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Uma nova Geografia e a formação das redes

VI. A fluidez das redes no Circuito de Grãos no Piauí

6.1 Uma nova Geografia e a formação das redes

A Geografia, desde a sua consolidação como uma ciência, passa a ter no espaço geográfico seu objeto de estudo, e é nesse espaço que as diversas organizações sociais irão, ao longo dos tempos, consolidando suas formas e maneiras de dominação de uma determinada porção da superfície terrestre.

Nesse contexto, compreender a organização do espaço geográfico é fator primordial para avaliar, em diversos momentos da história da sociedade, como as comunidades se articulam na elaboração, recriação e manutenção dos locais necessários para a sua reprodução econômica e social.

Por conseguinte, deve-se considerar que as atividades realizadas pelos grupos sociais tendem a ter um desenvolvimento que chega a firmar como as sociedades são capazes de produzir porção do espaço que materializa seu meio de sobrevivência, junto aos bens de produções que marcam a história de várias comunidades. Exemplo disso têm os povos egípcios, os quais se localizavam no Nordeste do continente africano e que distinguiram na história sua forma de utilização da terra, visando sobreviver conforme as condições físicas locais.

O espaço geográfico passa a ser visto, por meio dessa perspectiva, como o reprodutor das construções entre as ações sociais junto ao meio físico que, segundo Corrêa (2000, p. 26), este “é concebido como locus da reprodução das relações sociais de produção”, e que serve de base para a análise constante na Geografia.

Santos (2008, p. 28) considera a importância do espaço como:

[...] um conjunto indissociável, de que participam, de um lado certo arranjo de objetos geográficos, naturais e sociais, e , de outro, a vida que preenche e os anima, [...] a sociedade em movimento. [...] o

espaço passa a ser, um conjunto de formas contendo, cada qual, frações de um momento histórico.

É considerável destacar que a busca por novos elementos de reprodução espacial é o principal meio que mantém a estrutura de funcionamento do espaço geográfico. Porém, quando se avalia a configuração hodierna das formas de organização dos espaços no mundo, a utilização dos meios de produção, sobretudo, ligada à logística dos espaços econômicos, é de essencial importância para compreender a dinâmica da Geografia como uma ciência social.

Ademais, deve-se levar em consideração que o aprimoramento da ciência e da técnica foi fundamental para determinar os avanços dos sistemas produtivos globais e, desse modo, consolidar-se a partir do desenvolvimento e aprimoramento dos meios de transportes e comunicações, indispensáveis para fazer o elo de expansão dos sistemas produtivos.

No entanto, para avaliar a importância das redes na dinâmica espacial, faz- se necessário compreender algumas das teorias das localidades centrais, as quais direcionam o entendimento das diversas organizações do espaço social. Dentre elas, destacam-se a de Von Thunen (1826) e a de Christaller (1966). A primeira busca organizar as diferentes atividades econômicas, com base na localização dos sistemas agropecuários, enquanto que a segunda tem como relação principal a organização da população nos centros urbanos.

Ou seja, na primeira teoria, a produção agrícola vai determinar o processo de organização do espaço, sendo que cada etapa do sistema produtivo vai estar a uma distância diferente do centro urbano. Nesse sentido, o esquema (FIGURA 47) a seguir reflete a teoria de Von Thunen, onde o urbano e o rural são bem definidos.

Figura 47 – Modelo da Teoria da Localização Agrícola de Von Thünen (1826) Fonte: Alves; Maia (2009, p.52)

Para essa teoria, os círculos, quanto mais próximos do centro urbano (FIGURA 47), mais representam áreas que têm a maior renda e também onde se localizam as agriculturas perecíveis. Quanto maior a distância, menor renda e cultivo de produtos que exigem maior dependência intraestrutural. No entanto, para Thunen, todas as áreas possuem condições naturais semelhantes, o que possibilita a distribuição, numa escala maior, de outros produtos que tragam rentabilidade econômica.

Não se pode deixar de observar que, para essa teoria, o aumento populacional na área urbana gera consequentemente um aumento do diâmetro do circulo que delimita a zona urbana, podendo, assim, haver uma sobreposição de círculos. Nesse caso, os espaços destinados para a produção agrícola mais próximos da zona urbana são integrados à cidade e passam a dar lugar a áreas totalmente residenciais.

