SOBRE O LUGAR DO COMPORTAMENTO NA ANÁLISE DAS CATEGORIAS PSICOLÓGICAS
3.4. Uma Discussão do Behaviorismo Teleológico de Rachlin e da Abordagem da Mente Estendida de Clark e Chalmers
3.4.4. Uma Discussão da Abordagem de Clark e Chalmers
Como a abordagem de Clark e Chalmers, a minha é uma forma de externismo forte, mas com várias diferenças fundamentais. Em primeiro lugar, o funcionalismo estendido deles é uma extensão do funcionalismo tradicional, que, penso, é equivocado. O funcionalismo tradicional implica que qualquer fenômeno psicológico pode ser um fenômeno interior totalmente não comportamental. Minha abordagem tem características funcionalistas, mas não no sentido da formulação tradicional do funcionalismo. A definição de comportamento que eu sustento é (teleo)funcionalista (no sentido de Millikan 1993a), pois eu entendo comportamentos como processos funcionais, dirigidos a objetivos (onde funções devem ser entendidas, resumidamente falando, em termos de histórias de seleção). Os fenômenos psicológicos, na minha abordagem, herdam funções dos comportamentos que os compõem. Por exemplo, estar com fome tem a ver com comportamentos que possuem como funções a busca por alimentos, evitar obstáculos para o comportamento alimentar, e similares (talvez com a função comum de obtenção de alimento, em um nível molar). As funções dos fenômenos psicológicos são aquelas que os comportamentos possuem por direito próprio. Assim, minha perspectiva opõe-se diretamente ao funcionalismo tradicional, que é em grande parte retida por Clark e Chalmers.42
Em segundo lugar (e correlatamente), onde há lembrar-se, imaginar ou raciocinar sem qualquer comportamento manifesto sendo exibido pelo organismo, Clark e Chalmers concebem o processo cognitivo como sendo um processo computacional dentro da cabeça, e não como um processo comportamental. Embora sua abordagem tente mitigar o papel de computações e
42 As versões da abordagem da mente estendida de Menary (2010b) e Rowlands (2010) não dependem do
funcionalismo tradicional. No entanto, penso que elas são sujeitas, mutatis mutandis, a pelo menos às segunda e quarta observações que levanto a seguir, senão também a uma versão modificada da terceira observação.
representações mentais em processos cognitivos, acaba dependendo desses construtos de modo amplo (cf. Clark 1997). A meu ver, por outro lado, como destaquei acima, ao levarmos em conta a natureza comportamental desses fenômenos não só quando acontecem abertamente, mas também quando acontecem encobertamente, a necessidade de tais postulações é removida. Ou seja, Clark e Chalmers negligenciam a natureza comportamental dos exemplares de processos cognitivos que não envolvem comportamento manifesto, por isso postulando aqueles construtos. Essas postulações, além disso, como também apontei, enfrentam várias dificuldades conceituais (como, e.g., a chamada falácia mereológica).
Em terceiro lugar, Clark e Chalmers acabam reificando os fenômenos psicológicos, sobretudo as crenças. Segue-se a partir de sua abordagem que crenças podem estar disponíveis em estruturas como cadernos e listas de compras, as quais, por exemplo, possuem localização e podem ser transportadas de um lugar para outro. O exemplar de uma crença (e.g., uma crença sobre as coisas a serem compradas em um supermercado), então, poderia estar disponível no lado esquerdo ou direito de uma mesa, mais ou menos distantes da testa, e assim por diante. Ora, isso é incoerente com as nuanças da noção de crença (além de com as nuanças de outras categorias psicológicas). Não faz sentido (ou seja, é equivocado conceitualmente) dizer que a crença de alguém pode passar de uma sala para outra, estar alguns centímetros de seu próprio nariz, e assim por diante. Clark e Chalmers inclusive já partem de uma visão reificadora das crenças (além de outros fenômenos psicológicos), ao assumirem que elas podem ser armazenadas no cérebro (cf. Lazzeri 2011b). Diferentemente de sua abordagem, a minha é consistente com o caráter abstrato de crenças e outros fenômenos psicológicos.
Por fim, a dimensão propriamente externista da abordagem de Clark e Chalmers é bastante limitada em escopo, pois limita-se a crenças e processos cognitivos. Eles aparentemente pensam que emoções, humores, apetites, a maioria das atitudes proposicionais, etc. estão confinados no interior dos organismos e não têm componentes comportamentais. Em outras palavras, a sua abordagem é ainda bastante mentalista (em um sentido usual deste termo; e.g., Moore 2010; Smith 1984; cf. também capítulo 5), apesar de ter uma dimensão externista. Por outro lado, a abordagem sugerida no presente trabalho é externista forte (e comportamental) sobre as categorias psicológicas em geral (ainda que deixe em aberto a possibilidade de uma exceção).
3.5. Conclusão
Em suma, esbocei um externismo forte comportamental segundo o qual todos os exemplares de pelo menos a maioria das (senão de todas as) categorias psicológicas são constituídos por comportamentos, que podem ser ações e/ou reações, manifestos e/ou encobertos, e singulares, em cadeias ou espalhados em diferentes momentos e lugares (conforme o caso). Comportamentos não compõem os fenômenos psicológicos da mesma maneira. Eu procurei delimitar as maneiras como eles o fazem, com base em especial na distinção entre fenômenos psicológicos disposicionais e episódicos. Pelo menos duas razões gerais parecem favorecer a abordagem delineada, a saber: sua ampla harmonia com as nuanças básicas das categorias psicológicas; e sua parcimônia. Esta abordagem contrasta com o internismo, com o externismo tradicional de conteúdo, com o externismo forte não comportamental e com algumas formas de externismo forte comportamental. Comparei-a especialmente com o externismo forte comportamental de Rachlin e com o externismo forte não comportamental de Clark e Chalmers. As abordagens de Rachlin e de Clark e Chalmers, como procurei mostrar, falham em satisfazer ao desiderato de coerência geral com as nuanças básicas das categorias psicológicas e não são virtuosamente parcimoniosas (a de Rachlin não é parcimoniosa na medida certa, ao passo que, a de Clark e Chalmers, é relativamente não parcimoniosa). A abordagem aqui apresentada tenta manter as qualidades dessas abordagens e evitar seus defeitos. Embora não seja uma modelagem completa das categorias psicológicas, promove, penso eu, uma melhor imagem do lugar do comportamento nessas categorias.
CAPÍTULO 4
SOBRE ALGUMAS OBJEÇÕES COMUNS A UMA ABORDAGEM