Se permitir a navegação dentro do catálogo já era importante na época de Cutter, atualmente é inconcebível um catálogo de biblioteca que não cumpra esse objetivo de alguma forma. Os catálogos on-line têm toda a tecnologia a seu favor. Além disso, supõe-se que seus usuários também sejam usuários assíduos da World Wide Web, um ambiente que tem a navegação como base – o que aumenta mais ainda a demanda por um catálogo altamente navegável, ou seja, que faça da navegação um dos principais instrumentos de descoberta de recursos.
Para a nova Declaração de Princípios (IFLA, 2009a, p. 4), não é suficiente que um catálogo permita a navegação apenas por seus registros bibliográficos, como tem acontecido desde sempre. Talvez por causa do que está previsto no objetivo anterior, segundo o qual o usuário terá informações sobre o acesso eletrônico ao item, o catálogo deve ser, ele próprio, um ponto de acesso para o ambiente onde está inserido (a Web).
(2008), a intenção desta interpretação é ser suficientemente geral para acomodar várias formas de implementação em bases de dados. O modelo entidade-relacionamento, no entanto, parece ser o mais eficiente, uma vez que o FRBR e o FRAD foram concebidos com base nele.
Essa forma de navegação pode ser considerada herdeira da navegação simplificada, mencionada anteriormente neste trabalho, que usava referências cruzadas e notas para indicar relacionamentos e direcionar o usuário para outros pontos do catálogo. No entanto, a existência de entidades ligadas umas às outras em uma base de dados aumenta as possibilidades de navegação, que não fica circunscrita aos relacionamentos que o catalogador julgou serem importantes. Por exemplo, no caso de uma obra que tenha sido traduzida por determinada pessoa: essa pessoa, como entidade, estaria ligada à expressão (tradução) da obra pelo relacionamento “é tradutor de”. Se essa pessoa também fosse autora de obras presentes no acervo da biblioteca, ela estaria ligada a todas as suas obras pelo relacionamento
“é autor de”. Um usuário veria essa pessoa tanto como tradutora de obras quanto como autora de obras, podendo navegar por todas as entidades relacionadas – da pessoa para as obras que ela traduziu e dessas obras para os seus autores (pessoas), dessa mesma pessoa para as suas próprias obras, da expressão (tradução) para o tradutor (pessoa), etc. Isso parece óbvio e simples, mas muitos catálogos contemporâneos não permitem tal procedimento. Quando o usuário identifica um tradutor e quer descobrir se há obras dessa pessoa no acervo, ele deve recomeçar a busca, voltando ao formulário de pesquisa, onde irá inserir o nome da pessoa.
Atualmente, a navegação ainda é limitada, a despeito da existência de tecnologias capazes de resolver esse problema.
Só a organização da base de dados já tornará a navegação mais eficiente, mas quando os relacionamentos não forem tão evidentes, deve-se continuar a usar notas e referências, dessa vez com links para os registros bibliográficos e de autoridade relacionados. A Declaração de Princípios (IFLA, 2009a, p. 4) menciona a “[...] apresentação de relações [...]”, ou seja, os relacionamentos devem ser mostrados com clareza para o usuário. Se uma obra faz uma crítica de outra obra, entende-se que o relacionamento entre essas entidades deve ser indicado por algum texto ou outro recurso gráfico (“é uma crítica de”, “é uma análise de”, “é analisada em”, “Crítica Literária:”), ou a obra analisada pode aparecer como assunto da obra que a analisa. A estrutura que permitirá relacionar entidades deve ser combinada com uma apresentação eficaz dos elementos no registro. Segundo Dickey (2008, p. 27), “a
‘FRBRização’ do catálogo ocorrerá em dois segmentos: aperfeiçoar o catálogo já existente
pela inclusão de relacionamentos bibliográficos que venham à tona na fase de recuperação, e projetar ou adaptar uma nova interface e apresentação para refletir os relacionamentos.”
A navegação pelo catálogo não pode ser confundida com o browsing. A atividade de browsing é feita “[...] sem intenções claramente definidas.” (REITZ, 2007). O usuário quer encontrar algum material, mas não tem um autor ou obra ou até mesmo um assunto definido.
Ele apenas espera ser guiado pela ordem segundo a qual os documentos ou seus registros foram dispostos, por exemplo, de acordo com um sistema de classificação bibliográfica.
