Capítulo 2 – Acerca das ferramentas teórico-metodológicas utilizadas: a construção
2.3. Uma definição preliminar do objeto de estudo
Estabelece-se uma definição preliminar das noções de tecnologia e tecnologia intensiva em conhecimento adotadas nesta pesquisa. Uma definição conceitual desse tipo estará presente inevitavelmente ao longo do trabalho, daí a preferência por explicitar-la de forma prévia à apresentação da busca empírica e teórica realizada.
2.3.1. Uma “definição genérica” do objeto: a noção subjacente de tecnologia
O termo tecnologia engloba tanto uma forma social de conhecimento quanto determinadas práticas e produtos. Em particular, os produtos ou artefatos – a forma com que normalmente partindo do senso comum a palavra tecnologia é associada – são a
materialização de práticas e conhecimentos tecnológicos. Essa distinção permite estabelecer dois aspectos em que se apresenta a tecnologia e que precisam ser diferenciados quando se pretende conhecer a ela; isso é, a tecnologia pode ser vista como
processo e como produto. Essa diferenciação é chave para esta tese porque, embora ao
longo da mesma são feitas referências a determinados produtos desenvolvidos na trajetória sócio-técnica analisada, o objeto de estudo é o processo em relação ao qual esses produtos são uma manifestação material entre outras.
De acordo com a visão construtivista selecionada para a realização desta pesquisa, a tecnologia – seja enquanto processo ou produto – é uma atividade social da qual participam uma multiplicidade de atores (Mac Kenzie e Wajcman 1985). Isso supõe duas características centrais que estariam presentes na análise dos processos selecionados. Por um lado, a tecnologia é entendida como uma relação social e, por outro, enquanto atividade humana é ao mesmo tempo compreendida como uma atividade simbólica.
Uma crítica realizada à perspectiva construtivista está relacionada à idéia de que o enfoque da construção social da tecnologia é centrado nos ‘atores’ e não dá conta dos ‘fatores estruturais ’ que determinam os processos de mudança tecnológica. Porém, para alguns autores dentro dessa linha de trabalhos e também para o enfoque que se adota nesta tese, tanto os atores como as estruturas são considerados “produtos”: criar um ator é também criar uma estrutura e a criação de uma estrutura implica a criação de um ator (Law e Bijker 1992b). Os atores tanto como as estruturas são vistos como um conjunto de relações heterogêneas e contingentes e essa é a visão da qual não compartilham aqueles que consideram que esta perspectiva esquece dos elementos estruturais.
O estudo de caso analisado na tese é o de uma empresa Argentina produtora de bens intensivos em conhecimento. Porém, a empresa não constitui a unidade de análise selecionada. A empresa enquanto a forma legal adotada para o desenvolvimento de ditas tecnologias constitui parte da dimensão organizacional da trajetória sócio-técnica analisada, que envolve também outros atores tecnológicos como protagonistas. São denominados atores tecnológicos aqueles atores sociais diretamente vinculados com as
atividades de pesquisa e desenvolvimento de produtos, processos e organização da produção (Thomas 1999). Nesse sentido, a empresa é um ator entre outros dos que participam nos processos analisados, mas não a unidade de análise de referência desta tese sobre a que se pretende extrair conclusões gerais.
Nesta tese, diferentemente dos estudos realizados no marco do Programa SCOT, não se trata de realizar o seguimento de artefatos isolados, mas de “famílias” de produtos ou “pacotes tecnológicos” que se desenvolvem a partir de determinadas trajetórias sócio- técnicas. As perguntas acerca de quais foram os grupos sociais que interviram na criação das tecnologias analisadas e que interpretação realizaram delas, são o ponto de partida da indagação empírica, mas o objetivo do trabalho consiste na reconstrução analítica de ‘trajetórias’ que se desenrolam no tempo ao interior das diferentes ‘dinâmicas sócio- técnicas’ locais . Daí que esses dois conceitos sejam centrais para a organização do relato e da análise do caso proposto.
Aqui seria aplicável a crítica derivada do ‘princípio de simetria’ e seu complemento ‘de imparcialidade’ da sociologia do conhecimento (Bloor 1976) - introduzido na análise da tecnologia por Callon (1986) -, que indica que tanto as trajetórias exitosas como as que não o são deveriam ser analisadas. Porém, a trajetória sócio-técnica estudada permite contemplar ambas possibilidades se for levado em conta que durante seu desenvolvimento foram geradas tecnologias que não lograram materializar-se sequer sob a forma de protótipo. Em nosso caso, a referência ao “sucesso” está vinculada à sustentação no tempo de empreendimentos que lograram uma continuidade pouco usual para o âmbito local na produção de tecnologias intensivas em conhecimento. Porém, uma análise das tecnologias desenvolvidas ao interior de cada uma de ditas trajetórias permite encontrar exemplos que não conseguiram ‘se estabilizar’ ou tão sequer ‘funcionar’.
