Como dito anteriormente, os relatos desse capítulo foram reconstruídos a partir do contato e análise de documentos oficiais, criados pela SME durante o período estudado por essa pesquisa. Nesses materiais, encontramos uma série de eventos, medidas adotadas pela gestão e dados que são apresentados em uma ordem de importância decidida pelos seus autores. Ao confrontá-los com os relatos oriundos das memórias das educadoras que viveram aqueles anos atuando diretamente ligadas as escolas temos contato com um enredo distinto. A pauta de importância dos acontecimentos costuma ser outra para aqueles que vivenciaram todas as transformações propostas pela equipe de Erundina e Freire.
A gestão de Erundina e Freire ocorreu num momento crucial da história brasileira. O processo de redemocratização atingia sua consolidação do ponto de vista legal e institucional. Voltamos a ter garantidos os nossos direitos civis, as eleições passaram a ocorrer para escolha de todos os cargos representativos nos poderes legislativo e executivo. Entretanto, quando nos referimos a uma “ditadura civil-militar” nos reportamos à abrangência social desse movimento. O Brasil não foi vítima de um grupo isolado que impôs um governo ditatorial a toda sociedade. Pelo contrário, o golpe foi “apoiado em amplos movimentos sociais” (REIS, 2014, p. 7). Mais do que isso, a história brasileira aponta para um país de forte tradição autoritária, onde, não poucas vezes, os valores democráticos foram postos em xeque. O lastro social do autoritarismo está presente na sociedade brasileira desde longa data. Dessa forma, o fim do regime autoritário e mesmo o ressurgimento das garantias civis não significam que os valores autoritários existentes na sociedade brasileira desapareceram.
O próprio Paulo Freire elegeu como uma de suas principais preocupações teóricas a transformação do Brasil numa sociedade mais democrática. Ao caracterizar o país como uma sociedade “em trânsito”, Freire apontava para valores enraizados na sociedade brasileira que não permitiam nosso desenvolvimento e perpetuavam injustiças sociais.
Ao assumir a Secretaria Municipal de Educação, Freire encontrou vários condições que emperravam a educação na cidade, como o prédio que abrigava duas escolas, situação de
abandono em diversas unidades, como a falta de carteiras e bancos e ausência de outras condições de funcionamento. Também, deparou-se com valores culturais que, aliados aos problemas de infa-estrutura, contribuíam para que a educação desenvolvida nas escolas municipais estivesse longe dos valores democráticos. Assim, quando são apontados os princípios da gestão: “democratização do acesso”, “democratização da gestão”, “educação
de jovens e adultos trabalhadores”, “nova qualidade de ensino”, verifica-se o desejo de
mudar radicalmente a escola que existia até então, possibilitando que aqueles que não tinham acesso à educação passassem a tê-la e qualificando o ensino destinado, chamando a comunidade e os professores a participarem das decisões importantes e buscando garantir uma proposta curricular, que dialogasse com as classes populares, mas que não deveria, por conta disso, ser inferior.
Todas essas medidas tiveram impactos nas escolas. Entretanto, se por um lado havia terreno fértil a todas elas, por outro foram encontradas algumas resistências as mesmas. O lastro social de nossa tradição autoritária também estava presente nas escolas públicas, devido as suas estruturas antidemocráticas, mas também na mente e corações de muitos educadores que acreditavam numa educação pautada por valores conservadores.
A análise documental apontou para caminhos descritivos cuja ordem de importância era proveniente do equipe da secretaria. Por mais que uma análise atenta ultrapasse as questões apontadas pelos documentos da SME, não se deixa de apresentar e dialogar com a versão daqueles que estavam diretamente envolvidos com aquela gestão. Os autores desses documentos estavam situados em um determinado lugar, os órgãos centrais da secretaria de educação, e apresentam sua visão da política pública a partir desse ponto de vista. Nesse sentido, os relatos das educadoras entrevistadas dão luz às dinâmicas das políticas públicas implantadas, a partir do ponto de vista daquelas que as acompanhara de dentro do ambiente escolar. A busca pela construção de uma escola pública popular e democrática encontrou diversos embates e dilemas dentro das unidades escolares e que possivelmente não foram relatados pelos autores dos documentos oficiais. Ao escrever um material com intuito de publicizar algo, ou mesmo participar da formação docente, a equipe responsável deveria eleger aquilo que lhe era conveniente para atingir seus objetivos. Os discursos não são neutros. Os documentos produzidos pela SME articulavam-se com estratégias e práticas que visavam legitimar o projeto reformador que estava em curso. De modo que as ações desenvolvidas eram explicitadas e justificadas, a luz de uma teoria inspiradora, o pensamento de Paulo Freire. Dentro da perspectiva daquela gestão, um governo com concepções radicalmente opostas a outras gestões, as ações desenvolvidas estavam situadas num contexto
de luta, o que significa um cotidiano de “concorrência e competições cujos desafios enunciam
em termos de poder e dominação” (CHARTIER, 1988, p. 16). Ao lutar pela veiculação de
suas ideias, a gestão travava um embate importante, pela “representação” de seus valores, concepção pedagógica e de mundo.
