• Nenhum resultado encontrado

Uma breve história do gênero epistolar

3.2 O gênero epistolar

3.2.1 Uma breve história do gênero epistolar

Ao acompanharmos a história do gênero epistolar, podemos afirmar que ele sofreu inúmeras transformações, desde a antiguidade até os dias de hoje, principalmente com relação à sua forma, ao seu suporte (tabuinhas, papiro, papel, meio eletrônico) e ao seu sentido.

Na Grécia clássica, era comum a troca de correspondência entre mestre e discípulos. É analisando algumas dessas cartas, dentre elas as trocadas entre Sêneca e Lucilio, Marco Aurélio e Frontão, que Foucault produz uma parte do artigo A escrita de si. No entanto, não há conhecimento de nenhum tratado que tivesse por objetivo o estudo das normas epistolares nesta época, o que pode nos levar a concluir que o seu uso não suscitava grandes questões. O primeiro trabalho sobre o gênero de que se tem notícia antes do século IX data do século IV, de autoria de Caius Julius Victor, que elaborou um estudo no qual tentava adaptar normas da Retórica à escrita das cartas.

Segundo Soto:

A forma epistolar e seu/s sentido/s foram se definindo, ou pelo menos consolidando determinadas formas e não outras, conjuntamente com as práticas do Cristianismo e a expansão das artes notarial e legislativa durante a Idade Média. É nesse período que acontece o que poderíamos chamar de “a invenção” do que hoje chamamos carta. (SOTO, 2002)

Com o advento do Cristianismo, as cartas adquirem um caráter sacro. O Novo Testamento, por exemplo, possui 27 livros, dentre os quais 21 são transcrições de cartas. Só as escritas por Paulo, por exemplo, constituem 13 (Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom.). Essas cartas eram usadas para transmitir a palavra de Deus, a vida e ressurreição de Cristo e para aproximar comunidades cristãs, servindo como um meio de vencer a distância geográfica. Também na liturgia católica, as cartas tinham grande importância, servindo como uma mediação entre o céu e a terra. Era como se elas possibilitassem “uma comunicação direta com Deus: familiar e/mas sacralizada, direta e/mas formalizada, íntima e/mas socializada”. Ainda segundo Soto:

Na missa católica romana, no final do primeiro milênio, a autonomia da liturgia epistolar já se encontra bem marcada, da carta se proclama o título e o tratamento (“irmãos”, “meu muito caro amigo”, “meus muito

caros amigos”) antes de sua leitura. (SOTO, 2001, p. 106).

Soto ainda lembra que as autoridades eclesiásticas faziam a jurisdição pontifical por meio de cartas, recebendo estas as denominações dependendo do status do enunciador, podendo, assim, ser encíclica, bula, pastoral e breve.

As cartas deixam de pertencer com exclusividade à esfera da Igreja principalmente a partir do século XII. Nesta época, a carta começa a funcionar como uma espécie de intermediária entre o indivíduo e as questões jurídicas. É dessa época o surgimento de uma regra que permanece até hoje: a de citar o nome do destinatário no início da carta e o nome do autor apenas no final. No início, essa regra valia apenas para casos em que o destinatário tinha uma posição social mais elevada do que a do autor, mas, com o passar do tempo, ela se generalizou.

Em Bolonha e em outras cidades italianas, o surgimento de uma nova classe de intelectuais traz como mostra de sua independência a arte epistolar. Conhecidos como mestres epistolários, ganham importância pública nessa época por serem os que produziam cartas que mediavam as relações entre o indivíduo e a Justiça e também por serem aqueles que produziam as normas desse gênero (SOTO, 2001).

A partir do desenvolvimento do Estado, no entanto, e com a complexidade de sua estrutura, surgem figuras com funções políticas e jurídicas responsáveis por estabelecer essa relação, que antes ficava a cargo dos mestres. Abdicados da tarefa pública, eles passam, então, a ocupar-se da arte epistolar voltada para a esfera privada, para as cartas pessoais.