A incorporação de categorias provenientes da economia nas quais não se encontra suposta essa maneira de conceber a tecnologia, será realizada através da redefinição de seu alcance a partir de críticas já recebidas por parte de autores construtivistas ou introduzindo as ressalvas necessárias para uma interpretação consistente com o enfoque adotado. Assim, por exemplo, a noção de mercado é concebida não mais em termos de
um conjunto de agentes atuando em relações de compra e venda a partir de uma ‘racionalidade limitada’ pela falta de um conhecimento perfeito (Nelson e Winter 1982; Simon 1959), mas essa ‘racionalidade’ se relaciona por sua vez com o grau de “embeddedness” / “enraizamento” dos raciocínios e estratégias dos diferentes atores no espaço sócio-técnico em que se desenvolvem (Callon 1998; Granovetter 1985).
2.3.2. Uma “definição específica” do objeto: as tecnologias intensivas em conhecimento
No capítulo anterior foi feita uma referência à literatura que se encarregou de realizar análises sobre setores, empresas ou desenvolvimentos “de base tecnológica”, “conhecimento-intensivos” ou “de alta tecnologia”, simplesmente a partir das definições e da terminologia que os autores estabeleceram para dar conta do seu objeto de estudo. Como foi assinalado, a variedade de formas através das quais é possível definir esse objeto faz necessário explicitar os parâmetros que guiaram a busca de cada pesquisa.
Existem diversas formas de definir os objetos (tecnologias, firmas, trabalhos, trabalhadores, setores da economia) dos quais se predica a qualidade “conhecimento- intensivo”; obviamente, nenhuma delas é definitiva. Em particular, o conhecimento é muito difícil de ser quantificado/observado e, conseqüentemente, a “intensidade” do conhecimento é uma noção por si elusiva. Nos fatos, o conceito de tecnologias e firmas intensivas em conhecimento é socialmente construído e dificilmente possa ser encontrado um critério objetivo para sua identificação (Alvesson 2000).
Geralmente se faz referência a setores “conhecimento-intensivos” ou “baseados em ciência” (Pavitt 1984) incluindo entre eles as indústrias de biotecnologia, informática, eletrônica, farmacêutica e aeroespacial. Porém, não necessariamente todas as firmas de um setor desse tipo, nem todas as tecnologias que se desenvolvem ao interior desses setores são intensivas em conhecimento. Embora à continuação são apresentados alguns parâmetros do que é considerado intensivo em conhecimento nesta tese, a escolha do caso sob estudo foi definida -seguindo a metodologia adotada pela pesquisa- através da
consulta a especialistas que o identificaram como exemplo paradigmático de uma empresa nacional com uma trajetória pouco usual no desenvolvimento de produtos com um alto valor agregado em conhecimento. A isso se pode somar que se teve em conta o tipo de atividade a que se dedica a firma (desenvolvimento e venda de produtos complexos que requerem pessoal altamente qualificado e o uso de conhecimentos não estandardizados para sua produção) e os setores nos quais atua (nuclear e aeroespacial).
Tendo em conta o foco desta tese, interessa referir a essas tecnologias em função do tipo e da forma de aplicação do conhecimento utilizado. Nesse sentido, buscaram-se experiências nas quais se verifica a capacidade de resolução de problemas complexos a partir de soluções criativas que, em apenas alguns casos, podem ter sido também ‘inovadoras’. Não necessariamente uma tarefa criativa envolve conhecimentos complexos, nem tampouco uma tarefa estandardizada para a qual é necessário uma importante bagagem de conhecimentos é uma atividade intensiva em conhecimento. O que define o desenvolvimento desse tipo de tecnologias é o requerimento de conhecimento novo para a resolução de problemas complexos. É possível dizer, a partir do interesse desta tese, que se trata de tecnologias para cujo desenvolvimento é necessária a atualização de conhecimentos provenientes de diferentes áreas disciplinares o sub-disciplinares em circunstâncias novas e não estandardizadas. A análise desse tipo de tecnologias se apresenta especialmente adequado para compreender a lógica de produção de conhecimento tecnológico e as formas em que se vinculam os atores envolvidos no seu desenvolvimento.
A definição de tecnologia intensiva em conhecimento exige que se faça outra aclaração sobre o uso do termo nesta tese. Nesse sentido, usualmente se denomina tecnologia ao conjunto de conhecimentos orientados à produção de algum bem ou serviço referente ao manejo de técnicas de produção. Ao longo da tese, porém, a noção de tecnologia fará referência também a outro tipo de conhecimentos especialmente importantes para a produção em setores de produtos complexos que se vinculam às dimensões organizacionais, mas também sociais e ideológicas envolvidas no seu desenvolvimento.