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UM REINO DIVIDIDO

No documento LUCIANE HAGEMEYER (páginas 55-59)

Cativa, a razão não pode fundar um diálogo entre homens livres: é preciso li-bertá-la. Mas, não libertá-la para a ciência, e sim libertá-la para a doxa, para a prática da palavra, que permite ao homem revelar e revelar-se, tornando transparente os con-textos externos e internos de dominação ilegítima.

Sérgio Paulo Rouanet, 1985.

Nos capítulos seis, sete e oito de The Phantom Tollbooth, o tema da

“Rima” e da “Razão” é desenvolvido em sua plenitude. A história do floresci-mento do “Reino da Sabedoria” e a posterior divisão do mesmo, causada pelo rei Azaz (King Azaz) e seu irmão, o Matemágico (Mathemagician) é contada a Milo por Nentanto Macabra (Faintly Macabre). Este relato não apenas explica o desaparecimento literal das duas princesas, mas também representa alego-ricamente o problema da educação pelo uso da razão instrumental que é a-plicada nos meios escolares.

“Ao atingirem a maioridade, os filhos do rei, Azaz e Matemágico fundaram novas cidades no deserto, para que o reino continuasse a crescer. E assim foi feito. Um partiu para o sul, rumo ao con-traforte da Confusão, e ergueu Dicionópolis, a cidade das palavras; o outro seguiu para o norte, rumo às montanhas da Ignorância, e fundou Digitópolis, a cidade dos números. Ambas floresceram esplen-didamente e os demônios foram empurrados para mais longe ainda. Em pouco tempo, outras cidades e aldeias foram fundadas nas novas terras, até que somente os confins do deserto abrigavam aquelas criaturas –, prontas para atacar, elas esperavam todos os que se aventurassem a penetrar em tais pa-ragens ou se revelassem descuidados” (JUSTER, 1999, p.76).

Mas como o orgulho de cada um dos irmãos se insuflava a cada dia, os dois viviam discutindo e criando argumentos para evidenciar a respectiva im-portância de seus reinos, afirmando a supremacia dos números sobre as le-tras e vice-versa. Esta dicotomia, contudo, era puro nonsense e este modo de pensar sustentava a falta de percepção de ambos os governantes. Como

sabemos a percepção, segundo Herbert Read (2001, p. 75), é a unidade

“Certo dia, quando caminhava tranqüilamente pela propriedade, descobriu duas criancinhas que haviam sido abandonadas numa cesta sob as videiras. Eram duas lindas meninas de cabelos dou-rados. O rei ficou felicíssimo. ‘Foram enviadas para coroar minha velhice’, ele exclamou, chamando para vê-las a rainha, os ministros, os serviçais do palácio e, na verdade, toda a população. ‘Vamos chamar esta aqui de Rima e esta outra de Razão’, disse ele. Com os títulos de princesa da Doce Rima e princesa da Razão Pura, elas foram então criadas no palácio” (JUSTER, 1999, p.77).

Portanto, mesmo sendo princesas de “Sabedoria”, diretamente nenhu-ma das duas fazia parte do mundo das palavras, ou do mundo dos números.

Assim, como nada tinham em comum com os irmãos, posto que eram adoti-vas, os filhos legítimos do rei acharam que poderiam reprimi-las, uma vez que elas não tomavam partido de nenhum dos dois lados. Pela primeira vez, am-bos concordaram em bani-las para o “Castelo no Ar”, que se erguia acima das “Montanhas da Ignorância”, o local mais perigoso de todo o reino.

Após tomar ciência da história, Milo sai da prisão e chega finalmente ao palácio (que se parece com um grande livro) do rei de “Dicionópolis”, A-zaz. É convidado para o banquete real, sem imaginar, contudo, que será o-brigado a engolir suas próprias palavras, literalmente.

