4. A Convidada: o romance como descoberta viva
4.1 Uma “comédia sem consequências”
Posto que não analisaremos o romance como um todo, torna-se necessário contextualizar a obra. Por se tratar do romance de estreia de Simone de Beauvoir, publicado em 1943, é relevante lembrar que, tal como o faz Sartre em A Náusea, há muito de autobiográfico no romance, a começar pelo fato de que a autora narra os conflitos de uma mulher com aproximadamente 30 anos no contexto do entre guerras.
Depois, Beauvoir aborda questões caras ao existencialismo sartriano, como a relação entre a consciência e o mundo; os relacionamentos amorosos neste contexto; a relação com o outro, tema central ao existencialismo neste período etc.
abstratamente, restaria afirmar [então] que as duas formas de expressão não dizem exatamente o mesmo”. SILVA, Ética e Literatura em Sartre: Ensaios Introdutórios, p. 12.
Assim cumpre sintetizar a trama do romance. Trata-se da relação que se estabelece entre a personagem Françoise e o personagem Pierre, um casal apaixonado, inserto numa relação fortemente marcada pela empatia intelectual, no qual nada parece ser capaz de abalá-los. 385 No entanto, o que vemos, ao menos no romance, é a chegada de um terceiro personagem, a estudante Xavière, que parece desestruturar a relação do casal. E isso porque Pierre propõe a Françoise que ajudem a estudante recém chegada, de tal modo que Xavière vem morar num apartamento no mesmo hotel em que eles vivem, passando muito tempo ao lado de Pierre. Neste contexto, Pierre começa a se interessar por Xavière. É quando Françoise começa cada vez mais a sofrer por ciúmes do primeiro, de sorte que chegada de um terceiro elemento à relação parece desestabilizar aquele universo idealmente construído pelo casal. O encontro com o outro parece diluir aquilo que ambos acreditavam ser a própria essência do relacionamento. Por fim, ambos tentam influenciar Xavière que não se deixa dominar com tanta facilidade, tal como pretendia o casal, o que acaba por impor um desfecho trágico ao romance.
A passagem à qual nos remeteremos mais diretamente apresenta a personagem Elisabeth, irmã de Pierre, em crise com sua própria condição. É importante notar que o capítulo em questão é narrado pela própria personagem, algo que contribui para a densidade dramática do tema abordado que, tal como anunciamos, trata-se da má-fé.
Lembremo-nos, mesmo que rapidamente, que a principal característica da noção de má-fé, segundo Sartre, é a fuga, isto é, através da má-fé o homem busca negar sua
385 Neste ponto já não podemos evitar a questão: por que recorrer à um romance de Simone de Beauvoir?
Qual a relação entre as palavras da autora e a discussão sartriana? Um primeiro ponto que é pertinente destacar diz respeito a forma como a autora desenvolve sua obra, longe de pretender reduzir sua produção a comentários biográficos, é consensual que Beauvoir condiciona sua produção às vivências biográficas e às influências teóricas de sua relação com Jean-Paul Sartre. A própria autora atesta isso reiteradas vezes em seus livros e em diversas entrevistas. Evidentemente que não pretendemos aqui – é preciso reiterar – reduzir a produção da filósofa à influência sartriana, muito mais do que isso queremos explicitar a influência dessa interlocução para o desenvolvimento da filosofia existencialista como um todo. Em outros termos, tal como afirmamos ao final do tópico anterior, tanto Beauvoir como Merleau- Ponty, mas também Camus entre outros, travavam interlocução em relação a um problema que lhes era comum e central a Sartre e ao desenvolvimento deste estudo, qual seja, o problema da relação entre a expressão literária e a reflexão filosófica. Desse modo, a menção a um romance da autora tem por objetivo destacar essa interlocução, bem como cercear o problema a partir de outras perspectivas, a fim de melhor compreender, em seguida, as respostas propostas por Sartre. Por fim, não nos esqueçamos que à época da publicação do romance (1943), ambos estavam imersos nas reflexões desenvolvidas em
O Ser e o Nada. E talvez não seja demasiado afirmar que sem a interlocução da filósofa a obra de Sartre
seria outra. Ainda nesse viés, a própria autora afirma, numa célebre entrevista, e com o assentimento de Sartre, que foi ela que o alertou para o papel da situação histórica para a constituição de seu tratado de ontologia fenomenológica, o que ganharia contornos ainda mais importantes no desenvolvimento posterior do seu pensamento. Logo, parece-nos indissociável o desenvolvimento do pensamento de Sartre das reflexões de Beauvoir.
