2. CONCEITOS DA GEOGRAFIA E OS DESAFIOS EM SUA
2.1 ESPAÇO GEOGRÁFICO
2.1.2 UMA BREVE EVOLUÇÃO DO ESPAÇO NA GEOGRAFIA
A palavra espaço tornou-se um vocábulo utilizado para denotar várias acepções. Entretanto, para a Geografia, essa palavra possui uma trajetória de debates conceituais acerca do seu uso e entendimento. Ainda hoje, é pivô de divergências acadêmicas saudáveis para o aperfeiçoamento desta ciência.
Na busca por desenvolver um referencial teórico referente ao espaço, Isnard (1982) apresenta uma série de reflexões acerca deste conceito. Em sua obra, O Espaço Geográfico, o autor descreve:
A grande aventura do homem no globo terrestre terá sido, definitivamente, ter constituído o espaço segundo modelos diferentes dos ecossistemas originais, de ter substituído a intencionalidade pela necessidade. À realidade objetiva do espaço natural opõe-se, assim a realidade projetiva do espaço geográfico nascido da iniciativa humana finalizada (ISNARD, 1982, p.33). Essa primeira concepção é quase unanimidade entre os geógrafos. Foi motivo de debates introdutórios em várias obras (GEORGE, 1989; DOLFFUS, 1991; ANDRADE, 1997; SANTOS, 1999). Esta reflexão inicial é de suma relevância, porque a diferenciação entre meio natural e espaço geográfico deve ser clara. Muitas vezes, ouve-se falar que o objeto da Geografia é a descrição da natureza da Terra, principalmente na formação básica escolar. Lacoste (1998) é taxativo ao criticar a perpetuação dessa forma de se fazer geografia; para ele, é apenas um artifício para encobrir a real utilidade desta ciência.
Na evolução do pensamento geográfico, a questão do espaço teve abordagens diferenciadas. Segundo Corrêa (2001), o espaço em realidade não se constitui em um conceito-chave na geografia tradicional. Contudo, está presente na obra de Ratzel e de Hartshorne, ainda que, no caso do segundo, de modo implícito. As categorias de análise de
maior evidência durante essa fase da geografia foram paisagem e região, a primeira influenciada pelos métodos descritivos dos sistemas naturais, e a segunda marcada pela prática da síntese geográfica que buscava compilar fatores homogêneos caracterizadores de áreas, denominadas regiões.
O conceito de “espaço vital” desenvolvido por Ratzel, em sua Antropogeografia, refere-se às “necessidades territoriais de uma sociedade em função de seu desenvolvimento tecnológico, do total de população e dos recursos naturais.” (CORRÊA, 2001, p.18). Foi um conceito chave para as políticas expansionistas na Europa. Segundo Camargo (2005), na concepção ratzeliana, como o espaço da Terra nunca cresce, ou seja, é finito, ocorre um grande paradoxo, que se origina na luta por espaços vitais, pois as nações se desenvolvem economicamente e, logo, tecnologicamente, tendem a querer ampliar seus territórios.
Já, para Hartshorne, o espaço é tido como absoluto; um conjunto de pontos que tem existência em si, sendo independente de qualquer coisa. Para Corrêa (2001), nessa concepção, o espaço aparece como receptáculo que apenas contém as coisas. Nas palavras de Camargo (2005), sendo assim, o espaço seria fixo, imutável, um palco dos eventos, seria um dado a
priori, isto é, preexistia aos fenômenos, um conceito abstrato que não existe em realidade.
Do ponto de vista da utilização do conceito de espaço, essa noção fundada nas idéias de Kant, na qual “concebia o espaço e o tempo como duas categorias transcendentalmente separadas e mutuamente independentes do conhecimento humano” (BAUMAN, 2001, p. 94), ainda hoje tem sido empregada e/ou entendida como correta por muitos técnicos que planejam e gerenciam políticas públicas, às vezes por considerar irrelevante uma concepção mais adequada, ou mesmo por falta de estudos interdisciplinares, que teoricamente serviriam para preencher essas lacunas.