Quase sempre ocorre navegação no browsing, porque o leitor está livre para receber sugestões do sistema de organização, partindo de classes para subclasses e percorrendo grupos de documentos que compartilham características. Mas pode-se presumir que na maioria das vezes o usuário vai ao catálogo com uma pergunta definida, e a navegação o ajudará a encontrar uma resposta. É possível que a navegação tenha direcionado o usuário para um lugar ao qual ele não esperava chegar, e que, mesmo não sendo uma resposta exata para a sua pergunta, tenha sido útil de alguma forma. Ainda que o elemento acaso possa ser identificado, não houve browsing nesta última situação. São raros os catálogos on-line que permitem o browsing, um deles é o catálogo das bibliotecas da North Carolina State University (NCSU)31, que usa uma plataforma da empresa Endeca, responsável por desenvolver a loja virtual do Walmart. Esse catálogo permite percorrer “[...] a coleção inteira sem inserir um termo de busca.” (ANTELMAN; LYNEMA; PACE, 2006, p. 130). O usuário pode partir de grandes áreas do conhecimento, como faz diante das estantes da biblioteca, para sub-áreas e decidir pela escolha de um tipo de material (livros, bases de dados, periódicos, materiais de referência) até chegar a obras individuais. A navegação é, portanto, importante tanto para os usuários que fazem browsing quanto para os usuários que vão ao catálogo à procura de algo específico.
Se o alcance da primeira parte do objetivo navegacional está relativamente claro, o mesmo não pode ser dito sobre a segunda parte. A interpretação apresentada neste trabalho leva em conta a cultura de acesso on-line à informação, reconhecida também pelo quarto objetivo do catálogo, como foi observado anteriormente. Portanto, “navegar [...] para além [...]” (IFLA, 2009a, p. 4) é essencial para a obtenção de um documento disponível on-line, cujo registro havia sido recuperado como resultado de uma busca no catálogo. Ainda que o acesso on-line
31 Esse catálogo pode ser acessado em: <http://www.lib.ncsu.edu/>.
não se restrinja à World Wide Web – a Web é apenas uma parte da Internet –, trataremos aqui principalmente da relação entre registros do catálogo e documentos presentes na Web.
Ao explicar os protocolos que fazem a Web funcionar, seu criador, Tim Berners-Lee (2000), afirma que
O princípio fundamental por trás da Web era que, uma vez que alguém, em algum lugar, tenha tornado disponível um documento [...], isso deveria ser acessível (mediante autorização, é claro) para qualquer pessoa, com qualquer tipo de computador, em qualquer país. E deveria ser possível fazer uma referência – um link – para esse objeto, de modo que outros pudessem encontrá-lo.32 (BERNERS-LEE, 2000, p. 37, grifo nosso).
Os links para documentos da Web são possíveis graças a dois elementos básicos: o Uniform Resource Identifier (URI), o endereço do documento (o URL é uma aplicação do URI); e o Hypertext Transfer Protocol (HTTP), um protocolo que permite a transferência de informação entre um cliente e um servidor web pela Internet de modo a tornar essa informação acessível.
(BERNERS-LEE, 2000).
Os documentos da Web são, portanto, identificados pelos URLs, que devem ser indicados sempre que alguém quiser acessar os documentos diretamente pelo browser (programa navegador) ou fazer um link para eles. Quando o usuário seguir um link, no registro bibliográfico, para uma página existente fora do catálogo, o browser deve apresentar a página, depois de feita a negociação com o servidor web por meio do HTTP. As páginas web são construídas e apresentadas com o uso da Hypertext Markup Language (HTML).
A necessidade de se fazer menções a documentos da Web no catálogo tem crescido cada vez mais. Muitas obras que estão em domínio público são colocadas integralmente na Web, seja em edições feitas especialmente para esse fim ou como resultado dos projetos de digitalização em massa. Editoras também têm tornado disponíveis trechos de suas publicações. Todo esse
32 No original: “The fundamental principle behind the Web was that once someone somewhere made available a document [...], it should be accessible (subject to authorization, of course) by anyone, with any type of computer, in any country. And it should be possible to make a reference – a link – to that thing, so that others could find it.”
material pode ser útil para os usuários de bibliotecas, que vão a essas instituições em busca de obras reconhecidas, que muitos acreditam só existirem em formato impresso.
