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Uma heran ¸ca que me fez

No documento 34567FEVEREIRO DE 2019 (páginas 26-31)

‘florescer no p ´

atio de Deus’

NARRADA POR WOODWORTH MILLS

NO MEIO da noite, l´ a est´

avamos n´ os em frente ao N´

ıger — um rio de correnteza forte e com mais de um quil ˆ

ometro e meio de largura. A Nig´ eria estava no meio de uma guerra civil, e cruzar o N´

ıger podia ser muito perigoso.

Mesmo assim, n˜ ao t´

ınhamos escolha.

Tivemos que nos arriscar, e fizemos isso mais de uma vez. Como fui parar nessa situa ¸c˜

ao? Antes de contar, vamos voltar no tempo, para antes de eu nascer.

um mission´

ario canadense que tinha visitado Tri-nidad. Meus pais se lembravam com empolga ¸c˜

ao dos seus antigos companheiros de prega ¸c˜

ao, o casal Brown, que naquela ´

epoca j´

a estavam na

´Africa Ocidental. Tudo isso me motivou a come ¸car a sair no campo quando tinha 10 anos.

PRIMEIRAS ATIVIDADES Naquela ´

epoca, nossas revistas eram bem dire-tas quando falavam da falsidade nas religioes, da˜ ganˆ

ancia no com´

ercio e da sujeira na pol´

ıtica. Por causa disso, em 1936, os l´

ıderes religiosos em Tri-nidad conseguiram convencer o governador a ba-nir todas as publica ¸c˜

oes da Torre de Vigia. N´ os escondemos as publica ¸c˜

oes que t´

ınhamos e usa-mos tudo at´

e acabar. Para pregar, faz´

ıamos mar-chas informativas ou and´

avamos de bicicleta usando cartazes e distribuindo convites. Tamb´

em nos junt´

avamos com o grupo de Tunapuna para pregar nas partes mais isoladas de Trinidad usan-do um carro de som. Era emocionante! Tousan-do esse ambiente espiritual me motivou a me batizar com 16 anos.

A heran ¸ca espiritual que recebi de minha fam´ ı-lia e essas primeiras experiˆ

encias me fizeram ter muita vontade de ser missionario. E eu continuei´ com esse desejo quando fui para a ilha de Aruba em 1944, onde passei a pregar junto com Ed-mund Cummings. Ficamos muito felizes de conse-guir reunir dez pessoas para assistir `

a Celebra ¸c˜ ao em 1945. No ano seguinte, foi formada a primeira congrega ¸c˜

ao da ilha.

Pouco depois, dei testemunho para uma colega de trabalho chamada Oris Williams. Ela tentou de-fender suas doutrinas religiosas usando v´

arios ar-gumentos fortes. Mas Oris passou a estudar a B´

ı-blia e aprendeu o que ela realmente ensina. Em 5 de janeiro de 1947, Oris se batizou. Com o tem-po, nos apaixonamos e casamos. Em novembro de 1950, ela come ¸cou a servir como pioneira. Com Oris, minha vida ‘floresceu’ de um jeito diferente.

SERVI ¸CO EMOCIONANTE NA NIG´ ERIA

Em 1955, fomos convidados para cursar Gilea-de. Oris e eu pedimos demiss˜

ao de nossos

empre-gos, vendemos nossa casa e nossos outros bens e dissemos adeus `

a Aruba. Em 29 de julho de 1956, nos formamos na turma 27 de Gileade e fomos designados para a Nig´

eria.

Lembrando dessaepoca, Oris disse: “Jeov´ a´ pode ajudar uma pessoa a se adaptar aos altos e baixos da vida de mission´

ario. Meu marido que-ria ser mission´

ario, mas eu n˜

ao. Eu preferia ter minha casa e ter filhos. Mas quando me dei con-ta de como a obra de pregar ´

e urgente, eu mu-dei de opini˜

ao. Na ´

epoca da nossa formatura em Gileade, eu j´

a estava gostando da ideia de ser missionaria. S´ o que quando embarcamos no na-´ vioQueen Mary,o irmao Worth Thornton, que tra-˜ balhava no escrit´

