CAPÍTULO 1. SENTENÇAS COPULARES E SMALL CLAUSES LIVRES
1.6. AS CONSTRUÇÕES COPULARES NO PORTUGUÊS BRASILEIRO
1.6.3. Uma nota sobre a perífrase estar com no PB
A nosso ver, cumpre fazer uma pequena observação aqui sobre as construções apontadas em (46c), nomeadamente, construções possessivas com a perífrase “está + com”. Como amplamente discutido na literatura, desde Benveniste (1976), pelo menos, tem-se difundida a idéia de que, grosso modo, um verbo possessivo seria um verbo cópula mais a adição de uma preposição abstrata42. Naquela época, o referido autor tratava do verbo possessivo avoir e do verbo cópula être do francês, comparando com outras línguas, como o turco, o mongol clássico e o curdo, línguas cujo sistema de cópulas verbais permite que estes
(i) a. It was the Minimalist Program what I bought. Clivada
b. What I bought was the Minimalist Program. Pseudo-Clivada
Por este motivo, clivadas e pseudo-clivadas sempre foram analisadas em par com sentenças copulares (cf. HEGGIE, 1998; HEYKOCK & KROCH, 1999). Porém, há línguas em que não se tem a formação de constituintes frasais em forma de clivadas ou pseudo-clivadas, como é o caso do russo, por exemplo. De acordo com Junghanns (1997, p. 187) apud Pereltsvaig (2001, p. 11), “Russian does not have a true cleft construction”.
42 Na verdade, para Benveniste, o “ter nada mais é que um ser-de invertido” (1976, p. 215). Sobre o ser + de no
verbos, na ausência de um verbo possessivo em seu inventário lingüístico, sejam usados também na acepção de posse, como podemos ver nos dados abaixo:
(50) a. bir ev-im var. Turco uma casa-minha é
“Tenho uma casa.”
b. nadur morin buy. Mongol clássico
de mim um cavalo é
“Tenho um cavalo.”
c. min hespek heye. Curdo
de mim um cavalo é “Tenho um cavalo.”
(BENVENISTE, 1976, pp. 213-214) Atualmente, já na Lingüística gerativista, alguns pesquisadores (cf. LYONS, 1967; FREEZE, 1992; KAYNE, 1993; HORNSTEIN, ROSEN & URIAGEREKA, 2002; entre outros) tomaram a idéia fecundada em Benveniste (op. cit.) e estabeleceram que verbos possessivos e copulativos43 parecem advir de uma mesma base sintática. Para Kayne (1993), por exemplo, verbos como o have, do inglês, e o avoir, do francês, são derivados da
incorporação (cf. BAKER, 1988) de uma preposição abstrata às cópulas be e être,
respectivamente. Sendo assim, uma sentença como (51) é derivada passo a passo, como exemplificado em (52)44:
(51) John has a sister.
“O João tem uma irmã.”
(52) a. …BE [DP Spec D/P0 [DPPOSS [AGR0 QP/ NP]]] →
Movimento do DPPOSS para [Spec, DP]:
b. …BE [DP D/P0 [ [AGR0 QP/ NP]]] →
Movimento do DPPOSS para [Spec, BE]:
c. BE [DP D/P0 [ ei [AGR0 QP/ NP]]] →
Incorporação de D/P0 à cópula BE:
43 Além dos existenciais, que não discutiremos aqui.
d. DPPOSSi +BE [DP ei [ ei [AGR0 QP/ NP]]]
have
(KAYNE, 1993, p. 7, exs. (7)-(10)) De acordo com a proposta de Kayne (1993), o verbo copular (BE, em (52)) seleciona um DP complemento, cujo núcleo seleciona uma projeção AgrP45, onde a relação temática entre John e a sister é estabelecida, como mostra (52a). A tarefa de definir se o DPPOSS
permanece in situ ou é alçado cabe à atribuição de Caso. Kayne pontua que D0, no inglês, é uma categoria de natureza preposicional/complementizadora nula (representado em (52) por “D/P0”), para cujo Spec um DP se move. Para o referido autor, tanto a posição de especificador de AgrP quanto a posição de especificador de DP não podem licenciar um DP, sendo assim, o DPPOSS sai de [Spec, AgrP] para [Spec, DP] à procura de Caso (cf. (52b)), não
encontrando, ele é alçado para [Spec, BE], onde, finalmente, recebe Caso e “congela” naquela posição (cf. (52c)). A estrutura resultante até (52c) nos oferece a derivação não desejada *John is a sister. Para formar a derivação desejada (51), Kayne lança mão da proposta de Freeze (1992), em que D/P0 é incorporado a BE, tendo o conjunto [D/P0+BE] o Spell Out do verbo possessivo have, como nos mostra (52d).
