3.1 O processo da comunicação
3.1.4 Um trabalho em equipe?
Segundo dados fornecidos pela instituição pesquisada, o centro de tratamento oncológico conta uma equipe multidisciplinar composta por 93 funcionários e, identifica-se nas falas dos entrevistados a existência da equipe de enfermagem neste contexto:
Aqui a gente tem a equipe de enfermagem [...] enfermeiras, técnicos, orientadores, todas fazem parte da equipe (Enf 1).
Observa-se neste relato que a equipe de enfermagem se constitui de enfermeiros e técnicos, estando de acordo com a legislação da enfermagem, no entanto, o profissional acrescenta outra classe de trabalhadores denominados de orientadores como integrantes dessa equipe. Percebe-se que a definição que diferencia grupo de trabalho e equipe de trabalho não está clara para este profissional.
Para Robbins (2002) grupo é aquele cujo processo de interação é usado para compartilhar informações e para tomada de decisões com o objetivo de ajudar cada membro
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com o seu desempenho na área específica de atuação. Alves (2009) refere que trabalhar em equipe significa que o indivíduo não estará sozinho, fará parte de um grupo e seu trabalho complementa e, ao mesmo tempo, depende do grupo e vice-versa. O trabalho em equipe para Peduzzi (2001) consiste numa modalidade de trabalho coletivo que se configura na relação recíproca entre as intervenções técnicas e a interação dos agentes.
Outro fato que foi evidenciado no contexto do estudo esta relacionado com as reuniões mensal da equipe multidisciplinares para discussão de casos de pacientes em tratamento oncológico, conforme fala:
Porque a gente tem a reunião multidisciplinar uma vez por mês com toda a equipe: fisioterapeuta, nutricionista e enfermeiras e a gente sempre acaba relatando alguns casos que acaba chamando a atenção da gente (Enf 5).
Através do relato deste profissional é possível perceber que as reuniões da equipe multidisciplinar é uma dinâmica cotidiana de trabalho utilizada, que visa o cuidado ao paciente oncológico que apresenta necessidades de cuidados integrais. O profissional relata que o trabalho em equipe converge para destacar a troca de informações relativas ao processo de tratamento de pacientes oncológicos. A articulação das ações, a coordenação, a integração dos saberes e a interação dos agentes ocorreriam por meio da mediação simbólica da linguagem. Nesse contexto, a comunicação entre os profissionais é o denominador comum do trabalho em equipe.
Esta dinâmica de trabalho está em consonância com que afirma Duarte (2008) quando faz a afirmação de que o câncer, como uma doença multifatorial, exige um cuidado por parte de uma equipe multiprofissional, buscando um atendimento holístico com mínimo de fragmentação do paciente. A integração entre os membros da equipe de saúde é fundamental para a compreensão do paciente como ser único e integral. No entanto, esta atividade realizada pela equipe multidisciplinar, relatada pelo profissional, não contempla a todos os pacientes que se encontram em tratamento oncológico, sendo a prioridade dada aos que “chamam a atenção” dos profissionais de saúde, que por sua vez, encaminham o caso para ser avaliado.
Outro ponto observado consiste no fato que na equipe mencionada a área médica não se encontra inserida. Fato este que pode estar relacionado ao número de especialidades na área
de oncologia ou, a não adotarem esta técnica de trabalho. Essa situação fica evidente conforme fala a seguir:
Olha, eu acho que assim, a equipe vem crescendo, praticamente tem todas as especialidades a gente, a gente trabalha, mais ou menos o trabalho em equipe aqui não é tão em equipe. A equipe hoje funciona mais assim, quando alguém tem dúvida, quer discutir um caso, fala com o colega. Quando aí um não pode atender, fica doente, teve que viajar, tem um congresso o outro atende o paciente. Então é nesse sentido, mas, não é muito assim aquele trabalho de equipe (Med 4)
O relato do profissional exprime a realidade da prática de trabalho adotada pelos profissionais médicos neste local estudado, sendo que a denominação de equipe está relacionada às especialidades e, sua interação no ambiente de trabalho se faz por meio de discussões de casos quando do surgimento de dúvidas com relação à conduta a ser adotada. Outra forma de interação se faz por meio do diálogo entre colegas de trabalho quando da necessidade de um dos profissionais se ausentar por questões pessoais, o outro lhe presta auxílio atendendo sua clientela. Sendo assim, e confirmando o que o profissional relata, não há trabalho em equipe.
Corroborando, Matos; Pires; Campos, (2009), ao refletirem sobre a organização do trabalho, afirmam que este é fragmentado, e por consequência, cada profissional realiza parcelas do trabalho sem uma integração com as demais áreas envolvidas. Para os autores, essa tem sido uma das razões que impedem a realização de um trabalho em saúde mais integrador e de melhor qualidade, tanto na perspectiva daqueles que o realizam como para aqueles que dele usufruem.
Peduzzi (1998), ao estudar a equipe multiprofissional e o trabalho em saúde, classifica o trabalho em equipe, como equipe agrupamento e equipe integração. Para que haja uma equipe integração e não equipe agrupamento, há necessidade de uma construção dos sujeitos que estão no cotidiano do trabalho. Essa nova construção requer articulação das ações e a interação dos agentes, sendo esta última a mais difícil, pois não está “normatizada” a priori, requer um compromisso ético e respeito com o outro, com cada um e com todos da equipe e acima de tudo com a clientela. O núcleo de competência de cada profissional, isoladamente, não dá conta da complexidade do atendimento das necessidades de saúde, portanto é necessário flexibilidade nos limites das competências para proporcionar uma ação integral.
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A concepção de Núcleo diz respeito às “características relativas à identidade de cada sujeito”. A experiência pessoal, saberes específicos de cada profissão, habilidades, vocação, constituiriam o núcleo de cada sujeito que interage com o mundo. O Campo seria o espaço de interseção, “um espaço coletivo de luta e composição, em que ocorre a produção de sentido para o coletivo” (CAMPOS, 2000, P. 141). Face ao exposto, e considerando o cenário do estudo, identificam-se diversos núcleos funcionais de trabalho.