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Um retrato da violência nas escolas públicas de São Paulo: o olhar de uma

No documento São Paulo (páginas 74-87)

2.1 O destaque ao tema da violência

2.1.1 Um retrato da violência nas escolas públicas de São Paulo: o olhar de uma

O texto a ser analisado é de 25 de agosto de 2014 e foi publicado no site da APEOESP em 27 de agosto desse mesmo ano. Assinado pelo jornalista Ricardo Senra, da BBC Brasil em São Paulo, afiliada da British Broadcasting Corporation de Londres, trata do tema da violência nas escolas a partir do ponto de vista de um

psiquiatra do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE). (APEOESP MATÉRIA BBC, 2014, on-line).

Trata-se de uma reportagem, gênero dito “sério”, não-ficcional, do discurso jornalístico, que tenta explicar um fenômeno político ou social – fatos que se produzem no espaço público e/ou que sejam de interesse geral. Com base nas considerações de P. Charaudeau (2013, p. 221, 222), tomamos a reportagem como um texto que relata um acontecimento integrando um comentário e, mesmo que esteja ancorado na atualidade, não está ligado diretamente com ela. Espera-se, também, que o repórter demonstre imparcialidade, adote um ponto de vista distanciado e global, buscando a

“objetivação” e diversos pontos de vista. Sabemos que essa imparcialidade é impossível, uma vez que toda construção de sentido depende de um ponto de vista particular e implica tomadas de posição. Ainda assim, é necessário que o texto demonstre, pareça ser imparcial.

Apenas a escolha desse gênero já confere credibilidade ao conteúdo do texto.

E, além disso, alguns usos da linguagem reforçam esse caráter de “texto confiável”, como veremos a seguir.

O título do texto já é bastante chamativo. É uma fala do psiquiatra entrevistado no texto, exposta entre aspas: “‘Professores reclamam mais do medo que do salário’, diz psiquiatra”. A frase iniciada pelo sujeito no plural, “professores”, o verbo referente a esse sujeito no presente do indicativo “reclamam” mostram-nos que se trata de muitos professores, de um sujeito mais generalizado e não particularizado, o que também se confirma pelo uso do verbo no modo indicativo, que aponta para uma convicção e até mesmo um processo habitual, com uma validade permanente, um estado das coisas como são.

Ao dizer que os professores reclamam mais do medo que do salário, o título é surpreendente, pois é sabido que o salário dos professores da rede pública, em geral, é bastante defasado e abaixo dos ganhos de outras profissões de nível superior.

Segundo dados do IBGE/2013, publicados em reportagem do site G1, em 25 de junho de 2015, a remuneração média desses docentes é de 57% do salário dos trabalhadores brasileiros com formação equivalente (G1 DEFASAGEM SALARIAL, 2015, on-line).

A mesma reportagem do portal G1 especifica a remuneração dos docentes das redes estaduais de todo o país e, em São Paulo, o salário para 40 horas semanais

aparece como R$ 2.412,89, ante a média de R$ 4.726,21 dos demais trabalhadores com nível superior. Diante desses números, um título como esse já é suficientemente persuasivo para fisgar a atenção do leitor, ainda mais quando se vê que está entre aspas e que essa frase foi proferida por um psiquiatra, um médico especializado na mente humana.

No primeiro parágrafo, há uma breve apresentação desse psiquiatra que, de acordo com o texto, está à frente das sessões de terapia em grupo para professores da rede pública há mais de 25 anos. Essa brevíssima caracterização do médico, bem como a exposição de seu nome completo, “Lenine da Costa Ribeiro”, instaura um ambiente de muita confiança do leitor para com esse profissional, que será mais adiante entrevistado no texto. Além de ele ter uma formação que o legitima a tratar de um sentimento como o proposto no título – o medo –, seus anos de atuação voltada ao público do qual ele fala lhe conferem ainda mais autoridade. Seu nome e sobrenome conferem veracidade e confiança.

E antes mesmo de expor seu nome e o que diz, apresentam essa caracterização de sua atuação e tempo de trabalho com professores, dando destaque a essa qualificação profissional do médico escolhido para discursar no texto.

Ainda no início da reportagem, já há alguns dados e informações sobre o quanto a violência nas escolas afeta a vida e a saúde dos professores: “o psiquiatra Lenine da Costa Ribeiro diz que as agressões físicas e verbais vindas de alunos são os principais motivos de doenças psicológicas entre os educadores que recorrem ao divã”. Os elementos da frase no plural deixam claro que esse problema é crônico e frequente na rotina desses profissionais. O uso do verbo ser no presente do indicativo também colabora para esse efeito de que o fato relatado é usual, frequente e que não deixa dúvidas.