A importância representada pela carta como um meio de comunicação pode ser medida analisando os mais diferentes tratados escritos sobre o gênero. Entre os primeiros trabalhos que procuraram mostrar a produção de carta como disciplina autônoma estão os do monge Albericus de Mont Cassin (1030-1105, aproximadamente). Os mestres epistolares também produziram trabalhos sobre o assunto. Já na França durante o século XIX, foram publicados 195 manuais de redação de cartas, também conhecidos como “secretários”, desdobrando-se estes em 616 edições diferentes. Os manuais dessa época voltavam-se para temas da vida privada, e os modelos, na sua maioria, procuravam dar às cartas uma ilusão de oralidade (SOTO, 2001). Tanto nos secretários quanto nos tratados da Idade Média, o objetivo era a criação de uma teoria da carta e o desejo de se obter o exemplo mais correto. Essa

proliferação de tratados sobre o gênero reflete a preocupação com a escrita da carta como um gênero que deveria ter formas pré-estabelecidas.

A sociedade atual ainda confere as cartas um certo status. Prova disso é o fato de as correspondências serem objetos de artigos do código Penal e da Constituição. Pela lei, é assegurado o caráter privado e inviolável de uma carta, para assim resguardar o direito do autor, do destinatário e de eventuais terceiros citados na carta. É proibido a qualquer um publicar uma carta sem permissão do seu autor, mesmo se a publicação partir da vontade do destinatário.

Apesar do aspecto íntimo, a carta pode ter outros fins. Pode servir a propósitos literários, testamenteiros, como a carta que Getúlio Vargas escreveu antes de se matar, ou políticos, como a Carta ao Povo Brasileiro, feita pelo presidente Lula.

A carta também sofreu modificações causadas pela modernidade. A rapidez imposta pelo processo de globalização torna possível o conhecimento de fatos ocorridos do outro lado do planeta em questão de minutos. É quase inconcebível, hoje, demorarmos dias ou semanas para ficarmos cientes de uma notícia. Assim as cartas, enquanto veículos de comunicação, perderam espaço neste atual contexto pós-moderno, para os e-mails. Hoje, a popularidade do correio eletrônico só não abrange as pessoas que não possuem ou não utilizam computador. Mas um não exclui o outro – o e-mail, inclusive, pode ser considerado uma evolução da carta, uma renovação, já que em muitos aspectos eles são parecidos, especialmente quanto à forma e à finalidade, embora a linguagem utilizada possa ser muito diferente. Ainda poderíamos arriscar dizer que o e-mail, devido à comodidade que se usufrui ao escrevê-lo e ao enviá-lo, que exige um mínimo de esforço, e devido à rapidez com a qual é transmitido, permitiu que as pessoas redescobrissem a correspondência.

O e-mail, assim como a carta, serve a diversas finalidades, servindo tanto a interesses pessoais quanto profissionais. Nos mais informais, a linguagem usada caracteriza-se por ser marcada por abreviações e recursos lingüísticos próprios (como o uso do h no fim da palavra para indicar que a palavra é acentuada na última sílaba). Grandes empresas e pessoas comuns aderiram ao correio eletrônico pela sua facilidade e rapidez de transmissão, mas ele não pode ainda ser considerado substituto da carta. De qualquer forma, ambos são correspondências que possuem em comum muitas regras constitutivas do gênero no qual podemos classificá-los, o gênero epistolar.

No entanto, ambos, carta e e-mail, devem ser analisados enquanto práticas sociais e discursivas. Eles nos permitem conhecer o mundo do outro, sujeito-autor e

portador de várias identidades. É por isso que existem tantos estudos e pesquisas que tomam como objeto correspondências de uma certa época ou de determinadas pessoas.

Quando dizemos que o nosso objetivo nesta pesquisa é o estudo das cartas enviadas pelos adolescentes ao Folhateen, incluem-se aí os e-mails, que também serão analisados. Com relação ao jornal, a maioria das manifestações é feita pelas cartas convencionais, sendo que, dentre às enviadas por e-mail, poucas foram publicadas. O caderno especifica no final da carta, junto ao nome do adolescente, se ela foi enviada por e-mail. Neste caso, a cidade onde reside o adolescente não é informada, ao contrário do que acontece com a carta enviada via correio.

De qualquer modo, assim como a carta, o e-mail também permite reflexões sobre o gênero epistolar, podendo ser considerado pertencente a ele. Assim, cabe aqui, ainda, fazer um breve comentário sobre este gênero que será o nosso objeto de pesquisa.