orio do irm˜

ao Knorr, nos desejou uma boa viagem e nos disse que ´

ıamos servir em Betel. Na hora eu pensei: ‘Ah, n˜

ao!’ Mas n˜ ao de-morou muito para eu me adaptar e amar Betel. L´ a eu recebi v´

arias designa ¸c˜

oes. A que eu mais gos-tei foi a de ser recepcionista. Eu amo as pessoas, e esse trabalho me fazia ter contato direto com os irmaos nigerianos. Muitos chegavam cobertos˜ de poeira, cansados, com fome e com sede. Para mim, era um prazer cuidar desses irm˜

aos, dando a eles tudo o que precisavam. Isso era servi ¸co sa-grado para Jeov´

a e me deixava muito feliz e reali-zada.” Sem d´

uvida, cada designa ¸c˜

ao nos deu a chance de ‘florescer’ ainda mais.

Em 1961, fizemos uma reuniao de fam˜ ılia´ em Trinidad. O irmao Brown contou algumas ex-˜ periencias emocionantes daˆ ´

Africa. Daı eu falei´ sobre o aumento de publicadores na Nig´

eria. O ir-m˜

ao Brown me deu um abra ¸co carinhoso e disse para o meu pai: “Johnny, vocˆ

e nunca conseguiu ir pregar na ´

Africa, mas Woodworth conseguiu!” Da´ ı meu pai me disse: “Continue assim, Worth! Conti-nue assim!” Receber esse incentivo de irm˜

aos com tanta experiˆ

encia aumentou meu desejo de cumprir bem meu servi ¸co a Jeova.´

Em 1962, eu tive o privilegio de receber´ mais treinamento na turma 37 de Gileade durante dez meses. Um tempo depois, fui designado para cuidar do Betel da Nig´

eria. Isso porque o irm˜

ao Wilfred Gooch, que era o supervisor da sede da Nig´

eria, tinha sido convidado para a

FEVEREIRO DE 2019 27

A O grupo de Tunapuna com o carro de som

B Com Oris, minha vida floresceu de um jeito diferente

C William “B´

ıblia” Brown e sua esposa, Antonia, nos incentivaram bastante

D Com a fam´

ılia de Betel em Lagos, Nig´

eria, 1957

E Assembleia Internacional “Homens de Boa Vontade”: 121.128 pessoas presentes, sess˜

oes em 17 idiomas, incluindo ibo

A B

C

D E

FEVEREIRO DE 2019 29 turma 38 de Gileade e designado para a

Inglater-ra. Assim como o irm˜

ao Brown, eu viajei muito e pude conhecer e amar os irmaos nigerianos. Em-˜ bora eles n˜

ao tivessem muitas coisas que as pes-soas em pa´

ıses mais desenvolvidos tˆ em, eles eram muito alegres e estavam contentes com o que tinham. Isso prova que a verdadeira felicida-de n˜

ao tem nada a ver com dinheiro ou com as coisas que temos. Era bonito ver como eles, mes-mo tendo pouco, sempre estavam limpos e bem-arrumados nas reuni˜

oes. Nos congressos, muitos deles viajavam de caminh˜

ao ou debolekaja(um tipo de ˆ

onibus aberto feito localmente). Geral-mente, nessesonibus eram colocadas frases inte-ˆ ressantes, como por exemplo: “Um enorme ocea-no ´

e formado por pequenas gotas de ´ agua.”

O que essa frase dizia era mesmo verdade. O pequeno esfor ¸co que cada um faz ´

e importante. E n´

os tamb´

em contribu´

ımos com nossos esfor ¸cos.

Em 1974, a Nig´ eria j´

a tinha se tornado o primeiro lugar fora dos Estados Unidos a ter 100 mil publi-cadores. Vimos que o trabalho de prega ¸c˜

ao tinha

‘florescido’.

No meio desse crescimento, come ¸cou uma vio-lenta guerra civil na Nig´

eria, que durou de 1967 a 1970. Por meses, nossos irm˜

aos que moravam do outro lado do rio Nıger, numa regi´ ao chama-˜ da Biafra, perderam o contato com Betel. Mas n´

os n˜

ao pod´

ıamos deix´

a-los sem alimento espiritual.