condição fundamental que é a liberdade. Trata-se justamente da manifestação da má-fé no registro concreto: as escolhas da personagem, a forma como Elisabeth mesma narra sua história,386 objetivando assim dissimular sua responsabilidade pelo quadro que é
descrito, expressa num registro que a abstração conceitual não é capaz a referida noção de má-fé. Isso posto, objetivando explicitar a dimensão concreta do registro conceitual agora no âmbito da criação ficcional propriamente dita, cumpre nos reportarmos às palavras de Beauvoir a partir diretamente do romance, diz a autora:
[...] Agora é muito tarde; nunca serei uma mulher que domina exatamente todos os movimentos do corpo. O que poderia adquirir hoje não seria interessante: pequenos ornatos, enfeites, nada de essencial. É isso o que significa ter trinta anos: sou uma mulher feita. Serei, para todo o sempre, uma mulher que não sabe dançar, uma mulher que só teve amor na vida, uma mulher que nunca desceu, de canoa, as corredeiras do colorado, nem atravessou a pé os planaltos do Tibete. Esses trinta anos não constituem apenas um passado, que arrastei todo esse tempo. Depositaram-se em volta de mim, dentro de mim, são meu presente, o meu futuro, a substância de que seu feita. [...]387
É curioso notar como a descrição presente no romance parece acompanhar aquela que seria realizada por Sartre posteriormente em O Existencialismo é um Humanismo, diz Sartre que aquele que age de má-fé muitas vezes diz a si próprio:
[...] “as circunstâncias foram contra mim, eu valia muito mais do que aquilo que fui; é certo que não tive um grande amor, ou uma grande amizade, mas isso porque não encontrei um homem ou uma mulher que fossem dignos disso, não escrevi livros muito bons, mas foi porque não tive tempo livre para o fazer; não tive filhos a quem me dedicasse, mas foi porque não encontrei o homem com quem pudesse realizar minha vida”.388
O que caracteriza a má-fé, em última instância é o desejo do homem de fugir, de negar sua própria condição, qual seja, existir ao modo de se “ser aquilo que não se é, e não ser aquilo que se é”, em outras palavras, livre e, portanto, responsável por seus atos. Nessa senda, vale uma menção ao tratado de ontologia fenomenológica de Sartre, momento em que essa concepção fica mais evidente. Assim define o filósofo a consciência:
[A consciência] é porque se faz, pois seu ser é consciência de ser. Mas isso significa que o fazer sustenta o ser; a consciência deve ser seu próprio ser, nunca é sustentada pelo ser, mas sim quem sustenta o ser no seio da
386 É importante observar que este capítulo é o único narrado pela personagem Elisabeth. 387 BEAUVOIR, A Convidada, p. 175.
subjetividade – o que significa, uma vez mais, que está habitada pelo ser, mas não é o ser: ela não é o que é.389
O que Sartre enfatiza nessa passagem é o caráter transcendente que caracteriza a consciência no registro existencialista. Com base nela, podemos afirmar com toda segurança que a má-fé configura-se como a negação dessa característica fundamental da existência, pois, ser é ser o que não se é. Em outras palavras, a existência se define como processo incessante de auto-constituição. No entanto, é preciso assumir esse caráter processual da consciência, mas sem negar a imanência das escolhas singulares e historicamente inseridas, isto é, ao homem cabe assumir a responsabilidade por suas escolhas singulares. Vemos que, para Sartre existir é, de uma feita, ser ao modo do não ser; e ao mesmo tempo é assumir as escolhas realizadas.
