca há mais que uma epistémê, que define as condições de possibilidade de todo saber.” (FOUCAULT, 1999b, p. 229). Uma epistémê se constitui por homogeneidades discursivas. A Ciência, por exemplo, na visão do autor é um tipo de epistémê moderna, controlada, organizada e distribuída por procedimentos que excluem, classificam, ordenam e distribuem o saber considerado verdadeiro. Este processo se engendra, contudo a partir das relações tecidas socialmente, “tudo isso está distribuído difusamente pelo tecido social, circulando em discursos que produzem subjetividades” (VEIGA-NETO, p. 26, 1995).
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Os discursos para Foucault não são apenas entrecruzamentos de palavras e coisas ou manifestações das relações estabelecidas entre uma realidade e uma língua, mas uma prática social constituída por regras que determinam um regime de verdade e que forma “sistematicamente os objetos de que fala”, os saberes e, portanto os sujeitos (FOUCAULT, 1987, p. 56). Os discursos podem também funcionar como “jogos (games), jogos estratégicos, de ação e reação, de pergunta e de resposta, de dominação e de esquiva, como também de luta.” (FOUCAULT, 2005b, p. 9). Deste modo, os jogos discursivos constituem as práticas sociais e são analisados pelo autor (FOUCAULT, 1987) com base no contexto em que são produzidos. O discurso é situado historicamente, o que nos leva a tratá-los no jogo de sua instância, no momento em que unidades discursivas se formam, se produzem, acontecem. Esta característica “situada” dos acontecimentos discursivos é o que nos permite identificar um conjunto finito e limitado de sequências linguísticas ou jogos de enunciados. Estes são praticados e constituídos nas formações discursivas em que se inserem. Sua inserção é marcada por intencionalidades, por relações de poder e por regras de funcionamento. Neste sentido, uma formação discursiva (FOUCAULT, 1987) pode ser assim denominada quando um número de enunciados, tipos de enunciação, regras de formação ou conceitos forem definidos por uma regularidade própria no tempo. A formação discursiva é o lugar onde as simbolizações e os efeitos de sentido podem ser percebidos, situados e determinados.
O conceito de enunciado trazido por Foucault (1987) é importante elemento do discurso, ele possui uma função de existência que pressupõe condições, regras e um contexto sócio-histórico. Um enunciado é sempre constituído por outros enunciados, o que distingue um de outro é o conjunto dos elementos da situação ou da prática discursiva que motivam sua formulação e lhe atribuem um sentido. A enunciação é, deste modo, também um acontecimento que não se repete, tem uma singularidade situada. Isso não quer dizer que um mesmo enunciado não possa ser dito em outro momento ou em outro contexto, mas ao ser enunciado novamente é importante destacar que sua significação e efeito de sentido mudam, pois mudam os sujeitos da enunciação, a função enunciativa, as intenções, enfim, as condições de produção do discurso. Desta forma, não existe enunciado que não suponha outro, pois em torno de
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si existe um campo de coexistências, efeito de séries e de sucessões que distribui ao enunciado sua função. O enunciado tem existência material, essa materialidade se constitui através da ordem de uma instituição discursiva.
É a ordem que nos permite pensar nas relações de poder existentes em uma prática discursiva e no conjunto de enunciados que determina ou possibilita a formação de um discurso. Neste ponto, podemos pensar no surgimento das disciplinas (FOUCAULT, 1997) como campo discursivo, cujas práticas se articulam a formas específicas de exercício de poder, como elemento normatizador que ordena e enquadra práticas sociais e como forma de saber que define verdades. “As disciplinas funcionam como determinações e delimitações dos saberes, construindo critérios de verdade/falsidade e normalidade/anormalidade a que se submetem os enunciados.” (VEIGA-NETO, 1995, p. 26).
Com base nesta abordagem, chegamos ao segundo domínio de Foucault, cuja análise encontra-se vinculada ao poder e ao modo como ele atua na constituição dos saberes. A genealogia, como assim é denominada nos estudos foucaultianos, pretende desmontar, fazer a anatomia das manifestações de poder e assim, descobrir na microfísica que tece as relações sociais, o seu exercício sutil e disciplinador.
A analítica do poder, nos estudos de Foucault pretende buscar os modos pelos quais o poder incide sobre as formas de ser e saber, vinculando-se ao papel do Estado no processo de produção de subjetividades. Este Estado a que Foucault (1999a) se refere, é a nova forma de governo que nasce com o advento da Modernidade e se consolida a partir do século XVIII. Conforme aponta Veiga – Neto (1995), Foucault desenvolve a ideia de que o poder atua através de micropoderes no que temos de mais concreto e material que é o corpo.
Mecanismos de poder e efeitos de verdade que nos condenam, classificam, nos obrigam e nos destinam a uma certa maneira de viver e a uma certa maneira de morrer, em função de discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder. (FOUCAULT, 1999a, p. 29).
Assim, o que Foucault faz é analisar o poder nas suas intenções, na altura do “procedimento de sujeição, ou nesses processos contínuos e ininterruptos que sujeitam os corpos, dirigem os gestos, regram os comportamentos” (FOUCAULT, p. 33, 1999a).
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Outro modo de analisar o poder está relacionado às suas articulações sociais e desta forma, ao governo das populações, ao corpo social enquanto conjunto de seres humanos, enquanto massa populacional. Nessa forma de poder, o que se tem é uma forma de governo que Foucault (1999a) definiu como biopolítica:
Depois da anátomo- política do corpo humano, instaurado no decorrer do século XVIII, vemos aparecer, no fim do mesmo século, algo que já não é uma anátomo-política do corpo humano, mas que eu chamaria de uma biopolítica da espécie humana. (...) Não é exatamente com a sociedade que se lida nessa nova tecnologia de poder (...) Não é tão pouco com o indivíduo-corpo. É um novo corpo: corpo múltiplo, corpo com inúmeras cabeças, se não infinito pelo menos necessariamente numerável. É a noção de “população”. (FOUCAULT, 1999a, p. 291-292).
A partir destas formas, diferentes e inter-relacionais de poder, Foucault propõe que pensemos não somente no poder como algo que age de forma diretiva, mas que atua em cadeia, no poder onde cada um institui e do qual cada um se constitui, no poder que subjetiva em todas as direções, sentidos e abrangências. O poder, que por sua vez, gera saber e gera, portanto, modos de ser.
O indivíduo não é o dado sobre o qual se exerce e se abate o poder. O indivíduo, com suas características, sua identidade, fixado a si mesmo, é o