Como lembra Chartier (1988), as apropriações do discurso da SME na escola pelos educadores tendem a se transformar em relação às ideias presentes nos documentos. Eles inclinam-se a fazer leituras, ou apropriações das teorias de forma que lhes são próprias. Isso não significa necessariamente uma deturpação, mas implica que as intenções daqueles que elaboram os documentos não foram contempladas da mesma forma como foram concebidas. Assim, as ideias apresentadas foram recriadas pelos professores, podendo muitas vezes terem sido interpretadas de forma bastante distante das intencionalidades declaradas nos documentos. Deste modo, os relatos das professoras entrevistadas nos mostram suas representações acerca da gestão de Freire e Erundina, podendo nos elucidar sobre elementos constituintes dos desafios enfrentados pela gestão. A capilaridade das ideias que nortearam as ações pode ser medida pela sua vigência nos dias de hoje, e, também, a partir da mentalidade demonstradas nos relatos colhidos.
4 AS ENTREVISTAS
Dedicamos esse capítulo a apresentação das questões relativas às entrevistas. Assim, desenvolvemos os aspectos teóricos acerca e decorrentes da escolha dos procedimentos metodológicos ligados à História Oral. Também, descrevemos o processo como ocorreram as entrevistas, e, em seguida, apresentamos às transcriações decorrentes das mesmas. No capítulo seguinte, apresentamos reflexões analíticas sobre a gestão de Freire e Erundina a partir dos relatos colhidos.
Nessa pesquisa, nos inspiramos nos procedimentos metodológicos do professor José Carlo Sebe Bom Meihy o qual é um dos precursores dos estudos de história oral no Brasil. Como afirma, juntamente com Holanda (2013), a “história oral é um conjunto de
procedimentos” (p. 15). Trata-se de várias ações articuladas desde a confecção do projeto da
pesquisa, à forma de escolha daqueles que serão entrevistados, a condução das entrevistas, o tratamento dado – a transcriação do relato, a devolutiva das entrevistas e a opção ou não pela análise das mesmas.
Ao preparar a pesquisa sobre as memórias acerca de Paulo Freire como gestor da SME, nos deparamos com a necessidade de desenvolvermos alguns conceitos antes de definirmos aqueles que seriam participariam da pesquisa, a condução das entrevistas e o tratamento dado ao resultado das mesmas. Assim, antes da escolha das educadoras que nos forneceram seus relatos, foi necessário refletir sobre conceitos conectados a noção de memória coletiva (HALBWACHS, 2006) como meio de constituição da identidade. Da mesma forma, a utilização dos procedimentos metodológicos relatados por Meihy (2013) nos apontou a necessidade de debruçarmos sobre as concepções que os envolvem.
Há várias formas de construir trabalhos de história oral, cujas as modalidades existentes são historia oral de vida, história oral temática, e Tradição Oral. Também existem várias opções metodológicas de condução das pesquisas de história oral. No âmbito desse trabalho em alguma forma se entrecruzam as duas primeiras modalidades mencionadas. Esta pesquisa define-se por uma história oral temática, apresentando, entretanto, aspectos de uma história oral de vida. Em outras palavras, pedimos para que as entrevistadas falassem de aspectos de sua vida, abordando inclusive sua infância, mas foi solicitado que dessem ênfase ao período em que Paulo Freire esteve na SME. Também optamos pelos procedimentos apontados por Meihy em relação a escolha das educadoras que participaram das entrevistas, no que se refere ao estabelecimento de uma comunidade de destino, colônia e redes.