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Um texto dedicado especificamente ao estudo da Tese complementar

No documento DOUTORADO EM FILOSOFIA SÃO PAULO 2008 (páginas 50-53)

foi publicado no Brasil pela primeira vez em 1997, por Ricardo Terra: “Foucault,

149 Ibid., p. 176-177.

150 FONSECA, Márcio Alves da. Michel Foucault e a Constituição do Sujeito. São Paulo: EDUC, 2003. 1ª. Edição: 1995.

leitor de Kant: da antropologia à ontologia do presente” e republicado em 2003 junto a outros textos seus.152

Inicialmente Terra lembra que o próprio Foucault afirmou a relação de seus trabalhos com a Crítica kantiana. Quanto à TC diz que, “se não tem maior relevância nos estudos kantianos, pelo menos apresenta um grande interesse quando está em foco o pensamento de Michel Foucault”, e que esta, “sem dúvida pode esclarecer certos aspectos do lugar reservado a Kant em As

Palavras e as coisas”.153 Em seguida expõe diversas etapas da TC, fazendo contrapontos com as análises de Foucault neste texto. Segundo Terra, Foucault estabeleceu relações entre a Crítica e a Antropologia, utilizando uma passagem da “Metodologia Transcendental”, (CRP), e uma “passagem da

Lógica que trata das quatro questões fundamentais. Kant afirma que as três

perguntas – ‘O que posso saber? O que devo esperar?154 O que me é lícito esperar?’ – estão relacionadas a uma quarta: O que é o homem?’”.155 Terra chama a atenção para o fato de que a “posição da questão antropológica neste último texto [o da Lógica] é muito diferente daquela da Crítica da Razão Pura”. Segundo ele:

Convém dizer, entretanto, que a Antropologia de 1798 não responde à questão posta na Lógica. Articular a teoria, a prática, a finalidade natural e Deus em torno da questão sobre ‘o que é o homem’ constitui algo que escapa à Antropologia, pois diz respeito a uma totalização posterior do pensamento kantiano, indicada na Lógica e constituindo o

esforço sempre retomado do Opus postumum”.156

Terra salienta que, “ao explicar como a análise do Gemüt constitui a maneira de desenvolver o objeto da Antropologia (...), Foucault completa seu

152 TERRA, Ricardo. Passagens – Estudos sobre a filosofia de Kant. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2003, p.161-178. Em nota declara que “Foucault leitor de Kant” “foi publicado no volume organizado por Jean Ferrari, L’Année 1798, Kant et la naissance da l’anthropologie au Siécle des Lumières. Paris: Vrin, 1997. p. 159 – 171; e pela revista Analytica, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 159 – 171, 1997” (TERRA, 2003, p.– 194).

153 Ibid., p.162-163.

154A colocação da segunda pergunta da série “o que devo esperar” deve ser um erro de impressão, pois tanto na KRV, “do Cânone da Razão”, ela consta como: Was soll ich tun? (KANT, I. KRV. Band 2. Zweite Auflage. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1976, p. 677) e na Lógica consta O que devo fazer? (KANT, Immanuel. Lógica. 3ª Edição. Tradução de Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003, p. 42. Biblioteca Tempo Universitário 93).

155 TERRA, R. Passagens. Op. Cit., p. 167.

156 Ibid., p. 167–168. KANT, Emmanuel. Opus Postumum – Passage des príncipes

métaphysiques de la science de la nature à la physique. Traduction, présentation et notes par François Marty. Paris, France: Presses Universitaires de France, 1986.

estudo da Antropologia de 1798”.157 Mas seu objetivo consistia também em “preparar o quadro de uma crítica das antropologias filosóficas contemporâneas”. Antes de dirigir-se às filosofias contemporâneas, Terra indica que “há uma ambigüidade básica na antropologia kantiana”, pois, “(...) ela é conhecimento do homem, em um movimento que o objetiva, (...); ela é conhecimento do conhecimento do homem, num movimento que interroga o sujeito sobre ele mesmo (...)”.158 Segundo Terra, a “tensão do empírico e do crítico permanece, e é essa tensão que será desfeita nas antropologias contemporâneas (...) O contra-senso básico é querer que a antropologia faça o papel da crítica”.159

Terra faz também um paralelo da diferença de posição que Kant ocupa em dois momentos distintos da obra de Foucault. Na década de 1960 (na TC e em PC) e na década de 1980 (em QL?). De modo extremamente esquemático, tal diferença pode ser indicada, segundo Terra, em duas frentes distintas. Numa delas a escolha dos textos de Kant que Foucault utiliza para confrontar com a obra Crítica. Na década de 1960 é a Antropologia, a Lógica e o Opus

postumum. Em 1983 são: Beanwortung der Frage: Was ist Aufklärung?

(resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?) e Der Streit der Fakultäten (o conflito das faculdades). Na outra frente não são mais os textos que variam, mas a temática: em 1961, a arqueologia e a analítica da verdade; em 1983, a questão da ontologia do presente.160 Terra ressalta que, em 1983-84, no QL?, Foucault “colocou-se na trilha aberta por Kant, na medida em que esta, ao lado da recusa da analítica da verdade, teria fundado uma outra perspectiva crítica, a da ontologia do presente”,161 Nos anos de 1960 a preocupação prioritária de

157 TERRA, R. Passagens. Op. Cit., p. 172. Na TC a abordagem da questão antropológica (“o problema da empiricidade na repetição antropológico-crítica) inicia na página 108.

158 Ibid., p. 172. O último trecho da citação acima é transcrito por Terra da TC, p. 118. A interpretação que Terra lhe dá faz parecer que Foucault, nesta passagem, estivesse tratando da antropologia kantiana; assim, dá a entender que para Foucault a antropologia em Kant mantém uma ambigüidade na relação com a Crítica, fazendo valer o conhecimento sobre o homem como se fosse o conhecimento da Crítica [a antropologia é conhecimento do conhecimento do homem]. Salientamos que Foucault, na passagem citada, está tratando das antropologias pré-kantianas e é sobre elas a denúncia de que ainda não haviam estabelecido a distinção entre o nível crítico e o empírico. Somente na pág. 119 da TC inicia a análise sobre a recolocação e as inovações operadas pela Antropologia de Kant (cf. Cap. II, item 2.2.11, alínea “D”, infra). O que Foucault mostra é que a Antropologia kantiana, além de se conformar às determinações da Crítica, restringe-se a uma exposição pragmática do homem. 159 TERRA, R. Passagens., Op. Cit., p. 173.

160 Ibid., p. 176-177.

Foucault era “demolir as antropologias filosóficas contemporâneas [mais] do que a de Kant”.162 No curso de 1983, segundo Terra, “Foucault não está mais preso estritamente à camisa-de-força da arqueologia e pode retomar o projeto crítico kantiano. Não, evidentemente a antropologia (...), mas uma ontologia do presente”.163 Terra utilizou a TC e QL?; não citou QC? nem WE?.

6) Priorizando o tema do homem, José Ternes, em Michel Foucault e a

No documento DOUTORADO EM FILOSOFIA SÃO PAULO 2008 (páginas 50-53)