No segundo parágrafo, atribui-se ao mesmo médico a informação de que seis em cada dez professores não conseguem mais voltar às salas de aula após enfrentarem agressões graves. Essas agressões são exemplificadas como:

“humilhação, ameaças e ataques físicos”, ações muito onerosas para qualquer indivíduo. Esse saber com precisão numérica “seis em cada dez professores” confere ao discurso atribuído a Lenine um importante crédito, um efeito de verdade. Funciona como uma prova concreta daquilo que está sendo dito.

Após essa apresentação, expõe-se um subtítulo “Violência contra professores”, em caixa alta, chamando a atenção também para a forma da frase, e não só para o conteúdo.

Uma série de dados sobre violência contra professores é apresentada, e todas elas segundo algum órgão de importância social: a Prova Brasil, do Ministério da Educação, pesquisa da Unesco, APEOESP e a própria BBC Brasil. Essas informações também transmitem grande confiabilidade, por serem em grande quantidade e formadas por dados numéricos precisos, tais como: “um terço dos professores [...] disse ter sido agredido verbalmente por alunos”, “Um em cada dez afirmou ter sofrido ameaças”, “um a cada 50 disse ter sido agredido fisicamente por estudantes”, “83% dos alunos [...] disseram que havia violência nas escolas públicas onde estudavam”, “Entre professores e funcionários, o número sobe para 86%”,

“Cerca de 30% deles viram armas nas mãos dos alunos”, “44% dos professores da rede estadual [de São Paulo] afirmam já terem sofrido alguma violência [...] nas escolas onde dão aula”.

Vemos que o argumento de autoridade é muito utilizado no texto. Em diversos momentos, a BBC Brasil dá voz a instituições renomadas e ao psiquiatra, que também expõe algumas consequências da violência nas escolas na vida dos profissionais da educação. Algumas dessas consequências são, segundo o médico Lenine Ribeiro:

“esses educadores tendem a ser vistos como figuras menos importantes”, no caso dos professores que têm que se readaptar, ou seja, os que voltam para a escola assumindo funções na secretaria, na biblioteca etc., e “Desinteresse pela vida, depressão, perda de memória, problemas de cognição são algumas das consequências [...]”.

Em um dado momento, Lenine Ribeiro é entrevistado e o enunciador convida o leitor a ler “os principais trechos da conversa”. A partir dessa expressão, podemos perceber que a entrevista é vista de modo um tanto informal, o que cria um efeito de maior proximidade com os leitores, já que é chamada de “conversa” e ainda fica pressuposto que esse diálogo entre a BBC e o psiquiatra foi maior do que o exposto na reportagem, que diz destacar os principais trechos. Quem fala seleciona e na eleição do que dizer reside a não neutralidade. O fato de ter havido seleção pode implicar que esses “principais trechos” seriam aqueles que reportam acontecimentos

graves, ou os que foram desconsiderados representariam uma repetição dos que foram listados, entre tantas outras possibilidades.

Como se trata de uma entrevista, cabe também comentarmos um pouco sobre esse gênero, que se insere no domínio do discurso jornalístico. A entrevista é uma prática social muito comum e perpassa as modalidades oral e escrita da língua. É um gênero primeiramente oral, pois seus interlocutores geralmente estão face a face formulando e respondendo perguntas, anotando dados, etc. Nesse caso, uma análise desse momento da entrevista requereria que falássemos de aspectos como gestos, tom de voz, posições corporais dos participantes, entre outros fatores, além de considerar relevante o lugar em que se situam, como por exemplo: na casa de um deles, na rua, em uma instituição da mídia etc. Neste estudo, porém, vamos nos deter ao texto escrito, já organizado, redigido e “filtrado” pelo jornalista.

A entrevista é um gênero apropriado para que conheçamos sobre determinadas pessoas – em seus aspectos físicos, psicológicos, profissionais –, e/ou sobre assuntos que elas dominem. Por esse motivo é que podemos dizer que toda entrevista tem, fundamentalmente, o propósito de obter informações, de coletar dados dos mais variados tipos. Sobre isso, Cristián E. Ramillón nos diz que a entrevista:

Es un fenómeno peculiar entre dos seres humanos (o más, pero se modifican ciertas reglas) en el cual sus participantes se predisponen a esta modalidad de relación, para obtener los mayores beneficios de ella. Entre ellos se encuentra indefectiblemente el conocer más o mejor al otro; y generalmente lograr ciertos efectos con él, o tomar ciertas decisiones por o con el entrevistado. (RAMILLÓN, 1998, p. 7).