Na passagem do banquete a atmosfera20 das obras de Lewis Carroll,

20 Em O Espelho dos Nomes (BAGNO, Ática, 2005) esta atmosfera também está presente quando Ariel, o personagem central, se vê diante de um caleidoscópio que o transforma em menina (a fim de que possa ver as coisas de um modo diferente) e encontra oito irmãs que possuem nomes formados pelas mesmas letras da palavra Alice (são elas: Célia, Laíce, Licéa, Ciela, Cléia, Lécia, Ciléa e Laeci). Elas convidam o “ex-garoto” a participar de uma série de jo-gos de palavras que envolvem desde os trocadilhos, até a criação de uma nova língua cha-mada Gualin.

Alice no País das Maravilhas e no País do Espelho está presente, seja pelo aspecto nonsense ou pela presença de trocadilhos. Estes exemplos apontam para o interesse espontâneo da criança pelos jogos de linguagem, que inclu-em os trocadilhos, os jogos de ritmo, a disponibilidade primeira inclu-em relação ao uso das palavras, que são a essência da criação poética e do fantástico, con-forme explica Jacqueline Held (1982).

O jogo de palavras - todas as formas de jogo: com os sons, ritmos, com os sentidos, com a colocação das palavras - era, inicialmente, na-tural à criança, simplesmente porque o jogo está no centro de sua vi-da. Germe, virtualidade que em si mesma nada tem de genial: não se trata de afirmar aqui que a criança poderia sozinha, extrair tudo de si mesma, nem que é criador formado e acabado. Germe, virtualidade, que se devem ser alimentados e cultivados, abrem já todos os possí-veis, e tanto é verdade que o jogo de palavras está no centro da poe-sia, na raiz do fantástico (HELD, 1982, p. 203).

Em The Phantom Tollbooth, temos na cena do banquete real, brinca-deiras com as palavras dadas pelo exclusivo uso de seus sentidos denotati-vos. O rei obriga Milo a efetuar um discurso, ao qual o garoto sequer conse-gue dar continuidade, pois é interrompido pelos discursos literais do Mausqui-to (the Humbug), da Abelha Soletradora (The Spelling Bee), dos demais con-vidados e, por fim, do rei.

Depois que Milo vence o enfado e a preguiça no primeiro capítulo do li-vro, desenvolve uma percepção mais aguçada dos eventos em que toma par-te, o que lhe confere maior poder discriminatório em relação à paisagem que o cerca. Segundo Herbert Read, a habilidade de discriminação é guiada pelo sentimento estético, que segundo ele marca “o ritmo da vida, mantendo-nos em curso por meio de um tipo de peso e de equilíbrio” (2001, p.40). Assim, começa a perceber a importância do retorno da “Rima” e da “Razão” para restabelecer maior produtividade ao “Reino da Sabedoria”, revelando uma disposição para fazer o que considera correto e adequado.

Após alguma conversa, o rei Azaz não somente concorda com Milo

bre a importância do regresso das irmãs adotivas, como também percebe que o garoto é a pessoa perfeita para efetuar este resgate, dando-lhe o primeiro presente. Trata-se de uma caixa de idéias que contém todas as palavras do mundo. Receptáculo que, contendo palavras, contém os meios de estrutura-ção do pensamento:

“Nesta caixa estão todas as palavras que eu conheço”, disse ele. “Você jamais precisará da maioria delas e só algumas usará com freqüência, porém com elas pode fazer todas as perguntas que nunca foram respondidas e responder a todas as perguntas que nunca foram feitas. Todos os grandes livros do passado e todos os que ainda serão escritos utilizam essas palavras. Com elas, não há obstá-culo que você não possa superar. Tudo o que precisa fazer é aprender a usá-las bem no momento cer-to” (JUSTER, 1999, p.101).

O dom de usar as palavras, oferecido a Milo pelo Rei Azaz, concede-lhe a liberdade para explorar o mundo através da linguagem, fazendo pergun-tas, investigando as alternativas que venham a se apresentar em seu cotidia-no, para chegar a algumas tentativas de respostas. A partir daí Milo leva con-sigo a caixa mágica que lhe será de grande valia no resgate das princesas

“Rima e “Razão“.

No documento LUCIANE HAGEMEYER (páginas 55-59)