Capítulo 1. Nas dimensões do Tempo
1.1 Um Tempo presente
Quartel de Santo Ovídio e a sua caracterização arquitetónica atual
O Quartel de Santo Ovídio15, sua primeira designação, faz parte de um conjunto alargado de aquartelamentos militares existentes na cidade do Porto, sendo entre estes o mais antigo. Constitui-se num único edifício de traça Neoclássica, de grande volumetria,
14 In Documentário de José Campos. Lanhas, o mais desirmanado. 2001 https://arquivos.rtp.pt/conteudos/lanhas-o-mais-desirmanado/
15 Tomou outras designações, tais como Quartel-General da região Militar Norte, Quartel de Infantaria 18, Direção de Comando do Pessoal.
Figura 1 - A aproximação ao edifício do Quartel de Santo Ovídio – Porto.
Registo de Maria Antónia Bacelar.
26 inserido na parte alta da malha urbana da cidade. Ocupa a totalidade de um dos seus quarteirões, contrastando na sua volumetria com as outras construções que se implantam em lotes estreitos, compridos e dispostos em banda contínua, definindo assim o alinhamento do arruamento.
Encontra-se localizado no extremo Norte da Praça da República, no seu tramo mais elevado. Fecha um harmonioso conjunto urbano de traça muito característica e que se movimenta entre o carácter erudito e o gosto popular, o que lhe confere um particular cariz de espírito do lugar16, sustentado na identificação de um conjunto de características socioculturais, arquitetónicas, de linguagem ou estilos.
Neste contexto urbano sobressai o edifício do Quartel, não só pela sua escala e impacto arquitetónico, mas também pelas suas memórias e heranças militares, memórias de vivências da população da cidade, vertidas em histórias contadas e aprendidas por gerações.
16 Questões abordadas por Norberg-Schulz (Norberg-Schulz, 1980) e Aldo Rossi (Rossi, 2001).
Rua de Antero Quental Igreja da Lapa
Rua da Lapa Rua da Regeneração Largo da Lapa Rua de Cervantes
Rua do Almada Praça da República
Rua dos Mártires da Pátria
Rua de Alvares Cabral Rua da Boavista
Rua e Viaduto Gonçalo Cristóvão
Figura 2 - Planta de identificação dos arruamentos envolventes e vista aérea da Praça da República e do Quartel de Santo Ovídio e Praça da República. Autoria de Maria Antónia Bacelar.
27 Confronta a sul diretamente com a Praça da República, grande espaço urbano ajardinado e arborizado, um dos maiores da cidade. A norte com o Largo da Lapa17, outro espaço público, de menores dimensões e de forma irregular, arborizado e provido de estacionamento entre o acesso à porta de serviço do Quartel e o acesso à escadaria da Igreja da Irmandade Lapa. A Nascente, confina com a Rua da Regeneração18, artéria que dá continuidade à Rua do Almada, uma das principais da cidade. A poente, com a Rua da Lapa19, que estabelece com este quartel uma espécie de paredes meias desde a sua edificação.
17 No Largo da Lapa encontramos o Hospital da Irmandade da Lapa que define o gaveto com a Rua de Cervantes, dando início à ligação com a zona de Águas Férreas, de ligação à Rua de Antero de Quental.
Estabelece a articulação entre Arca d’Água e a baixa da cidade.
18 Rua da Regeneração, assim designada em memória da insurreição militar de 1 de maio de 1851 que levou à queda de Costa Cabral e dos governos de inspiração setembrista. Composta por edifícios maioritariamente de habitação coletiva de 3 a 4 pisos e algum comércio de rua nos edifícios mais próximos à Praça, memória arquitetónica dos anos 40/50 séc. XX.
19 A Rua da Lapa é composta por pequenos edifícios de comércio local no piso térreo e habitação (hoje Hostels e Alojamento Local) ou pequenas oficinas… desembocando na Rua da Boavista, artéria importante da cidade que põe em comunicação retilínea, esta zona alta e antiga da cidade com as estruturas urbanas mais próximas no tempo, como a Rotunda da Boavista e a Avenida da Boavista constituindo a nova centralidade, definida por núcleos de expansão urbana do Estado Novo e muito intervencionados nas décadas que lhe seguiram.
Figura 3 - Imagens de pormenor do Quartel de Santo Ovídio.
28 Outras artérias, de grande importância na cidade, fazem o acesso ao quartel pela Praça da República, conduzindo e escoando o trânsito automóvel e perfazendo as vias de circulação de transportes públicos, incluindo o viaduto subterrâneo do metro20.
É assim lugar de várias confluências, ruas e de gentes, onde se destacam a Rua da Boavista, a Rua Álvares Cabral, a Rua do Almada e a Rua e Viaduto Gonçalo Cristóvão, que posicionam o quartel e lhe dão acesso e visibilidade.
