CENA II Um ESPÍRITO e o dito
UMA CRIADA DE SERVIR Escusas de aporfiar!
Torno já para a cidade. OUTRA
Verás que o vamos achar além no olmedo a esperar comidinho de saudade. A PRIMEIRA
E eu com isso que aproveito? Se eu gostasse do sujeito, valeria a pena; assim só para o ver no terreiro ser teu constante parceiro no bailarico, isso sim! Olha que bem para mim! OUTRA
Vem decerto acompanhado. A PRIMEIRA
Sim? A OUTRA
Sim; disse-me que vinha com ele o tal Carapinha, que assim tinham ajustado. UM ESTUDANTE (para outro) Ih! que pernas que elas tem! Parecem-me ventoinhas. Digo que estas cachopinhas dão calças à gente. Vem! Vem daí! mexe-te! avia, senão perdemo-lhe a pista. Eu cá dos gáudios na lista só acho três de valia:
pinga forte, esperto fumo, e servas embonecradas.
UMA DONZELA BURGUESA (afirmando-se nos estudantes) Mocetões assim, no rumo
das tristes de umas criadas! É força de indignidade! Não podiam conseguir, em mais nobre sociedade, objectos a quem servir?
SEGUNDO ESTUDANTE (ao primeiro) Forte correr! Pouco atrás
vem duas tão bem vestidas, tão elegantes! Verás. São duas páscoas floridas. ... Ai ai ai, que vem com elas a minha bela das belas.
Oh! que dita! A minha, a minha formosíssima vizinha,
o meu anjo, o meu amor! co’o seu passo miudinho aposto seja o que for
que nos alcança o ranchinho.
PRIMEIRO
Que seca de emprazadoras! Anda daí, companheiro.
Deixa-as lá. Não ’stão primeiro criadas, do que senhoras? Achavas agora graça em perder o rasto à caça que vai fugindo? Vem, vem! Olha que a mão que mais destra varre ao sábado, também
domingo a amimar é mestra. UM BURGUÊS
O tal Burgomestre novo não me cheira. A nomeação fê-lo soberbo co’o povo: vara na mão do vilão.
Que bem tem feito à cidade? O que eu vejo cada dia é crescerem sem piedade vexames e tirania.
UM MENDIGO
Oh meus devotos senhores! Minhas santinhas floridas! Lançai vistas condoídas A quem só vos canta dores!! Co’a vossa bendita esmola calai-me as lamúrias tristes! A esmola que repartistes também voss’alma consola. Almas devotas e pias, haja festa para todos! Sobras dos ricos são bodos, e trégua a mil agonias. OUTRO BURGUÊS
Ao domingo, ou num dia de festa, não conheço delícia como esta de estar a gente
nas suas terras, mansa e contente, forra a perigos, falando em guerras co’os seus amigos. Diz que a Sublime Porta tudo em barulho traz. E a nós que nos importa que haja lá guerra ou paz? A Turquia é no cabo do mundo. Onde há pois outro bem mais jucundo do que isto de estar
um homem pregado na sua janela, vazando quod ores, e a ver pelo rio os barcos pintados de tanto feitio,
que sobem, que descem, a remos e à vela!
Corre o dia satisfeito; chega a noite regalada; vai-se ao leito
prosseguir sonhando a eito nesta paz abençoada. TERCEIRO BURGUÊS
Assim digo eu também, senhor vizinho. Deixá-los lá matar-se os tais Turquescos, com tanto que haja paz neste cantinho, vivendo todos como bons Tudescos. UMA VELHA (a uma Senhorita) Psiu! Como vai casquilha!
Certo é que a mocidade é quem no mundo brilha. Ai, benza-te Deus, filha, que a tal graciosidade seria maravilha que resistisse alguém. É só esse desdém esse ar de soberbia que lhe não fica bem. Sorria!... Isso que tem? Sorria!... Vá... sorria! Assim. Ora inda bem. Não sabe? Tenho um dedo, que tudo me adivinha, e diz que esta rosinha nutre, mas em segredo, um bicho que a definha...
amores, bem me entende,
e eu sei quem eles são; e dar-lhe o que pretende está na minha mão. SENHORITA
Que impertinência! Oh Águeda, Deixe-me! tenha siso!
E forte causticar! Para me governar conselhos não preciso,
Se alguém nos visse agora aqui sós de palestra com esta bruxa-mestra... Suma-se, vá-se embora
(Aparte para as companheiras) E contudo o certo é
que em noite de Santo André me amostrou distintamente a figura que há-de ter o futuro pretendente
com quem me hei-de receber. A OUTRA
Tal qual, sem tirar nem pôr. Mandou-me o espelho mirar, e vi nele um militar,
que há-de ser o meu amor. E que figura tão linda
que ele era entre os mais soldados! Desde então, dez mil cuidados tenho posto em no buscar, e não o encontrei ainda. SOLDADOS (cantando) Castelos roqueiros, e altivas donzelas de assalto levar;
¿onde há, bons guerreiros, coroas mais belas
para um militar? Se é agra a vitória, a glória é sem par. Tocou-se a rebate. Vencer ou morrer! Voe-se, ao combate! Isto é que é viver. Caí, fortalezas! Rendei-vos, belezas! Triunfo e cantar! Se é agra a vitória, a glória é sem par. Ao som dos peloiros ceifaram-se os loiros.