Ainda de acordo com Cristián E. Ramillón, a entrevista sempre está em busca da “realidade”, da “verdade” e, por esse motivo, pode haver nela uma atmosfera de dúvida porque existe a possibilidade de que a informação dada pelo entrevistado não seja veraz. Ela é, ainda, basicamente composta por, pelo menos, dois participantes:

o entrevistador – que se encarrega das perguntas –, e o entrevistado – que se encarrega das respostas. Nesse sentido, é importante que observemos o que nos diz Judith Chambliss Hoffnagel sobre esses participantes, ao citar as palavras de Schneuwly e Dolz, pois para eles a entrevista é considerada:

uma prática de linguagem altamente padronizada, que implica expectativas normativas específicas da parte dos interlocutores,

como num jogo de papéis: o entrevistador abre e fecha a entrevista, faz perguntas, suscita a palavra do outro, incita a transmissão de informações, introduz novos assuntos, orienta e re-orienta a interação; o entrevistado, uma vez que aceita a situação, é obrigado a responder e fornecer as informações pedidas. (apud HOFFNAGEL, 2002, p. 181).

Por essa citação, vemos que as etapas da entrevista são bastante controladas pelos interlocutores que, ao assumirem seus papéis, têm de respeitar as “regras”

desse gênero e desempenhar suas funções – de entrevistador ou entrevistado – de maneira coerente. E por falar em interlocutores, cremos ser necessário demonstrar algumas peculiaridades tanto do entrevistador quanto do entrevistado.

Se voltarmos nosso olhar para o entrevistado, vemos que ele é aquele que será (re)conhecido, mesmo que só revele a “realidade” que desejar, visto que molda sua fala de acordo com as intenções que tem com a entrevista. De acordo com Ramillón (1998, p. 29), suas referências profissionais, pessoais, familiares – dependendo do enfoque da entrevista – são fundamentais para o entrevistador: “El reconocimiento de las cualidades del postulante pesan mucho en la elección de preguntas que va a realizar el entrevistador.”

Assim, o passado do entrevistado sempre está presente na entrevista:

La historia de vida del entrevistado se hace “presente” en el encuentro, fundamentalmente en aquellos temas que hacen a la congruencia de la interrelación. Una pregunta sobre los estudios anteriores, trabajos realizados, síntomas observados, convivencia con los padres, y miles de ejemplos más, nos reflejan lo antedicho.

(RAMILLÓN, 1998, p. 38).

No caso do entrevistador, a biografia nem sempre contribui para a situação da entrevista: “El pasado del entrevistador no siempre se hace presente, a veces no es necesario. Y es reemplazado por el (pasado) de la institución o el marco formal al cual representa” (RAMILLÓN, 1998, p. 39). De fato, na entrevista em questão, podemos ver a referência à vida pregressa do entrevistado apenas no que se refere à sua atuação profissional. Quanto ao entrevistador, observamos exatamente o que afirma Ramillón: seu passado não se faz presente, mas é substituído pelo crédito da instituição que representa, a BBC. Aliás, já que falamos de instituição, parece-nos básico comentar que ela exerce um papel de extrema relevância sobre o entrevistador:

El entrevistador “carga” sobre si el sobrepeso de los objetivos de todos o buena parte del personal jerárquico que está involucrado en la búsqueda. Descargan en él la representación de aquellas expectativas que tienen para el puesto, además de ser el representante de la empresa. (RAMILLÓN, 1998, p. 24).

Para Judith C. Hoffnagel, há as entrevistas que dialogam com “um especialista em algum assunto com a finalidade de explicar um fenômeno. O especialista, raramente, é conhecido pelo público em geral, e suas credenciais estão explicitadas na sessão introdutória da entrevista”. (2002, p. 183). O texto aqui analisado corresponde a esse tipo de entrevista.

Um importante recurso desse gênero é o uso do discurso direto:

o discurso direto (DD) não se contenta em eximir o enunciador de qualquer responsabilidade, mas ainda simula restituir as falas citadas e se caracteriza pelo fato de dissociar claramente as duas situações de enunciação: a do discurso citante e a do discurso citado.