É interessante destacar que, como o próprio Kayne (1993) adverte, se a derivação parasse em (52c) e a incorporação de D/P0 a BE não fosse realizada, ela não seria bem formada, haja vista [Spec, DP] ser uma posição A’46, seguindo a idéia de Szabolcsi (1981, 1983) de que DP é similar a CP, e, sendo uma posição A’, o movimento de [Spec, DP] para [Spec, BE] é ilícito, pois, segundo o autor, é uma violação de “movimento impróprio”. Sendo assim, Kayne sugere que (52c) é salvo pela incorporação de D/P0 a BE: [Spec, DP] se torna, com um resultado da incorporação, um Spec derivado de D/P0+BE e, assim, conta como uma posição-A, seguindo o espírito do Government Transparency Corollary, proposto por Baker (1988).
Seguindo a linha desenvolvida até aqui no que se refere aos verbos possessivos serem derivados a partir da incorporação de uma preposição abstrata num verbo copular, Avelar (2004, 2006b, 2007) argumenta a favor desta hipótese para o verbo possessivo ter, no PB. O referido autor salienta que a idéia dessa incorporação parece mais clara, na medida em que,
45 Para uma estrutura mais “enxuta”, Kayne (1993) não esmiúça e, assim, não exibe, em (52), a projeção máxima
AgrP, apenas seu núcleo, nomeadamente, Agr. Retiramos as estruturas exibidas em (52) tal qual exemplificadas no texto original.
46 Contra essa posição, ver Haegeman (2004) e Grohmann (2003), para quem o DP seria, na verdade, um TP se
nesta língua, diferentemente do turco, mongol clássico e curdo, podemos encontrar estruturas possessivas com verbos copulares mais uma preposição visivelmente, nomeadamente estar +
com e, ainda, estruturas possessivas com um verbo possessivo, nomeadamente ter, sendo que
estas estruturas são geralmente associadas à idéia de posse permanente, ao passo que aquelas são associadas à idéia de posse transitória:
(53) a. O João tem dinheiro. b. O João ‘tá com dinheiro. c. A Maria tem um carro. d. A Maria ‘tá com um carro.
Em (53a), a idéia expressada pela sentença nucleada pelo verbo ter, normalmente, é a de que o João é rico, ou, pelo menos, tem bastante dinheiro na visão do enunciador, já a sentença (53b) contendo a perífrase “estar +com” permite, normalmente, a leitura de que o João tem dinheiro consigo, naquele exato momento, mas que, não necessariamente, ele tenha bastante dinheiro. Algo parecido ocorre com as outras duas sentenças restantes: em (53c), a idéia expressa é a de que a Maria possui um carro, uma posse necessariamente duradoura, já em (53d), a Maria não precisa, necessariamente, ser a dona do carro, sendo assim, ela pode estar com um carro emprestado no momento em que tal sentença foi proferida.
A nosso ver, a idéia de “posse permanente” para o verbo ter versus “posse transitória” para a perífrase estar + com encontra respaldo, principalmente, se levarmos em consideração dados em que uma relação de posse inalienável entra em jogo, como vemos a seguir47:
(54) a. O Pedro tem olhos azuis. (=Ele nasceu com olhos azuis)
b. O Pedro ‘tá com olhos azuis. (=Ele está usando lentes de contato de cor azul) c. A Carol tem cabelos castanhos. (=Ela nasceu com os cabelos castanhos) d. A Carol ‘tá com cabelos castanhos. (=Ela pintou seus cabelos)
Avelar (op. cit.), então, reinterpreta a idéia de (Freeze, 1992) e Kayne (1993), valendo- se do quadro teórico da Morfologia Distribuída (cf. HALLE & MARANTZ, 1993; HARLEY & NOYER, 1999; BOBALJIK, 1995) e assume que, para se obter o verbo possessivo ter
47 É claro que há casos em que não se pode obter um paralelo entre o verbo ter e a perífrase estar + com, bem
como há casos em que a idéia de “posse permanente” vs. “posse transitória” não é encontrada. Não nos deteremos a esses casos aqui, remetemos o leitor interessado a Avelar (2004), que discute com detalhes tais fatos.
numa determinada derivação, tem de haver um morfema preposicional P amalgamado com a versão copular/estativa de v, nomeadamente vcop. Se tal morfema não for amalgamado, tanto P
quanto vcop recebem a matriz fonológica de “com” e “estar”, respectivamente. As estruturas
vão ser fundidas ou não-fundidas dependendo da diferença aspectual: a posse é durativa com
ter e transitória com estar + com, como mostrado em (55) abaixo. Em ambas as derivações, o
sujeito é concatenado em [Spec, PP], recebendo o papel de possuidor, sendo depois movido para [Spec, TP] para satisfazer requerimentos de concordância-EPP:
(55) a. O Pedro tem dinheiro. b. O Pedro está com dinheiro.
a’. [TP O Pedrok [T’ T+vcopi+Pf = tem] [vP ti [PP tk [P’ tf [dinheiro]]]]]
b’. [TP O Pedrok [T’ T+vcopi = está] [vP ti [PP tk [P’ P = com [dinheiro]]]]]
Desse modo, o PB comporta, pelos menos, dois modos de expressar a idéia de posse: um deles seria a exibição de um verbo possessivo, como ter, já o outro modo seria a junção visível de um verbo copular mais uma preposição, a perífrase “estar + com”.