Como vimos, para o existencialismo, o que define a condição humana é ser ao modo do não ser, isto é, ser como projeção transcendente, isto é, como ultrapassamento rumo ao que ainda não se é, pois configura-se como um nada de ser. No entanto cabe ao homem assumir sua dimensão imanente, ou seja, as escolhas já feitas (passado) definem aquilo que fui, mas nunca podem justificar aquilo que ainda não sou.
Quando nego minha transcendência na imanência, isto é, quando reduzo minha transcendência à imanência, ou quando nego minha imanência na transcendência, na realidade ajo de má-fé, busco desculpas que poderiam justificar as escolhas feitas. Como se houvesse um destino que determinasse aquilo que faço, eximindo-me assim da responsabilidade.
Em interlocução com o que foi dito anteriormente, quando tratamos do papel do olhar do outro na constituição da identidade, cumpre realizarmos outra referência à passagem do romance a fim de explicitar como o olhar do outro define a relação de Elisabeth, a irmã de Pierre, tal como dito anteriormente, com a pintura:
– O pior em Elisabeth, recomeçou Pierre, é que mesmo os seus sentimentos são falsos. No fundo, não se importa com a pintura. Por outro lado, diz que é comunista e despreza o proletariado.
– Não é a mentira que me incomoda – disse Xavière – O que acho monstruoso é que as pessoas tomem decisões sobre elas próprias dessa forma, como por decreto. Pensar que todos os dias ela começa a pintar sem a mínima vontade e vai aos encontros com o amante quer tenha, ou não, desejo de vê-lo. Como pode uma pessoa viver segundo um programa, com o emprego de tempo estipulado e tarefas para executar, como se estivesse num internato... Prefiro ser uma fracassada.390
389 SARTRE, O Ser e o Nada, p. 109; Ed. franc. p. 97. 390 BEAUVOIR, A Convidada, p. 67.
Parece que esta passagem oferece elementos para uma melhor compreensão do problema do olhar do outro, tal como vimos no capítulo analisado aqui. Quando se dá início o ritual de vista de quadros, percebemos que aquilo que é dito por Xavière na passagem citada está implícito em todo o capítulo, isto é, toda a artificialidade da cena; a forma artificial e dissimulada com que a personagem vive sua própria condição.
O primeiro ponto que é preciso ressaltar diz respeito a terminologia empregada durante todo o capítulo que remete, inevitavelmente, ao tema em questão. O capítulo é todo, nesse sentido, permeado pelo clima de que tudo é um jogo de falsidade, tudo é má- fé: Suas “ações [são] fingidas”, “nada do que lhe acontecia era verdadeiro”, sua vida era uma “cena”. Seu jantar, uma “imitação de uma ceia verdadeira”, seu apartamento, uma “imitação de um apartamento elegante”, ela própria era “uma paródia viva de mulher”. “Sobre sua vida caíra uma maldição: transformar tudo o que tocava em cenários”.391
Entende-se, no esteio da leitura que Xavière realiza, isto é, “que as pessoas tomem decisões sobre elas próprias dessa forma, como por decreto”, isto é, que as pessoas vivam sua existência permeada pela má-fé. Em outros termos, que as pessoas assumam sua transcendência de forma imanente, ao modo das coisas, de forma heterônoma. Deste modo, finalmente, entendemos porque Elisabeth diz:
[...] Passo o dia pintando para me convencer de que sou pintora. Mas essa atividade não passa também de uma brincadeira lúgubre. [...]