Podem-se imaginar situações em que o registro descreve uma manifestação exemplificada por itens nas estantes da biblioteca e por um item disponível na Web. Um exemplar dessa manifestação foi escaneado e colocado na Web sob a forma de um arquivo digital, já que ela representa um conteúdo em domínio público. Por considerar que o item digital consiste em mais uma opção para o usuário, o catalogador incluiu um link para ele no registro. O usuário vai do registro bibliográfico ao item digital, e do item digital a outros documentos da Web relacionados a ele. Outra situação seria o acesso, a partir do registro de um autor (registro da entidade pessoa, por exemplo), à biografia desse autor disponível em uma enciclopédia da Web. Desse artigo o usuário iria a outros artigos da mesma enciclopédia e/ou a outras páginas web.
Essas situações já são possíveis do ponto de vista tecnológico e algumas bibliotecas já lidam com elas, seja pela simples inclusão de um link, no registro bibliográfico, para itens equivalentes, como alternativa aos materiais impressos, ou pela descrição de documentos da Web considerados úteis para a comunidade atendida. Segundo Taylor e Joudrey (2009, p. 11),
“Muitas bibliotecas estão catalogando recursos da Internet que parecem importantes para os usuários do catálogo, e um URL em um registro do catálogo pode ser ligado [hyperlinked] à Web para que haja acesso imediato ao recurso.” Sowers (2009) relata a catalogação de aproximadamente mil artigos da Wikipedia e a inclusão dos respectivos registros no catálogo da State Library of Kansas. Cada registro contém uma mensagem que alerta para a natureza dinâmica e colaborativa da Wikipedia – qualquer pessoa pode fazer alterações nos artigos quando achar necessário. Segundo o autor, a decisão de catalogar esse tipo de recurso deve estar em harmonia com os interesses do grupo de usuários. (SOWERS, 2009). Além disso, o catalogador deve dar preferência a artigos que fazem referência a fontes externas válidas.
Diante disso, pode-se dizer que o catálogo aponta facilmente para documentos da Web. Mas fazer links de documentos da Web para registros do catálogo é muitas vezes impossível; em parte, porque os catálogos integram a chamada “Web profunda”. A maioria dos catálogos está na Web apenas como base de dados, e seus registros podem não ter URLs visíveis, ou podem ter URLs dinâmicas. Dessa forma, nem os usuários conseguem fazer links facilmente para
eles a partir de uma página web, nem os mecanismos de busca conseguem indexá-los.
(BOSTON, 2005). As URLs dinâmicas
[...] são geradas a partir de buscas específicas na base de dados de um site [no nosso caso, o catálogo]. A página é meramente um modelo [template] para apresentar os resultados da busca. A maioria do conteúdo vem da base de dados associada ao site. Em vez de alterar a informação no código HTML, os dados são alterados na base de dados.33 (WEBOPEDIA, 2009).
Os registros bibliográficos e de autoridade estão presos em bases de dados e, de certa forma, isolados do resto da Web, uma vez que não há outra forma de acessá-los senão fazendo uma busca a partir da interface do catálogo. Embora essa dependência seja um requisito para que o catálogo funcione da forma esperada, ela consiste em um obstáculo para a navegação.
Navegar pressupõe liberdade de movimento. Se um usuário é direcionado de um registro do catálogo para uma página web, ele deve ser livre para voltar ao registro e ao catálogo como um todo com facilidade e, de preferência, dentro da mesma janela do browser. Entende-se que a navegação pelo catálogo só estará completa quando houver essa liberdade.
Na navegação marítima, quem conduz a embarcação não pode impedir uma tempestade ou fazer com que o mar se acalme. Na navegação pelo catálogo, é possível não só permitir que o usuário chegue ao lugar previsto, como também tornar o trajeto seguro, sem obstáculos. No momento em que o catálogo se relaciona com recursos externos, é ainda mais importante tentar evitar que o usuário passe pelo que Markey (2007, p. 4) chama de “montanha-russa emocional”.
De acordo com Madison (2006, p. 10), muitos websites de bibliotecas universitárias fornecem links para vários serviços eletrônicos, como bases de dados de periódicos científicos, e os usuários, “[...] com simples cliques, acham-se em sites de conteúdo remoto, tais como Project Muse ou Science Direct, sem nenhuma forma clara de retornar.” A autora também aponta a disparidade existente entre a linguagem dos catálogos, cheia de jargões e altamente
33 “[...] are generated from specific queries to a site's database. The page is merely a template to display the results of the query. Most of the content comes from the database that is associated with the site. Instead of changing information in the HTML code, the data is changed in the database.”
padronizada, e a organização muitas vezes caótica dos conteúdos acessados pela Internet. Para Madison (2006, p. 10), são esses jargões biblioteconômicos que podem confundir o usuário, ainda que, para se referir ao catálogo, a autora use a expressão “[...] zonas de conforto do controle de autoridade [...]”.
