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uma conversa da capoeira com a aula de arte

Mariana Cruz Barbosa Reis

196 durante os estágios supervisionados do curso de Artes Visuais do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Um desses estágios consistiu em acompanhar as aulas de arte de duas professoras de Ensino Médio em uma escola estadual pública na zona leste de São Paulo. Foram realizadas também entrevistas com alunos dessa mesma escola.

Nessas experiências, foi possível observar um grande desinteresse dos estudantes em quase tudo que dizia respeito à escola, não porque fossem incapazes ou preguiçosos, pois mostravam vontade de conhecer mais, de conhecer situações novas, mas porque, para eles, a escola não era instigante.

Durante os estágios, percebi que o dia a dia da sala de aula se estendia muito mais enquanto ocupação de tempo do que como um trabalho assertivo que visa a um tipo determinado de formação. Isso começou a suscitar questões sobre como gerar alternativas a esse modelo de transmissão-acumulação e a uma existência escolar linear que coloca a cultura no lugar de simples anexo ou curiosidade.

Paralelamente a esse processo, foram chamando cada vez mais a minha atenção as aulas/treinos de capoeira do Grupo Mar de Itapuã de Capoeira Regional que frequento. Ali, gerava-se um ambiente de ensino-aprendizagem bastante propício para o desenvolvimento pessoal e intelectual dos envolvidos, próximo daquele ambiente que parecia estar faltando de maneira genérica para as escolas em que estive.

Assim, dediquei-me a tentar entender alguns aspectos presentes no processo de educação não formal que se desenvolve no Grupo de Capoeira, tendo sempre em vista o tipo de relação professor-aluno que comumente ocorre na Educação Básica, em especial no Ensino Fundamental, e suas possíveis aproximações com o Grupo.

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O processo através do qual se deu a pesquisa foi entendido como um processo de criação. Assim, a busca e a construção do conhecimento aconteceram através da atividade criativa que se deu durante o percurso das leituras, levantamentos, observações e análises. Nesse caso, um procedimento em particular obteve destaque: a fatura de cartografias, “mapas” apresentando e relacionando as principais ideias estudadas. Suscitada na disciplina Metodologia de Ensino das Artes Visuais I pela Profª Drª Sumaya Mattar, esse método acabou se revelando uma forma bastante eficiente para organizar, apresentar e relacionar pensamentos.

O conceito de cartografia é cunhado por Gilles Deleuze e Félix Guattari na Introdução de Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia (2000). Esses desenhos são mapas que podem ser constantemente reelaborados, acrescidos de novos conteúdos e modificados, o que dá vida ao processo da pesquisa e uma percepção diferenciada dos percursos realizados em seu decorrer.

Além do uso da cartografia, este trabalho se deu por meio da pesquisa-ação, uma vez que apenas a observação não seria suficiente para alimentar os estudos e as análises. Nessa forma de pesquisa, o pesquisador se encontra completamente inserido na situação que é objeto de seu estudo, sendo dela também participante. A subjetividade passa, então, a ser um elemento a se trabalhar juntamente com a dos outros atores, os quais se envolvem ajudando a construir o processo.

A pesquisa-ação é uma investigação-ação, alterna-se entre agir praticamente e investigar a respeito dessa prática. Assim, faz-se planejamentos, que são implementados, descritos e avaliados para que seja possível mudar para melhor, aprimorar a prática. Sendo assim, no decorrer do processo, aprende-se mais tanto sobre a própria prática quanto sobre sua investigação.

Podem-se delimitar muitos aspectos comuns entre o ambiente do treinamento/ensinamento da Capoeira e a aula de arte. Elegemos três deles para serem observados com mais atenção: o jogo, o ritual e a aula. Esses elementos foram escolhidos tendo em vista seu aspecto pedagógico, lúdico e simbólico, tomados aqui como possibilidades dentro do acontecimento de uma aula. Através do jogo, da aula e do ritual supõe-se que é possível o acionamento de diferentes

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movimentos de aprendizagem e construção do conhecimento entre as pessoas envolvidas.

Também foram escolhidos três imagens simbólicas: Roda, Cabaça e Afoxé.