(MAINGUENEAU, 2002, p. 140, grifos do autor).

Além disso, Maingueneau nos diz que o DD se apresenta como uma reprodução exata do que diz um determinado enunciador e esse “recurso” lhe dá um caráter de fidelidade, verossimilhança. O autor acrescenta que “Mesmo quando o DD relata falas consideradas como realmente proferidas, trata-se apenas de uma encenação, visando criar um efeito de autenticidade.” (2002, p. 141).

Para Maingueneau, há uma grande diferença entre um enunciado produzido em uma situação efetiva de fala, com entonação, gestos etc. e um enunciado em DD, produzido em um contexto totalmente diverso. Sobre isso, o autor acrescenta:

Como a situação de enunciação é reconstruída pelo sujeito que a relata, é essa descrição necessariamente subjetiva que condiciona a interpretação do discurso citado. O DD não pode, então, ser objetivo:

por mais que seja fiel, o discurso direto é sempre apenas um fragmento de texto submetido ao enunciador do discurso citante, que dispõe de múltiplos meios para lhe dar um enfoque pessoal. (2002, p.

141).

A escolha do DD geralmente está relacionada ao gênero do discurso e pode ter os seguintes objetivos: a) criar autenticidade; b) distanciar o enunciador que cita do dito no DD, criando uma oposição entre eles; c) mostrar-se objetivo, sério; d) dar um caráter oral espontâneo à frase etc. (MAINGUENEAU, 2002, p. 142, 143).

Os participantes do discurso – o entrevistado (especialista) e o entrevistador (jornalista) – representam papéis sociais bastante importantes. O primeiro é o

“detentor do saber”, o sujeito devidamente legitimado para responder às mais variadas perguntas sobre seu campo de pesquisa e atuação; o segundo, além de ser representante de um meio de comunicação sério e de uma grande empresa, é, também, o divulgador das informações colhidas. Ambos cumprem, pois, papéis extremamente significativos para os leitores.

Essa busca pela verdade na entrevista pode se dar, então, pelos seguintes fatores: por se tratar de um texto veiculado por uma mídia de grande expressão; pelo próprio caráter da entrevista que, constantemente, “persegue a verdade”; por entrevistar um profissional especializado, perito, aquele que não poderia ceder dados falsos, não comprovados, aquele que evita opinar sobre assuntos que não conhece a fundo. Dito isso, voltemos nosso olhar para o texto da entrevista.

O jornalista não se coloca como pessoa nas perguntas. Fala em nome da BBC Brasil, como é muito usual em outras mídias também. São nove perguntas ao médico psiquiatra. O entrevistado é identificado pelo nome completo na sua primeira resposta e, em seguida, apenas pelo sobrenome Ribeiro.

Ao ser indagado sobre a recorrência do tema violência nas sessões de terapia, o médico afirma que “O medo dos alunos, as situações de agressão e humilhação e a sensação de impotência são as queixas mais comuns nas reuniões [...]. Os professores reclamam mais do medo do que do salário”. Por essas falas, não só é possível ver as principais queixas dos docentes das escolas públicas do Estado de São Paulo, como também fica pressuposto o quanto o ganho salarial desses profissionais é insatisfatório e até motivo de reclamação constante. É como se fosse incomum que falar sobre o medo se sobreponha a falar sobre o salário.

Essa ideia também se reforça no trecho em que o psiquiatra diz: “Fala-se sempre sobre salário ou infraestrutura das escolas, mas a insegurança do professor em relação aos alunos é um tema bem mais frequente”. A segunda oração da frase, iniciada pela conjunção adversativa “mas” enfatiza a ideia que vem dessa segunda oração. Segundo Maria Helena de Moura Neves, “o MAS [...] coloca o segundo segmento como de algum modo diferente do primeiro, especificando-se essa desigualdade conforme as condições contextuais” (2011, p. 756) e ainda acrescenta

que, nos casos em que o “mas” inicia orações, o argumento que vem em sua sequência é superior ao anterior, que é menos relevante do que o que vem acrescentado. Na oração em questão, o “mas” inicia o argumento de que a insegurança é um tema mais frequente nas sessões de terapia e, também, mais saliente.