Só haverá navegação, de fato, quando um usuário transitar entre registros do catálogo e páginas web sem perceber que eles possuem naturezas diferentes, ou seja, quando ficar claro que eles fazem parte de uma coisa só: a Web. Nesse caso, ignorar por um momento a distinção entre documento secundário e documento primário é importante, porque existe a expectativa de que o próprio catálogo sirva como fonte primária de informação. Além de ser um instrumento que informa sobre a existência de documentos em determinada coleção e permite a sua localização, o catálogo será, ele próprio, uma fonte – indivíduos e instituições poderão vir até ele com o único objetivo de obter dados bibliográficos e de autoridade, segundo informa o quarto objetivo (IFLA, 2009a, p. 4). Com isso, o catálogo torna-se útil não só para os usuários da biblioteca a qual ele está vinculado, mas também para qualquer usuário da Web que necessite dos dados contidos nos registros.
Os problemas levantados pelo cumprimento do objetivo navegacional são críticos para a própria manutenção ou, muitos dirão, retomada da liderança que a biblioteca sempre ocupou no universo de acesso à informação confiável. Para Calhoun (2006, p. 15),
As bibliotecas de pesquisa investem grandes quantias na infraestrutura de produção de seus catálogos locais, mas os mecanismos de busca são o lugar favorito dos acadêmicos e dos estudantes para começar uma busca. Cada vez mais usuários trocam catálogos por mecanismos de busca, mas o investimento das bibliotecas nos catálogos – e nas coleções que eles descrevem – não reflete a mudança na demanda dos usuários.34
34 “Research libraries invest huge sums in the infrastructure that produces their local catalogs, but search engines are students and scholars’ favorite place to begin a search. More users bypass catalogs for search engines, but research libraries’ investment in catalogs – and in the collections they describe – does not reflect the shift in user demand.”
Ao tomar como base a estratégia de revitalização de produtos do economista Theodore Levitt, Calhoun (2006, p. 10) acredita que, pelos menos a longo prazo, as bibliotecas deveriam raciocinar com a procura de “novos usos e novos usuários” para o catálogo.
O relatório intitulado On the Record, publicado em janeiro de 2008 por um Grupo de Trabalho da Library of Congress, reconhece “a Web como infraestutura” (THE LIBRARY OF CONGRESS WORKING GROUP ON THE FUTURE OF BIBLIOGRAPHIC CONTROL, p. 24). O relatório considera um problema o fato de os dados presentes nos catálogos não aparecerem em buscas feitas a partir dos mecanismos de busca da Web – “tais dados são, portanto, invisíveis para quem busca informação usando esses aplicativos da Web, mesmo que o catálogo de uma biblioteca possa estar, ele próprio, abertamente disponível para uso na Web.” (p. 24).
Se alguns estudos já trazem evidências de que os usuários vão primeiro ao Google quando precisam encontrar uma informação – ver Marcum (2006, p. 6) –, por que não abrir os registros bibliográficos para esses mecanismos de busca, de modo que os usuários também descubram por eles a existência de conteúdos úteis nas bibliotecas? Isso poderá influir até mesmo na valorização das bibliotecas, uma vez que os dados do catálogo e as coleções nele descritas terão utilidade para mais pessoas. As bibliotecas que possuem coleções de livros e manuscritos raros, por exemplo, verão um aumento da procura por esses itens únicos, uma vez que os pesquisadores certamente têm recorrido aos mecanismos de busca em suas investigações.
Com essa abertura, a navegação ocorrerá em dois sentidos, do catálogo para páginas e outros documentos da Web – um requisito para o cumprimento do quinto objetivo (IFLA, 2009a, p.
4) segundo esta interpretação – e das páginas web para o catálogo, seja como resultado de uma busca a partir dos mecanismos de busca, ou por um link em uma página qualquer.
Uma iniciativa pioneira na integração de registros bibliográficos à World Wide Web foi tomada pela Biblioteca Nacional da Austrália, que em 2002 passou a utilizar um método criado especialmente para permitir que seus registros fossem indexados por mecanismos de busca. Segundo Boston (2005), o número de visitas ao website da Biblioteca, que dá acesso aos catálogos, cresceu 130% entre julho de 2002 e maio de 2004; e o número de visitas às páginas do catálogo de imagens digitais cresceu 370% entre julho de 2002 e dezembro de
2004. Atualmente, muitos registros presentes no catálogo principal35 dessa biblioteca oferecem um link para a página do Google Books correspondente ao documento descrito.