Como tinha dito antes, orando a Jeov´

a e confian-do nele, atravessamos o rio varias vezes.´

Eu me lembro bem dessas viagens perigosas pelo rio N´

ıger. Sempre corr´

ıamos risco por causa de doen ¸cas, soldados com o dedo no gatilho e ou-tras amea ¸cas. Se j´

a era dif´

ıcil passar pelas tropas federais muito desconfiadas, pior ainda era con-seguir entrar em Biafra, que estava totalmente bloqueada. Certa vez, fui visitar os irmaos na ci-˜ dade de Enugo. Para isso, tive que fazer a traves-sia entre Asaba e Onitsha cruzando as ´

aguas tur-bulentas do Nıger — e isso´ a noite numa canoa.` Outra visita que fiz foi para os anci˜

aos de Aba, justamente na ´

epoca em que os moradores foram

Veja aDespertai!de 8 de setembro de 1972, paginas 24-26.´

proibidos de acender as luzes `

a noite por causa da guerra. E quando visitei Port Harcourt, os ir-m˜

aos tiveram que encerrar logo a reuni˜ ao com ora ¸c˜

ao porque, perto dali, as for ¸cas federais ti-nham conseguido vencer o bloqueio da regi˜

ao de Biafra.

Essas visitas foram muito importantes para ga-rantir aos nossos queridos irmaos que Jeov˜ a ia´ cuidar deles com amor e para aconselha-los a´ continuar neutros e unidos. Eles foram bem-suce-didos ao passar por aquele conflito horr´

ıvel, man-tendo a uni˜

ao e mostrando um amor mais forte que o ´

odio da guerra. Foi um grande privil´ egio es-tar ao lado deles naquele momento dif´

ıcil!

Em 1969, o irm˜

ao Milton Henschel foi o presi-dente da Assembleia Internacional “Paz na Terra”, no Est´

adio Yankee, em Nova York. Eu aprendi mui-to sendo o assistente dele. Isso foi bom porque em 1970 eu ajudaria a organizar em Lagos, na Ni-g´

eria, a Assembleia Internacional “Homens de Boa Vontade”. Esse evento aconteceu logo depois da guerra civil e so deu certo porque Jeov´ a aben-´

¸coou. Foi a primeira vez que houve 17 idiomas na mesma assembleia, com 121.128 presentes e 3.775 batizados — um dos maiores batismos j´

a vistos desde o Pentecostes. Estiveram presentes os irm˜

aos Knorr, Henschel e outros que vieram em avi˜

oes fretados nos Estados Unidos e na Inglater-ra. O per´

ıodo em que ajudei a organizar essa as-sembleia foi um dos mais corridos da minha vida.

Naquela ´

epoca, n˜

ao tivemos apenas um aumento de publicadores. Tivemos uma explos˜

ao!

Nos meus mais de trinta anos na Nig´

eria, servi de vez em quando na ´

Africa Ocidental como supe-rintendente viajante e supesupe-rintendente zonal. Os missionarios ficavam muito gratos quando rece-´ biam aten ¸cao especial e encorajamento! Era um˜ prazer poder mostrar que eles n˜

ao tinham sido esquecidos. Esse trabalho me ensinou que ´

e im-portante mostrar interesse por cada pessoa. Isso n˜

ao apenas ajuda as pessoas a ‘florescer’, mas tamb´ lidar com as dificuldades que a guerra civil e as

doen ¸cas trouxeram. As bˆ en ¸c˜

aos dele sempre fo-ram evidentes. Oris comentou:

“N´

os dois tivemos mal´ aria v´

arias vezes. Em uma delas, Worth chegou inconsciente no hospital. Fa-laram que ele nao ia sobreviver, mas felizmente ele˜ melhorou! Quando recuperou a consciˆ

encia, Worth pregou para o enfermeiro que estava cuidando dele. Um tempo depois, eu fui com Worth revisitar o enfermeiro, que se chamava Nwambiwe. Ele acei-tou a verdade e mais tarde se tornou anci˜

ao em Aba. Eu tamb´

em tive bons resultados em ajudar muitas pessoas a conhecer a Jeov´

a, inclusive

mu-¸culmanos devotos. Conhecer e amar cada vez mais o povo nigeriano, sua cultura, costumes e idioma foi algo muito especial para n´

os.”

