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para comunidades:

o colectivo

artístico no

trabalho de arte e

comunidade

Ana Almeida, Ana Sofia Santos, José Luís Costa, Ricardo Rodrigues, Rafael de Moraes, Marco Ferreira, Sílvia Ferreira e Sylvie Rocha Colectivo MEIA DÚZIA DE OITO Portugal

I. Introdução

“Estou para o que for preciso” é uma expressão usada comum- mente para indicar disponibilidade, entreajuda, compromisso e confiança. “Estou para o que for preciso” é a expressão-lema do colectivo MEIA DÚZIA DE OITO que surgiu no processo de criação do espectáculo que está na origem do próprio colectivo. O colectivo MEIA DÚZIA DE OITO (M 12 8) nasceu a partir da turma de 2012/2013 do Mestrado de Teatro e Comunidade da Escola Superior de Teatro e Cinema/IPL (ESTC/Lisboa) e é constituído por oito artistas33 com formações em diferentes

áreas: Teatro, Dança, Educação, Encenação, Design, Saúde e Jornalismo.

A acção do M 12 8 desenvolve-se, desde 2013, em quatro eixos interligados entre si: Espectáculos, Formação, Intervenção e Investigação.

Que impacto tem um colectivo no trabalho realizado com a comunidade? Quais os contributos da monotorização de uma oficina por mais do que um formador e o confronto de diferentes visões artístico-pedagógicas? Que experiência tem a comunidade quando trabalha com um grupo de artistas no lugar da figura tradicional de formador? Que limites existem neste tipo de trabalho quando dirigido a jovens ou a idosos? Neste artigo de reflexão construído num exercício de escrita plural, iremos problematizar estas questões através da partilha de quatro experiências de carácter artístico e pedagógico realizadas pelo M 12 8:

1. Marcos Poéticos: Léxico identitário e congregador do colectivo

2. A intervenção artística dentro e fora da sala de aula: A criatividade como veículo transformador num trabalho realizado com alunos da Escola Cardoso Lopes (Amadora)

3. João dos Santos: raízes, frutos e horizontes: Laboratório de criação dirigido a profissionais da saúde e educação

4. Projecto Teatro de Identidades: Teatro com séniores

33 Ana Almeida, Ana Sofia Santos, José Luís

Costa, Ricardo Rodrigues, Rafael de Moraes, Marco Ferreira, Sílvia Ferreira e Sylvie Rocha.

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II. Marcos Poéticos

III. A intervenção artística

dentro e fora da sala de aula

Marcos Poéticos constituiu-se como um espectáculo que

nasceu de um exercício performativo de pesquisa sobre metodologias de criação em teatro e comunidade. Esta pesquisa de carácter académico assente na Dramaturgia do

Eu, teve o poder de congregar um grupo de desconhecidos na

procura de sentidos comuns.

De uma recolha dramatúrgica de particularidades, momentos, movimentos, memórias e objectos, criámos pequenas alegorias performativas que se foram entrosando entre si como se, afinal, todos tivéssemos partilhado a mesma infância. Das vivências privadas erigimos um mito colectivo para o qual o público foi convidado a fazer parte. O lugar e tempo cénico que construímos presentificam histórias de vida que, sem abandonarem a sua natureza pessoal, se transformaram em poesias performativas com um carácter universal.

Durante o processo de criação de Marcos Poéticos assolaram- nos inúmeras perguntas, tais como: Como trabalhar as memórias em teatro e comunidade? Como é que a leitura que fazemos do colectivo se traduz na construção criativa? Como é que o apelo à participação do público não é invasivo?

A apresentação de um objecto artístico comunitário, mais do que convocar o público para a partilha de um espaço e tempo comuns, deve potenciar a vivência de uma experiência estética em comunidade. Neste sentido, a relação com o público preocupou-nos desde o início, não queríamos de todo manter a relação tradicional público-palco, mas tê-lo como participante. Foi com base neste desejo de aproximação que propusemos um espaço cénico onde o público e os actores partilham o espaço da cena. Com este mesmo objectivo, a movimentação dos actores (muitas vezes também espectadores) visa o envolvimento do público, procurando que cada espectador se sinta parte da uma mesma comunidade. A partilha com o público de uma sopa cozinhada em cena é o momento do espectáculo que unifica a relação entre actores e espectadores e possibilita um encontro ritual.

O desejo de aprofundar uma relação entre actores e público geradora de uma comunidade no “aqui e agora” da partilha cénica, levou a que, durante o ano de 2013, este espectáculo fosse partilhado com públicos muito diferenciados: estudantes, professores e funcionários da ESTC, frequentadores da

associação cultural SOU (Lisboa), participantes do Encontro

de Teatro Comunitário na La Tabacalera (Madrid), habitantes

da Quinta da Fonte (Loures) no festival O Bairro i o Mundo e espectadores dos festivais Noites da Nora (Serpa), Mexe (Porto) e AoGosto (Lisboa).

