II. Cristianização de Remexio
3. Um segundo professor-catequista para Remexio
Entretanto, o liurai desceu com a família (já cristã) a Díli para apresentar cumprimentos ao bispo, D. Jaime em Lahane. Nas imediações da residência do bispo, vivia o professor-catequista Marçal de Andrade. A presença da filha mais velha do
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Cf. Livro de Assento Baptismos nº 16/1948 (Anexo IX).
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liurai despertou-lhe imediatamente a atenção. Informado sobre a identidade da menina e
e de seus pais, tratou logo de contactar o primo Zacarias e pedir-lhe para ser o portador da carta que ele iria enviar ao liurai Mesquita para pedir a mão de sua filha. A carta foi, por isso, apresentada ao liurai pelo catequista acompanhado das devidas recomendações que o caso exigia. Falando em particular com a sua aluna, o mestre advertiu “não te preocupes, ele (Marçal) é velho, mas é boa pessoa”262. Aceite o pedido, compareceram em Remexio os catuas de Alas para acertar, formalmente, com o liurai e os seus catuas e principais do reino o contrato de casamento, segundo as normas rígidas da tradição. Perante o constrangimento dos catuas de Alas em relação à desigualdade de estatutos sociais entre o mestre Marçal (simples filho do povo) e a princesa Ana Teresa, que exigiria, segundo a tradição, dotes elevados263, o pai desfez imediatamente o embaraço com esta resposta: ”Não, não, aqui não se trata de casamento entre rico e pobre, entre
liurai e gente do povo, aqui trata-se do casamento de dois filhos de Adão e Eva”264. Feitos os acertos, teve que se aguardar para que a noiva completasse 15 anos de idade para a realização do enlace matrimonial canónico que veio a concretizar-se a 12/09/1949265. Depois de morarem um ano na missão de Lahane, mudaram para Remexio em Junho de 1950. Mais uma valia para o liurai e para a nova missão de Remexio266.
Uma vez que se fez referência a um casamento nos moldes tradicionais de Timor, convém esclarecer-se as normas pelo qual se rege. Portanto, o casamento gentílico timorense, designado em tétum e português de Timor por barlaque, é orientado pelos “termos jurídicos” habani e hafoli267.
Hafoli: de halo (fazer) e folin (preço) é um verbo que significa apreçar,
combinar o preço de, adquirir por compra. Como termo jurídico na expressão hafoli-feto (comprar mulher) quer dizer casamento mediante a compra da mulher, ficando esta na absoluta dependência do marido e respectiva família. Todos os filhos do casal ficam a pertencer à linhagem paterna.
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Contou mais tarde, Ana Teresa aos seus filhos já em Portugal. Em 1948, mestre Marçal tinha 32 anos e Ana Teresa 14 anos.
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“Passam por fabulosas as somas que os pretendentes dispensam em ouro, objectos e animais, para conseguirem a filha de um régulo”. Sá, Artur Basílio (1952), Timor, p. 28.
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Contou um dos meus tios paternos quando em Setembro de 2001 fiz questão de questionar, em Alas, aos tios paternos, por que razão o meu pai fora morar para Remexio e não a minha mãe para Alas como era habitual em Timor.
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Cf. Livro de Assentos de Casamentos Canónicos 26/fls.26/1949 (Anexo IX).
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Fiz questão de falar deste casamento, pelo contributo que isso veio dar (o mestre Marçal, mais tarde as suas filhas), ao desenvolvimento da nova missão de Remexio.
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Habani: de halo (fazer) e banin (sogro, sogra), também é um verbo que significa
contrair casamento gentílico, sem a obrigação de pagar o fôlin da mulher, indo o nubente viver para casa da nubente. Neste regime, apenas um filho, geralmente o segundo, pertence ao pai, indo ficar com os avós paternos. Por isso, a expressão consagrada é, vulgarmente: fó ba aman rin, fó ba aman fátin, isto é, “dar para arrimo do pai, dar para o lugar do pai”268.
Não foi cumprida, da parte do mestre Marçal, a entrega da segunda filha, Francisca, à casa (uma) dos avós paternos: Aliás, o príncipe-herdeiro, para evitar que a sobrinha fosse levada para Alas, foi a Aileu, onde estava a leccionar o mestre Marçal, e levou a sobrinha para Caimauc. Por isso, em 2004, desloquei-me a Austrália para levar a minha irmã a Alas e introduzi-la na uma liçan do nosso avô paterno (Mau-Berek). Reuniram-se centenas de familiares para este ritual. Colocadas as duas manas no regaço de suas primas (mais velhas), foram retiradas as veste europeias e vestiram-nas de timorense, gesto que significava um novo nascimento para a família paterna. Após uma prolongada recomendação a Deus e aos antepassados, seguiu-se uma grande festa, onde muito se petiscava, mas mais se falava. Os nossos primos fizeram questão de nos pôr ao corrente dos seus usos e costumes pela noite dentro. Feita a introdução, a Francisca pôde voltar para a Austrália, onde residem o marido e os filhos. Bastou a introdução na
uma liçan do avô paterno, explicaram. O nosso primo directo (Vidal) exclamou,
emocionado: “Esta gente saiu para Portugal e Austrália, mas continua a ter consideração por nós e pelos nossos usos e costumes”. Ele serviu sempre de intérprete, durante as nossas reuniões, pois os familiares de Alas falavam tétum térik, mais elaborado, e nós só entendíamos o tétum popular.
Entretanto o liurai deixou a residência do antigo posto sede de Remexio, pertencente ao reino de Manumera, e assentou residência com a família em Caimauc, numa localidade chamada Nuno-Damar (local onde nasci em 1953). Estando na região de Caimauc, o liurai podia desenvolver à vontade plantações de café e várzeas de arroz na zona ribeirinha de Liuhani. Concedeu terrenos ao genro, onde trabalhou como agricultor até ser colocado na escola da missão de Aileu, em 1954. O liurai só se deslocava ao posto sede com os seus principais para as reuniões semanais com o chefe de posto e, com toda a família, quando havia visitas missionárias.
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