Outra li ¸c˜

ao que aprendemos foi: Para ‘flores-cer’ em nosso servi ¸co em outro pa´

ıs, tivemos que aprender a amar nossos irmaos e irm˜ as, mesmo˜ que a cultura deles fosse bem diferente da nossa.

NOVAS DESIGNA ¸C ˜ OES

Depois de servirmos no Betel da Nig´

eria, fomos designados em 1987 para servir como missiona-´ rios na bela ilha de Santa L´

ucia, no Caribe. Foi uma designa ¸cao muito agrad˜ avel, mas com no-´ vos desafios. L´

a na ´

Africa era comum um ho-mem ter muitas esposas. J´

a em Santa L´ ucia, o problema era que muitos casais viviam juntos sem estarem legalmente casados. Mas o poder da Pa-lavra de Deus motivou muitos de nossos estudan-tes a fazer as mudan ¸cas necess´

arias.

Mas a idade foi chegando e tirando o nosso vi-gor. Ent˜

ao, o Corpo Governante foi amoroso e nos transferiu para o Betel de Brooklyn em 2005. In-felizmente, em 2015, Oris foi vencida pelo grande inimigo, a morte. Nao existem palavras para des-˜ crever a dor que eu senti. Mas eu ainda agrade ¸co a Jeov´

a todo dia por Oris. Ela foi a melhor com-panheira que algu´

em poderia ter. Era muito am´ a-vel e tinha ´

otimas qualidades. Em nossos 68 anos juntos, eu sempre fui apaixonado por ela. Desco-brimos que a receita da felicidade, tanto no casa-mento quanto na congrega ¸cao,˜ e respeitar a che-´ fia, perdoar de cora ¸c˜

ao, continuar humilde e mostrar o fruto do esp´

ırito.

Quando pass´

avamos por decep ¸c˜

oes ou desˆ ani-mo, sempre ped´

ıamos a ajuda de Jeov´ a para continuar servindo a ele. `

A medida que essas si-tua ¸coes nos ‘reajustavam’, as coisas sempre me-˜ lhoravam — e o melhor ainda est´

a por vir! — Isa.

60:17; 2 Cor. 13:11.

Jeov´

a aben ¸coou o trabalho de meus pais e de outros irm˜

aos em Trinidad. Os ´

ultimos relat´ o-rios mostram que 9.892 pessoas estao servindo a˜ Jeova em Trinidad e Tobago. Minha antiga congre-´ ga ¸c˜

ao em Aruba tamb´

em recebeu a ajuda de muitos irm˜

aos, e hoje existem 14 congrega ¸c˜ oes publica-dores aumentou para 381.398. E na ilha de Santa L´

ucia h´

a 783 defensores do Reino de Deus.

Estou agora com mais de 90 anos. Sobre os que s˜

ao plantados na casa de Jeov´

a, o Sal-mo 92:14 diz: “MesSal-mo na velhice dar˜

ao muito fru-to; continuar˜

ao fortes e cheios de vida.” Sou mui-to gramui-to pela vida que tive no servi ¸co de Jeov´

a. A heran ¸ca espiritual valiosa que recebi me incenti-vou a dar meu melhor para Jeov´

a. O amor leal dele por mim me fez ‘florescer nos patios do meu´ Deus’. — Sal. 92:13.

Em nossos 68 anos juntos, eu sempre fui apaixonado por Oris

A PALAVRA “sinagoga” vem de uma palavra grega que significa “assembleia” ou “ajunta-mento”. Esse nome faz sentido porque, des-de os tempos antigos, os judes-deus tinham o costume de se juntar nas sinagogas para receber ensino e adorar a Deus. Nenhum lu-gar das Escrituras Hebraicas fala diretamen-te das sinagogas. Mas pelo que mostram as Escrituras Gregas Crist˜

as, as sinagogas j´

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