Pegou uma das telas, colocou-a no cavalete e acendeu uma lâmpada azul. Tudo isso, sabia, fazia parte de um ritual; agora ia mostrar quadros falsos e receberia falsos elogios. Mas eles ignoravam que ela sabia: desta vez, eram eles os enganados!392
A personagem visa, desse modo assumir sua imanência negando sua transcendência, ou seja, recaindo em má-fé. É possível compreender o sentido de suas palavras dentro desta chave de leitura, diz a personagem:
Aquele simulacro de amizade, que fabricara por desfastio, poderia afinal reivindicar uma existência tão real na sua vida como a pintura, a política, as zangas com Claude. Tudo era afinal a mesma coisa: comédia sem
consequências.393
391 BEAUVOIR, A Convidada, p. 261. 392 Ibidem, p. 264.
De tal modo que nos parece orgânico estabelecer um vínculo entre o que é dito acima, a experiência instauradora da náusea, e o caráter contingente da existência. Mas não sem antes destacar o lugar do olhar do outro como elemento constitutivo daquilo que aparece na passagem revestido pela má-fé. A personagem é sempre vista como alguém que vive sua existência de forma inautêntica, à sombra do irmão intelectual bem sucedido. Sua vida lhe parece um embuste, suas escolhas lhe caracterizam como uma farsa, uma comédia sem consequências. De tal modo que, mesmo que a personagem viva de forma inautêntica, a experiência da sua própria condição se impõe. Mesmo que a personagem busque negar, a condição humana pressupõe necessariamente sua gratuidade, seu caráter contingente. Parece lícito nova referência à experiência instauradora da náusea na letra do romance de Sartre.
Por fim,
Esse momento foi extraordinário. Eu estava ali, imóvel e gelado, mergulhado num êxtase horrível. Mas, no próprio seio deste êxtase, qualquer coisa de novo acabava de aparecer; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não formulava intimamente minhas descobertas. Mas creio que me seria fácil, agora, traduzi-las em palavras. O essencial é a contingência. Quero dizer que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é estar
presente, simplesmente; os existentes aparecem, deixam que os encontremos,
mas nunca se podem deduzir. Há pessoas, creio eu, que percebem isto. Somente tentam dominar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser é uma ilusão de ótica, uma aparência que se possa dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito, este jardim, esta cidade e eu mesmo. É o sentimento disso, quando acontece que ele entra em nós, que nos dá volta ao estômago, e então começa à andar a roda como da outra vez no Rendez-vous dos Ferroviários: aí está a Náusea; aí está o que os safados – os do Outeiro Verde – tentam esconder a si próprios com a sua ideia dos direitos. Mas a mentira é pobre: ninguém existe por direito; os burgueses de Bouville são inteiramente gratuitos, como os outros homens; não conseguem deixar de se sentir demais. E, no seu íntimo, em segredo, transbordam do que são, existem exageradamente, isto é, duma maneira amorfa e vaga; tristes.394
Daí, a título de conclusão, essa passagem dialogar com aquela que abre esta incursão pelo romance de Simone de Beauvoir, pois remete ao caráter transcendente da consciência. Mas, para além da estrutura interna da consciência, que nos impõe o problema do caráter contingente do mundo, ao para-si, que é puro projeto de si mesmo, não há garantias, tudo é gratuito e são nossas escolhas que doam algum sentido ao mundo que por si só é absurdo. São as escolhas de Elisabeth que a fazem existir de forma inautêntica, não porque seja possível encontrar algum sentido imanente à existência, mas
por não assumir sua dimensão imanente, o lastro das suas escolhas. Mesmo que absurda a vida, é preciso constituir algum sentido à existência e, por consequência, assumir a responsabilidade por nossas escolhas.
Isso posto, outra dimensão fundante do existencialismo se impõe, a intencionalidade da consciência como fundamento da liberdade humana, o que implica em afirmar que a realidade é humana. Vejamos melhor como isso se apresenta transfigurado pela criação ficcional de Simone de Beauvoir. Continuemos nossa incursão pelo romance A Convidada.