Cada registro também pode ser enviado por e-mail, e adicionado como página diretamente a um perfil do serviço de bookmarking Delicious, típico da chamada Web 2.0.
No caso das bibliotecas universitárias ou acadêmicas, também seria oportuna a integração dos catálogos com coleções de periódicos eletrônicos e imagens digitais, ainda que o acesso a esses conteúdos muitas vezes seja pago e, portanto, suspenso quando o contrato não é renovado. De acordo com Madison (2006, p. 12), é crescente “[...] o interesse em criar links úteis entre imagens do trabalho criativo de um determinado artista e as obras impressas convencionais (encontradas em coleções de livros e periódicos) sobre esse artista.” A autora sugere uma integração que deve ser vista com ainda mais atenção: entre catálogos e repositórios institucionais.
De fato, deveria ser permitido a um usuário navegar diretamente dos resultados de uma busca feita no catálogo ao conteúdo de um repositório ligado de alguma forma à instituição. Em vez de lidar separadamente com o repositório e com o catálogo, o usuário optaria por pesquisar nos dois a partir de uma mesma interface de busca. O repositório continuaria como uma base de dados separada, com suas características próprias, podendo ser acessado diretamente. E ficaria a critério da biblioteca criar registros especialmente para esse material, integrando-os aos registros bibliográficos e de autoridade convencionais já presentes no catálogo, ou aproveitar os metadados típicos desses recursos. A ideia aqui não é transformar o repositório e o catálogo em um só instrumento, até porque suas funções são diferentes, mas permitir que os conteúdos do repositório também possam ser acessados a partir do catálogo.
A abertura do catálogo para a Web, ou seja, a adoção completa da Web como infraestrutura permitirá que ele se beneficie diretamente com o desenvolvimento da própria rede, em vez de depender apenas do aperfeiçoamento das tecnologias de bases de dados para se tornar mais eficiente. Muitos autores têm ressaltado os benefícios das tecnologias da chamada Web Semântica para a catalogação. Conhecida também como “Web dos dados”, já que defende ligações entre dados (não apenas entre documentos como acontece normalmente hoje em dia), a Web Semântica conta com o processamento inteligente da informação por máquinas.
35 O catálogo principal da Biblioteca Nacional da Austrália pode ser acessado em: <http://catalogue.nla.gov.au/>.
Segundo Coyle (2009), “os três elementos chave” para que os computadores compreendam aquilo que eles leem são: identidades, relacionamentos e regras. É preciso definir e identificar cada relacionamento e cada conceito. Para isso serão utilizadas ontologias ou vocabulários e URIs. A implementação da Web Semântica envolve o uso de uma série de padrões. Um desses padrões é o Resource Description Framework (RDF). De forma simplificada, Berners-Lee (2000) afirma que o RDF é para os dados o que a HTML é para os documentos da Web, um meio para a representação e o compartilhamento.
A Web Semântica é definida por uma infraestrutura composta de camadas. Cada camada abriga um padrão ou um conjunto de padrões ou regras. Na área de catalogação, as pesquisas têm se concentrado sobretudo naquelas camadas que Ramalho, Vidotti e Fujita (2007) chamam de “Camada Sintática” e “Camada Semântica”, relacionadas à descrição dos recursos e dos relacionamentos existentes entre eles. Uma atenção maior a essas duas camadas tem sido dada pela maioria dos profissionais envolvidos no desenvolvimento de aplicativos, como informa Gradmann (2005, p. 67), que associa essas camadas, respectivamente à “[...]
modelagem sintática baseada em RDF/rdfschema [...]” e à “[...] construção de vocabulários [...]”. Na literatura de catalogação, são cada vez mais recorrentes os termos Resource Description Framework (RDF), Simple Knowledge Organization System (SKOS), Web Ontology Language (OWL) e identificadores [identifiers], todos ligados ao desenvolvimento da Web Semântica.
Gradmann (2005) sugere que as entidades e os relacionamentos do FRBR sejam expressos em RDF Schema (RDFS). Segundo Yee (2009, p. 56), “RDFS é uma linguagem extensível de representação do conhecimento que fornece elementos básicos para a descrição de ontologias, também conhecidas como vocabulários de RDF.” O RDFS expressa recursos em termos de Classe, Relacionamento e Propriedade, sendo a primeira equivalente, no FRBR, a Entidade, a segunda equivalente a Relacionamento, e a última equivalente a Atributo. (YEE, 2009, p. 64).