Na segunda pergunta feita a Lenine Ribeiro, sobre as consequências dessa insegurança para a saúde dos professores, a resposta é bastante desfavorável aos professores, pois o entrevistado cita quase uma dezena de efeitos danosos e considerados graves, tais como sintomas de pânico em diferentes níveis, falta de interesse pela vida, dificuldades de cognição, entre outros, todos igualmente sérios e penosos, visto que, segundo o especialista, não respondem rápido aos tratamentos.

Todas essas alterações no estado de saúde dos professores são muito nocivas, ainda mais se pensarmos que se trata de uma profissão que exige um exaustivo trabalho intelectual e que, por esse mesmo motivo, seria onerada com sintomas como perda de memória, fobias etc.

Em vários momentos da entrevista, também, o psiquiatra Lenine Ribeiro menciona outra consequência decorrente da violência nas escolas, que é o afastamento dos professores. Esse efeito negativo afeta não só a vida do docente, mas também a dos alunos e a de toda a comunidade escolar, que perde com essa falta de profissionais.

Em reportagem divulgada em 10/10/2012 no site do G1 (G1, 2012, on-line), afirma-se, também, que 40% dos professores afastados por saúde no Estado de São Paulo têm depressão, segundo estudo feito pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de SP (APEOESP). A matéria considera que esse problema é agravado pelo excesso de trabalho e pela falta de respeito a esses profissionais. Além disso, há o seguinte depoimento de um psiquiatra: “Por mês, o psiquiatra Marcos Nogueira, atende, em média, três professores da rede estadual. E os relatos são muito parecidos. ‘A falta de respeito, a falta de educação e violência por parte dos alunos’, comentou Nogueira”.

Os afastamentos são mencionados na entrevista pelo psiquiatra Lenine Ribeiro em vários momentos: “tratamentos [...] costumam ser longos, assim como os períodos de afastamento, que chegam a durar mais de um ano”, “Muitos deles são afastados

das escolas até que consigam se recuperar”, “Uma porcentagem importante, em torno de 60% dos pacientes, volta para a escola ocupando funções administrativas, ou na biblioteca, na secretaria”, “A readaptação é às vezes a única maneira de dar continuidade ao cargo”, “Posso falar sobre o momento do retorno. Os readaptados dizem sempre sofrer algum tipo de prejuízo [...]. É como se eles passassem a ter menos valor do que aqueles que estão lecionando”.

Ao discorrer sobre os principais relatos compartilhados nas sessões de terapia, Ribeiro declara: “Há pessoas que tinham grande capacidade de dar aulas, articulação didática, e que ficaram completamente apáticas”, “Ele não consegue mais se impor e perde toda a autoridade diante da turma”. Essas considerações deixam pressuposto que os professores, pacientes do setor de psiquiatria do IAMSPE, não eram profissionais inaptos para lecionar, pois se não conseguem “mais” se impor, é porque um dia conseguiram. Se “ficaram” apáticos é porque não eram assim, mas se tornaram. O verbo de ligação indica o estado que os professores passaram a ficar e a oração ainda agrava essa condição pelo uso do advérbio “completamente”, que generaliza, amplia e agrava a apatia mencionada.

Ao dizer, ainda, que “tinham” grande capacidade de dar aulas, o verbo no pretérito imperfeito do indicativo não só aponta para uma descrição do que ocorria regularmente no passado, mas também deixa implícito que não têm mais essa capacidade para dar aulas. O modo indicativo faz com que o fato seja visto como real, com mais convicção.

Na quinta pergunta da denominada “conversa”, o entrevistado é indagado sobre algum caso que o tenha marcado, numa tentativa de resposta mais subjetiva. E o psiquiatra conta um caso de uma professora que não conseguiu mais dar aulas após ser agredida verbalmente por um pai de aluno. O relato do entrevistado nessa resposta é bastante forte, com diversas expressões intensificadoras: “o pai [...] foi muito intensamente agressivo no auditório repleto de pessoas”, “A maneira agressiva com que ele tentou tirar satisfações foi tão hostil e a estressou de tal forma [...]”, “A

Na quinta pergunta da denominada “conversa”, o entrevistado é indagado sobre algum caso que o tenha marcado, numa tentativa de resposta mais subjetiva. E o psiquiatra conta um caso de uma professora que não conseguiu mais dar aulas após ser agredida verbalmente por um pai de aluno. O relato do entrevistado nessa resposta é bastante forte, com diversas expressões intensificadoras: “o pai [...] foi muito intensamente agressivo no auditório repleto de pessoas”, “A maneira agressiva com que ele tentou tirar satisfações foi tão hostil e a estressou de tal forma [...]”, “A

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