Posteriormente, quando a geografia passa a utilizar métodos quantitativos, elaborar e adotar modelos dedutivos, o espaço é visto sob duas formas: planície isotrópica e representação matricial (CORRÊA, 2001, p.20). No primeiro caso, o entendimento parte do pressuposto da homogeneidade da superfície, ou seja, não se evidenciam as diferenciações físico-sociais. No segundo caso, o espaço é representado por um modelo matricial, no qual redes, nós e hierarquias aparecem como num cartograma, e a distância é uma variável chave para realização de análises espaciais. Os trabalhos de Von Thünen (1826) e Christaller (1933) influenciaram bastante esta corrente na geografia.
Avançando no tempo, embora esses períodos tenham se sobrepostos em alguns momentos da história, Camargo (2005) argumenta que a geografia no período do pós-guerra
adota uma postura que se associa à difusão do sistema capitalista e, através do emprego de técnicas estatísticas e modelos matemáticos, propõe a análise geométrica do espaço como um instrumental fundamental de análise da Geografia na busca da compreensão dos novos arranjos espaciais surgidos nesta fase.
Com o advento da chamada “geografia crítica”, o espaço torna-se o cerne dos principais debates entre geógrafos, alguns apenas objetivando apagar o legado deixado pela geografia denominada teorética-quantitativa, enquanto outros se preocupavam em promover uma discussão conceitual sobre essa questão.
Na perspectiva humanista, o espaço é tido como vivido, no qual a relação homem- meio, a dimensão da experiência humana, a percepção dos sujeitos pelos objetos vão elucidar a interpretação das diferentes variáveis do espaço. Holzer, apud Corrêa (2001), descreve o espaço vivido como uma experiência contínua, egocêntrica e social, um espaço de movimento e um espaço-tempo vivido que se refere ao afetivo, ao mágico, ao imaginário.
Para os geógrafos com formação marxista, trabalhar a questão do espaço também se tornou um desafio, uma vez que, segundo Corrêa (2001), os marxistas tinham abordado o espaço de modo semelhante aquele das ciências burguesas, considerando-o como um receptáculo ou como um espelho externo da sociedade.
Nesta perspectiva, Gottidiener (1997), destaca a importância da abordagem dita produção social do espaço, pois ela procura unificar os vários campos da análise urbana através da observação de que os atuais problemas da sociedade parecem ser cada vez mais articulados como problemas de natureza espacial. Sua contribuição também foi trazer à tona o debate acerca da teoria do espaço, através das obras dos não-geógrafos, Manuel Castells e Henri Lefebvre, entretanto muito influentes nas discussões referentes à produção do espaço.
Para Gottidiener (1997), o enfoque da teoria do espaço de Castells é o mesmo de Lefebvre. Contudo, enquanto Castells utilizou-se de uma abordagem estruturalista, especialmente para o espaço urbano, na qual “analisar o espaço como uma expressão da estrutura social equivale, pois, a estudar sua formação por elementos do sistema econômico, político e ideológico, e por suas combinações e pelas práticas sociais que derivam deles” (CASTELLS, apud GOTTIDIENER, 1997, p.125). Lefebvre, por sua vez, utilizando-se do referencial marxista para moldar o que ele denomina uma práxis-social, discute a importância do espaço e sua função decisiva na estruturação de uma totalidade, de uma lógica, de um sistema. Para ele, “o espaço é o locus da reprodução das relações sociais de produção”. (LEFEBVRE, apud CORRÊA, 2001, p.25).
Influenciado pelas idéias de Lefebvre, Santos apud Camargo (2005), argumenta acerca do espaço, da formação sócio-econômica e do modo de produção como categorias interdependentes. Fortalecendo a importância dessa tríade, Corrêa (2001) afirma que não há porque falar em sociedade e espaço como se fossem coisas separadas que nós reuniríamos a
posteriori, mas sim de formação “sócio-espacial”, conforme sugeriu Milton Santos, numa
derivação do conceito de formação socioeconômica de cunho marxista.
Como síntese da evolução do conceito de espaço na geografia e não menos abrangente do que já foi apresentado, Camargo (2005) define o espaço como a própria totalidade, fugindo do ideário do espaço absoluto, não se constituindo em uma mera abstração newtoniana, em que os eventos se desenvolvem. Para ele, o espaço geográfico dimensiona-se interna e externamente como uma teia de inter-relações que une o social ao natural, formando um único elo, dinâmico e complexo.