Gradmann (2005) enumera uma série de benefícios que a implementação de um modelo
“rdfs:frbr” traria, tirando os catálogos da “Web profunda” e culminando na criação de um modelo global integrado para a representação de dados bibliográficos, que livraria as bibliotecas da submissão às tecnologias dos sistemas de automação.
Para Coyle (2009, p. 1), as ligações entre dados defendidas pela Web Semântica permitirão que sejam feitas “[...] conexões entre citações e itens das bibliotecas [...]” e entre os dados
presentes no catálogo e “[...] informações adicionais, como páginas web de autores, com o uso de algoritmos e buscas em vez da codificação manual dos dados.” Isso quer dizer que a navegação para além do catálogo será reforçada e que os links para recursos externos se formarão automaticamente, sem a intervenção do catalogador.
O cumprimento do objetivo navegacional chama a atenção, portanto, para alguns problemas estruturais do catálogo, que devem ser analisados em conjunto com profissionais das áreas de ciência da computação e tecnologia da informação. Cabe aos próprios bibliotecários buscarem conhecimentos dessas áreas que sejam relevantes para a proposição de soluções. Uma vez que a reestruturação do catálogo de biblioteca seja possível, apoiada em tecnologias adequadas e baseada em objetivos, devem ser estabelecidos os meios descritivos que mantenham ou aperfeiçoem a leitura e o uso dos registros bibliográficos e de autoridade pelos usuários. Não será de grande utilidade um catálogo que se comunique com recursos externos e onde as entidades estejam altamente relacionadas, mas cujos dados sejam difíceis de interpretar e, portanto, não facilitem a obtenção de determinado item.
Os principais instrumentos da catalogação descritiva, os códigos, devem se adaptar a essas novas formas de acesso à informação. Não é suficiente apenas permitir a descrição de novos recursos e suportes, como tem acontecido com o AACR2, que ao longo de sua história tem sido atualizado sobretudo com base nessas demandas. Os modelos conceituais oferecem possibilidades de apresentar os dados de forma mais clara e de informar ao usuário que cada entidade tem sua própria riqueza no catálogo, servindo de veículo para a descoberta de outras entidades. O FRBR alerta para a importância da descrição de relacionamentos bibliográficos, e os códigos que incorporarem os conceitos desse modelo deverão se preocupar com o fornecimento de informações que denotem os relacionamentos. Um desses códigos é aquele que pretende ser o substituto do AACR2, intitulado Resource Description and Access (RDA).
Falaremos sobre o RDA e seu papel quanto ao cumprimento dos “novos” objetivos do catálogo no próximo tópico deste trabalho.
Além de problemas estruturais e descritivos, o objetivo navegacional em sua segunda parte levanta um problema conceitual. O catálogo de biblioteca se define por suas funções.
Portanto, quando as funções são alteradas ou quando surgem novas funções, o catálogo precisa passar por uma redefinição. O conceito de catálogo tem estado sempre atrelado à ideia de posse e controle (WILSON, 1983, 1985), talvez porque o catálogo também funcione como
inventário das coleções. Os próprios objetivos do catálogo refletem essa noção ao usar verbos como “ter” e “conter”. Ao se depararem com a necessidade de descrever documentos da Web, por exemplo, muitos catalogadores argumentarão que esses recursos não podem ser incluídos no catálogo, porque não fazem parte das coleções da biblioteca ou das bibliotecas (no caso dos catálogos coletivos). Um catálogo que descreve tanto os itens de suas coleções quanto páginas web poderia ser chamado de catálogo?
No artigo The Catalog as Access Mechanism: Background and Concepts, Wilson (1983, 1985, p. 258) propõe um catálogo “[...] dividido em zonas de acessibilidade [...]”, no qual um usuário iria gradativamente do que é considerado local para o que é considerado remoto. Nos exemplos dados pelo autor, remoto é aquilo que será obtido por empréstimo interbibliotecário.
Atualmente, na classe do acesso “remoto” caberiam perfeitamente os documentos da Web.
Wilson (1983, 1985, p. 258, grifo nosso) chega a fazer a seguinte pergunta: “Por que não estendê-lo [o catálogo] para cobrir coisas disponíveis por meio da biblioteca, quer elas sejam, quer não, propriedades da biblioteca?”.
Fazemos aqui uma pergunta parecida: por que não estender o catálogo para cobrir todas as
“coisas” que a instituição considera úteis para o usuário, quer elas sejam acessadas dentro e por meio da biblioteca, quer estejam disponíveis livremente na Web?