A Praça da República fecha o perímetro em torno do quartel pelo seu lado Sul, hoje denominada de Jardim de Teófilo Braga21, caracterizado por uma vasta área ajardinada, arborizada e repositório de um conjunto de esculturas, dispostas entre canteiros e bancos de jardim. Destacam-se a escultura Baco (1916 - bronze) de António Teixeira Lopes, a escultura Padre Américo (1959/61 - bronze) de Henrique Moreira e a escultura República (2010) de Bruno Marques.
Esta Praça é ainda hoje um dos pontos centrais da cidade. Testemunha espacialmente a memória histórica e cultural deste lugar. Foi mandada edificar por João de Almada e Melo22 (1703-1786) para logradouro público no então chamado Campo de Santo Ovídio.
Com a construção do quartel no seu extremo norte, por ordem da Rainha D. Maria I, fez desta área livre, aberta e de grandes dimensões, uma espécie de palco de exercícios militares e de alguns momentos políticos importantes, tais como:
A concentração das tropas liberais no pronunciamento militar de 24 de agosto de 1820;
O encontro do Batalhão de Caçadores nº 9 e a Infantaria 10 na Revolta de 31 de janeiro de 1891;
A sede do posto de comando nortenho na revolução de 25 de abril de 1974.
20 Viaduto ferroviário da Lapa/Trindade, construído nos anos 30 (séc. XX) aquando da ligação à Linha da Póvoa, estabelecendo a circulação entre as estações ferroviárias da Avenida de França e a Trindade. Desde 2002 passou a integrar a Linha do Metro do Porto.
21 Jardim Teófilo Braga em homenagem ao poeta, escritor e professor, pela sua participação na Revolta de 31 de janeiro de 1891. Como membro do Partido Republicano Português (PRP), tendo colaborado e subscrito o Manifesto e Programa do PRP. Este manifesto e a sua apresentação pública precederam em três semanas a Revolta de 31 de janeiro de 1891, no Porto, à qual Teófilo Braga se opôs, tal como a maioria dos republicanos lisboetas.
22 Senhor de Souto d' El-Rei, é lhe atribuída a visão estratégica da expansão urbana da cidade, no século XVIII e que veio organizar o seu crescimento. Procedeu à abertura, prolongamento, retificação e grandes melhoramentos de arruamentos e logradouros.
29 Circundada por um comércio diferenciado de outras áreas da cidade, entre tabernas, casas de chá, hostels, comércio de trajes académicos, galerias de arte e gabinetes de arquitetura, procurando hoje o equilíbrio entre o tradicional portuense e o contemporâneo revivalista.
Desde 2012 o Quartel de Santo Ovídio possui a classificação patrimonial23 de Monumento de Interesse Público24 (MIP), pela Portaria n.º 740-FE/2012, DR, 2.ª série, n.º 252, de 31-12-2012.
Esta atribuição imputa-lhe uma área de proteção urbanística e arquitetónica, a qual determina por legislação própria que:
23 Em Portugal, tal como acontece na maioria dos países europeus, as intervenções nos bens culturais protegidos são submetidas a uma autoridade competente, especificamente vocacionada para a gestão do património cultural. No caso dos bens classificados, com os graus de interesse nacional e interesse público e, no caso do património arqueológico, essa autoridade é a Direção Geral do Património Cultural em articulação com as Direções Regionais de Cultura.
Para mais informações consultar http://www.culturanorte.pt/pt/servicos/intervencoes-e-obras-no-patrimonio/#sthash.73FcJ6Yk.dpuf
A Classificação Patrimonial é o procedimento administrativo através do qual se determina que um bem possuí inestimável valor cultural e fica abrangido pelas formas de proteção e valorização previstas pela lei. Aplica-se a bens móveis e imóveis e está previsto no Título IV da Lei 107/2001 de 8 de setembro. A classificação de bens imóveis está estabelecida pelo Decreto-Lei 309/2009 e a classificação e inventariação de bens móveis está estabelecida pelo Decreto-Lei 148/2015.
Para mais informação consultar http://www.culturanorte.pt/pt/servicos/classificacao-de-patrimonio/#sthash.UUYwPEkS.dpuf
24 A lei prevê três graus de classificação: interesse nacional, interesse público e interesse municipal, sendo que a classificação de interesses nacionais e interesses públicos é uma competência do Estado e os procedimentos são conduzidos pela Direção Geral do Património Cultural, em articulação com as Direções Regionais de Cultura.
Figura 4 - Jardim Teófilo Braga – Praça da República. Vista da varanda/tribuna do quartel.
30 Não podem ser concedidas pela câmara municipal ou por qualquer outra entidade licenças para as operações urbanísticas, admissão de comunicação prévia ou autorização de utilização previstas no regime jurídico da urbanização e da edificação, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 555/99, de 16 de Dezembro, sem parecer prévio favorável do IGESPAR, I. P25.