Avante, soldados! Por nós são os fados. Avante! marchar!
CENA II
A maior parte dos ditos, que giram ad libitum. FAUSTO, WAGNER (Wagner é um amigo e discípulo do Doutor Fausto)
FAUSTO (conversando e caminhando com Wagner para o proscénio) Descoalharam-se os rios e ribeiros.
Bem haja a primavera! Já nos viça por todas essas veigas esperança. O inverno, já caduco, aí vai buscando refúgio pelas serras. Pobre inverno! ver como ainda está baldando raivas por se vingar da fuga! e nós a rirmos dos tiros mortos, que de lá nos lança, granizo imbele, que realça os verdes, mal que um raio de sol os desmortalha. Por toda a parte desabrolham vidas. Que folgazão que é o sol! Como se alegra de entrajar de matiz a natureza!
Como inda por aqui lhe minguam flores, supre-as com tanta gente pintalgada. (Continua sempre a sair gente da cidade) Vira-te para trás! Desta eminência olha para a cidade; o formigueiro, que do escuro da porta vem surdindo! Não há quem neste dia não cobice
vir ao campo assoalhar-se. Este alvoroço co’o ressurgir de Cristo, é clara mostra de outra ressurreição em todos eles. - Da casa-sepultura, - das canseiras da oficina ou do trato; - da estreiteza dessas vielas, que apelidam ruas, - do soturno dos templos, - é o instinto quem os promove à luz. Vê com que anseio se atira a turbamulta ao campo, às quintas! Que barcadas de gente jubilosa
veia do rio! Vê-me aquele bote além, além, o último; de cheio
já mete a borda na água; até as sendas dos montes lá ao longe estão querendo quebrar-nos olhos co’as garridas cores do gentio que as peja. Já cá chega o estrondear da aldeia. O céu do povo, se há céu do povo, é isto; o rapazio, os homens feitos, tudo grita, salta, ri, tripudia. Aqui me sinto eu homem, e me é dado que o seja.
WAGNER
Honra e proveito,
Senhor Doutor, é o passear convosco. Mas eu, se dirigisse este passeio,
não vinha para aqui; nunca achei graça ao que cheira e tresanda a grosseria. Este zangarrear cantigas toscas, estes jogos de bola, esta algazarra, tudo isso odeio; implica-me co’os nervos. Andam doidos; parecem-me possessos. Nem é cantar nem festa; é só balbúrdia.
CAMPONESES debaixo da tília. (Canto e dança, ao som de uma rabeca) VOZ
Viva o bailarico! Já está no terreiro o nosso ovelheiro de graças mais rico; laços no pelico, flores por cimeiro. CORO
Dancemos, voemos à volta do til, rapazes e moças do balho gentil! Zina, zana, zana,
zana, zana, zim. Rabeca magana, tocar sempre assim!
VOZ
Tão sôfrego vinha que esbarrou no seio de esbelta mocinha, que assim reconveio: - «Olha que lorpinha «que ao balho nos veio!» CORO
Dancemos, voemos à roda do til, rapazes e moças do balho gentil! Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Quem viu nunca, ai mana! ovelheiro assim?
VOZ
E como vai dando co’os seus calcanhares! Gire, gire o bando! Saias pelos ares! Ai, já vão cansando; pendam-se aos seus pares! CORO
Dancemos, voemos à roda do til, rapazes e moças do balho gentil! Zina, zana, zana,
zana, zana, zim. Apertar com gana braços de marfim VOZ
- «Não seja atrevido, «que eu não sou daquelas «com quem se tem rido» Baldadas cautelas! Co’o seu repelido fugiu dentre as belas. CORO
Dancemos, voemos à volta do til, rapazes e moças do balho gentil! Zina, zana, zana,
zana, zana, zim. Rabeca magana, tocar sempre assim!
UM CAMPÓNIO VELHO (trazendo uma infusa, e dirigindo-se para Fausto) Guapa acção, sô Doutor! Num dia destes
vir juntar-se co’a gente cá de fora, toda ignorante, um sábio dessa polpa! Aceite-nos portanto esta infusinha.
Melhor não se encontrou. Que a pinga é fresca, isso é; mas o que importa mais que tudo
é ser de boamente oferecida
para que a beba em gosto, e tantos anos lhe acrescente de vida, quantas gotas contêm no bojo.
FAUSTO
Bem hajais! Aceito
o refresco oportuno; e correspondo com outro tanto afecto ao de vós todos. (Reúne-se o povo à roda)