Com o advento da Revolução Industrial pelo mundo, as atividades econômicas, principalmente no século XX, fizeram com que a maior parte das atividades econômicas se localize na cidade, dando condição para o crescimento do raio horizontal das zonas urbanas, valorizando as áreas tidas como rurais que estão mais próximas do centro urbano.

Ademais, o rural e o urbano passam a ser analisados como complementares e com forte interdependência entre eles. É nessa condição que a Teoria de Von Thunen começa a ser questionada, dando lugar para outras Teorias que surgiram e tiveram na de

Thunen a base de análise para a formação dos espaços geográficos, que tem na organização da agricultura a base essencial que leva ao desenvolvimento de uma região.

No que se refere à segunda teoria, desenvolvida por Christaller (1966), a dinamização dos lugares centrais é de fundamental importância para entender a dependência dos lugares perante outro. Para essa teoria, a centralização de determinadas atividades são essenciais para manter o elo entre vários núcleos urbanos (FIGURA 48).

Figura 48 – Teoria dos lugares centrais de Christaller (1966) Fonte: Adaptação de Alves (2009, p.55).

De acordo com a Figura 48, o núcleo urbano que representará a centralidade contará com o maior desenvolvimento econômico, sobretudo, com implantação de comércio, indústria e melhores investimentos infraestruturais, levando, assim, a dominar os demais núcleos que estejam na sua proximidade, por contar com maiores condições de dinamicidade espacial.

Para Christaller (1966), o processo de hierarquização urbana é a melhor forma de se compreender a dominação de algumas cidades em diferentes regiões. Outrossim, considera que a área rural, por ser pouco habitada, não possui o mesmo dinamismo que a urbana, ficando, assim, sujeita às pressões exercidas pela cidade e/ou não se articulando com outras também rurais.

É relevante destacar que, com a expansão do modo de produção capitalista, todos os espaços habitados e que desenvolvem qualquer tipo de atividade econômica

estão passíveis de integração, desde que passem a obedecer à lógica do capital vigente. A partir desse contexto, o campo é receptor de todas as decisões tomadas na cidade e o principal mantedor de mão de obra para as zonas urbanas, estreitando reciprocamente a distância entre eles, a partir das relações trabalhistas que são vigentes no mundo capitalista.

Para Corrêa (2000, p. 18), a avaliação que se faz para essa divisão espacial é que:

Com o capitalismo verifica-se a ampliação em escala até então nunca vista da divisão social e territorial do trabalho, a perda dos meios de produção de parcela considerável dos que detinham estes meios, gerou o aumento do trabalho assalariado.

É, com base nestes conjuntos de relações, que a Teoria de Christaller vai começando a dar lugar para outras formas de se ver e pensar o espaço socialmente organizado, onde a criação de um mercado capitalista nas zonas urbanas é capaz de aproximar regiões, até então tidas como áreas diversas e completamente opostas.

Com base no que foi colocado, é a partir dessa integração espacial que as redes de localidades centrais vão começando a se desenvolver e proporcionalmente configurando os primeiros territórios de dominação que algumas cidades passam a ter em relação a outras, polarizando completamente todos os serviços necessários para a expansão do sistema produtivo.

Considerando que o aperfeiçoamento dos meios de transportes e o melhoramento dos meios de comunicação, fizeram parte desse novo momento de pensar as redes geográficas como principais articuladoras do processo produtivo e, sobretudo, no processo de consolidação e ampliação do modo de produção capitalista, cada vez mais seletivo nos espaços que passam a integrar a lógica do mercado vigente.

A partir dessa configuração vai se formando no mundo verdadeiros territórios de aglomerações econômicas, sociais e funcionais, que aparecem como espaços geográficos fortemente articulados que serão as bases para as discussões geográficas em diferentes momentos da história da humanidade.

Nesse sentido, é relevante considerar que a formação desses territórios se faz na medida em que eles constituem os elos entre diferentes partes do país e do mundo, promovendo uma interconexão dos meios técnicos e informacionais.