No conjunto edificado onde se integra o Quartel de Santo Ovídio, destacam-se outros edifícios e algumas áreas urbanas com classificação de Imóvel de Interesse Público, como a Rua de Álvares Cabral e a Igreja e Cemitério da Irmandade da Lapa.
O somatório destas Áreas de Proteção do Património Arqueológico e Arquitetónico compõe uma importante mancha contínua de território, integrada na Zona Especial de Proteção26 (ZEP), definindo assim, uma faixa de intervenção urbana e arquitetónica qualificada, onde se destacam os edifícios do Palácio dos Pestanas, o da Ordem dos Advogados, a Rua Álvares Cabral e a Igreja e Cemitério da Irmandade da Lapa.
25Hoje Direção-Geral do Património Cultural.
Organismo que tem por missão assegurar a gestão, salvaguarda, valorização, conservação e restauro dos bens que integrem o património cultural imóvel, móvel e imaterial do País, bem como desenvolver e executar a política museológica nacional.
26 A Zona Especial de Proteção é determinada por lei, com a extensão adequada à proteção e valorização do bem imóvel, a ser estabelecida em simultâneo com a decisão final do procedimento de classificação ou no prazo de 18 meses a contar da classificação do bem. Têm em vista garantir que as intervenções ou obras que se pretendam realizar na envolvente dos imóveis classificados ou em vias de classificação, não põem em causa o enquadramento paisagístico e os contextos que, pelo seu valor de testemunho, possuam com os imóveis uma relação interpretativa e informativa.
Não podem ser concedidas licenças para obras de construção e para quaisquer trabalhos que alterem a topografia, alinhamentos e cérceas e em geral, a distribuição de volumes e coberturas ou o revestimento exterior dos edifícios, sem prévio parecer favorável da administração do património cultural competente.
As zonas de proteção podem incluir zonas non edificandi, onde é proibido qualquer tipo de construção.
Consultar http://www.culturanorte.pt/pt/servicos/classificacao-de-patrimonio/#sthash.UUYwPEkS.dpuf Figura 5 - Plantas com delimitação do imóvel e respetiva zona geral de proteção, bem como
Extrato da Carta dos Imóveis Classificados e em Vias de Classificação (Ver www.patrimoniocultural.gov.pt/).
31 Para além da classificação patrimonial que lhe é atribuída pela entidade DGPC | Direção Geral do Património Cultural, o Quartel de Santo Ovídio é património do Exército Português e como tal, estão implícitas áreas de Servidão Militar27 nos termos da legislação em vigor28.
Estamos na presença do prédio militar inscrito com o nº PM/14 do tombo da Direção de Infraestruturas do Exército (DIE).
Atualmente é ocupado pelo Comando do Pessoal29, órgão central de administração e direção do Exército Português, tendo como missão garantir o apoio administrativo-logístico e de serviços ao Comando do Pessoal e aos órgãos apoiados. O seu comandante é tradicionalmente designado por Ajudante-General do Exército (AGE).
O Quartel de Santo Ovídio, exemplar referenciado como o melhor e mais completo edifício para aquartelamento30 à época, é construído nos finais do séc. XVIII, sob influência do neoclassicismo especificamente com gosto neopalladiano.
27 Servidão Militar entendida como a área de segurança afeta ao prédio militar. Por norma fica definida uma área de 30 metros em torno o seu perímetro.
28 Decreto 47200, de 15 de setembro de 1966. Ver Apêndice 7
29 Diário da Republica 1ª serie, nº 250 de 29 de dezembro de 2014.
30 Ver inspeção de 1815 – Apêndice 3
Figura 6 - Enfiamento da janela superior com o brasão de armas e coroa real, destacando-se a cornija em granito que remata a cobertura.
Registo de Maria Antónia Bacelar.
32 Apresenta proporções bem marcadas, de linhas simples, assegurando a sobriedade da construção, evidenciando a sua grandeza de Ordem, Simetria e Identidade lógica das suas hierarquias. Composto por um eixo central que o atravessa, colocando em correlação o percurso entre a porta de armas31 e o seu espaço exterior interno – a parada de manobras.
Esta centralidade é acentuada pelo pórtico, constituído por um conjunto de arcos deambulatórios encimados por uma varanda ao nível do 1º piso, alinhados verticalmente com o torreão central, formando o elemento primordial do conjunto.
Toda a fachada sul – voltada à Praça da República e que confere a imagem do edifício – adquire um conjunto de fenestrações de peitoril, retangulares, que se alinham verticalmente e se distinguem nas suas dimensões. Tem como elemento separador horizontal, o friso em granito que estabelece e estrutura a separação física bem visível dos dois pisos. A cobertura inclinada, em telha cerâmica, é rematada junto à fachada por cornija em granito. O topo do corpo central é encimado por um Brasão de Armas esculpido em granito onde se destaca a coroa real.