Sua respectiva aproximação com elementos da escola e da sala de aula de arte estão associados a uma visão de ser humano relacionada diretamente com a cultura afro-brasileira. Este trabalho entende a arte como geradora e decorrente do desenvolvimento desse ser.

A imagem da cabaça é a de uma caixa de ressonância, como no berimbau.

Historicamente, em seu uso cotidiano e mítico, a cabaça nunca é apenas um receptáculo, ela é capaz de admitir várias funções. Sejam elas: guardar, carregar, proteger, armazenar, misturar, macerar, gerar, transformar ou transmutar. Nas histórias e lendas, a cabaça armazena tanto o físico quanto a sua parte imaterial/invisível correspondente. Na Capoeira, através do berimbau, a cabaça emite som, transmite o Axé, que movimenta e alimenta o próprio movimento. Tal som é uma resposta ao estímulo dado pelo tocador, pois o som não acontece espontaneamente. O professor seria esse tocador numa analogia com a sala de aula, o qual é quem escolhe o toque do berimbau e determina o jogo a ser jogado por seus alunos.

Pensar a cabaça como o corpo, seja ele individual ou coletivo, é lembrar que ele não é só a carne. O corpo vivencia, experimenta e tem memória e história, ancestral ou recente. Como a cabaça, ele é continente e conteúdo, seja semântico, físico ou espiritual. Ele transmuta formas e saberes. O corpo é o ser no mundo em si.

O afoxé é sopro daquele que fala (afo) e sua energia vital (axé). O sopro, que é som e é ar, é a vida que está no corpo, como o Axé do som da cabaça movimenta a roda de Capoeira. Igbadu, a cabaça da existência, para os iorubás é o primordial útero do mundo de onde vieram o céu e a terra, que sendo parte da mesma cabaça, devem sempre tentar se relacionar. A cabaça, nesse contexto, é uma imagem simbólica da vida e da sua manutenção.

O afoxé composto de sopro e de energia vital é o que dá vida, está dentro e fora da cabaça. Afoxé é a fala que faz, conjuga palavra e ação, ou seja, conceito,

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ideia, história, invenção, concepção, de um lado, e fazer, criação e manifestação material, de outro. Ele recheia e significa, é conteúdo expresso do diálogo da roda.

A vida e o corpo são trazidos nessa pesquisa por meio da imagem do afoxé e da cabaça. De acordo com o grau de aumento e aproximação que queremos tomar como referência, ela representa o corpo de cada aluno, o corpo da turma, o corpo da escola, o corpo das famílias, o corpo da comunidade, da cidade e assim por diante.

Rever a forma com que esses corpos se relacionam entre si e suas respostas uns aos outros congrega a imagem da roda. A roda são os diálogos que o corpo estabelece com seu entorno, suas ações, expressões e reações.

A complexidade envolvida pela imagem da roda, espaço de diálogo do corpo presente, remete simultaneamente ao jogo, ritual e aula. A manutenção da roda tem a ver com a comunicação efetiva e a relação de pertencimento, ou seja, a presença integral do aluno na manutenção de sua aprendizagem.

A roda contém em si o Afoxé e a Cabaça, é, de certa forma, a maneira com que eles se organizam num acontecimento programado. Assim também é a aula.

Mas o que torna a Roda diferente de uma aula convencional?

A ideia de Roda, quando remetemos sua imagem à vivência na Capoeira, traz consigo o espaço de troca de experiências, cujo fluxo e dinamismo geram novas experiências exclusivas para cada corpo que as vivenciou. Esse lugar onde é possível explorar possibilidades de expressão desse corpo – física, artística ou verbalmente – expõe possibilidades que são enriquecidas também pela exposição do/ao outro.

Essa troca permite que convivam tradição e criação, a Roda tem seus fundamentos, mas os jogadores permanentemente criam novas maneiras do jogo acontecer, sempre reinventando a memória do que é um jogo na Capoeira. Tradição e criação também coexistem na Arte, o que já foi feito nesse campo influencia diretamente o que fazemos hoje. Dispomos dessa tradição ou desse legado para tomar ou não como ponto de partida para fazer, alterar, compreender o que foi feito e o que ainda não foi.

As aulas de arte observadas nos estágios, de modo geral, acontecem sob a forma de proposição de atividades pré-selecionadas, sem encadeamento entre si ou