A constante partilha de funções (encenação, dramaturgia, iluminação, cenografia, sonoplastia, etc.) durante o processo criativo revelou-se como um modo de agir que contagiou a estética deste espectáculo e, posteriormente, do próprio colectivo. Este foi um processo intuitivo que, mais tarde, se consolidou e tornou consciente na residência de formação sobre coralidade em teatro-comunidade que o colectivo realizou com a companhia de teatro O BANDO. A partilha de funções enquanto leitmotif do processo criativo desenvolvida ao longo do processo de criação e apresentação de Marcos Poéticos veio a reflectir-se em projectos posteriores e materializou-se na expressão-lema que nos acompanha até hoje: “Estou para o que for preciso”.

A possibilidade de fazer uma intervenção de teatro dentro de uma comunidade escolar - Agrupamento Escolar Cardoso Lopes na Amadora - foi recebida pelo M 12 8 com a perspectiva de colocar em prática alguns desejos de acção e criação num contexto pedagógico formal. O insucesso e o abandono escolar, verificados também em algumas situações desta escola, motivaram a nossa vontade de potenciar a presença do teatro na vida de alunos, professores e funcionários e o seu reconhecimento como uma “arena privilegiada para reflectir sobre questões de identidade”, bem como, contribuir para o “aprofundamento das relações” e para a “expressão de vozes silenciosas ou silenciadas da comunidade” (Nogueira, 2007). Recorrendo à abordagem do team teaching, a ideia de “intervir em colectivo” ganhou um sentido ainda mais abrangente. Proveniente do universo da educação, o conceito de team

teaching refere um trabalho pedagógico inter-docentes que

promove relações de proximidade, apela ao envolvimento contínuo dos alunos, e, sobretudo, respeita a sua autonomia e integridade individual. Num sentido ideal, a abordagem do team teaching pretende reunir “um grupo de professores e

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estudantes num mesmo esforço para superar os obstáculos da aprendizagem, para compartilhar processos educacionais e para alcançar níveis mais elevados de compreensão e auto- realização” (LaFauci e Richter, 1970, pp.136, tradução livre). Através dos pressupostos pedagógicos do team teaching, nesta intervenção pretendemos potenciar a criatividade como um veículo transformador do indivíduo e do espaço escolar através de ferramentas do teatro.

[Pela suas qualidades de] mobilização de capacidades criadoras e de aprimoramento da relação vital do indivíduo com o mundo contingente; as atividades dramáticas [na sala de aula] liberam a criatividade e humanizam o indivíduo, pois o aluno é capaz de aplicar e integrar o conhecimento adquirido nas demais disciplinas da escola e, principalmente, na vida. Isso significa o desenvolvimento gradativo na área cognitiva e também afetiva do ser humano. (Reverbel, 1979).

Neste trabalho, desenvolvemos três acções (Teatro Fórum, Teatro Radiofónico e Teatro Performance/Intervenções Artísticas), dirigidas a quatro turmas (três turmas do 7.º ano e uma turma do 5.º ano) seleccionadas de acordo com a disponibilidade horária do M 12 8 e o interesse do respectivo professor face ao programa da sua disciplina.

Visando a apresentação e aproximação junto das diferentes turmas com que trabalhámos, propusemo-nos, num primeiro encontro, a responder a duas perguntas, formuladas por cada aluno e a desenvolver pequenas intervenções em contexto de sala de aula recorrendo a ferramentas metodológicas do Teatro Fórum. Estas situações permitiram a desinibição dos alunos, promovendo o conhecimento de cada turma através da escuta, interacção e participação entre elementos do colectivo, alunos e professores.

A existência de um colectivo de artistas numa sala de aula permitiu um olhar particular sobre os elementos de cada turma e, também, através de exercícios que apelaram à expressão

e criatividade, à transmissão de alguns comportamentos potenciadores de um maior sentido de escuta e diálogo, quase inexistentes a quando a nossa chegada às turmas. A experimentação de diferentes papéis em improvisações teatrais desenvolvidas em conjunto entre membros do colectivo e alunos foi também um factor facilitador da sua participação e integração nas diferentes acções que fomos propondo e que, através de jogos teatrais, permitiram diagnosticar e trabalhar algumas situações e temas associados à realidade dos alunos e pouco abordados dentro da comunidade escolar.

Nas Intervenções Artísticas realizadas dentro e fora da sala de aula com uma turma do CEF34 promoveu-se o encontro

entre um elemento do colectivo e um grupo de alunos, procurando um acompanhamento mais próximo na criação das apresentações finais que pretenderam expor e reflectir as opiniões de cada aluno relativamente à sua comunidade escolar. O resultado final, exposto na semana de término do ano lectivo 2012/2013, teve como intuito contribuir para o reconhecimento da importância da expressão e criatividade no percurso escolar dos alunos e para uma maior valorização da imagem de cada aluno nesta comunidade.

III. João dos Santos:

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