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2.4 República Socialista (1959-atualidade)

2.4.1 Uma nova realidade (1959-1990)

O ano 1959 marcou o início de um novo sistema político completamente diferente em Cuba. A sociedade rural cubana, em geral, experimentou uma grande transformação no seu modo de vida em um curto período de tempo desde os primeiros meses de 1959. O novo governo mostrou um especial interesse na CZ, visando as potencialidades ambientais e econômicas do território para o seu desenvolvimento.

De modo geral, no nível nacional, a grande propriedade em mãos da elite agrária foi destituída e os latifúndios se converteram em grandes unidades econômicas do Estado (MOSQUERA et al., 2004). Esta mudança na estrutura agrária provocou a modificação da estrutura de propriedade e uso da terra, passando a ser a maior parte da terra propriedade de um único dono, o Estado. Este deu início a um processo centralizado de organização e planejamento da atividade agrícola no país todo e se encarregou de melhorar a distribuição dos produtos e a qualidade de vida do povo rural, eliminando as relações de exploração excludentes e o desamparo (ESPINA, 2008).

Assim, no modelo econômico prevalecente nesta etapa predominava a propriedade estatal de maneira quase absoluta, o que determinava uma estrutura agrária muito concentrada e com muito pouco espaço para o trabalho no setor privado, a utilização de tecnologias avançadas em poucos setores produtivos, a política de emprego orientada a garantir a plena ocupação e muito pouca diferenciação social pelas fontes de renda (KANEPA & NÚÑEZ, 2011).

Após 1959, as comunidades rurais da Ciénaga receberam especial atenção, que até então havia sido negada. O governo priorizou a aplicação de medidas para elevar o nível e as condições de vida dos cenagueros. Assim, se construíram novos caminhos e estradas a fim de melhorar o acesso e a comunicação e possibilitar as condições necessárias para outras obras sociais. Em um período de 5 anos se concluiu a alfabetização dos cenagueros, se construíram 18 escolas e vários postos médicos e se fez uma campanha de vacinação (LABRADA et al., 2002). O nível de vida da população rural do território se elevou notavelmente, aumentando também o poder aquisitivo em até 300% (JIMÉNEZ DE LA CAL, 1995). Em pouco tempo, a realidade social do cenaguero foi mudada radicalmente. Contudo, a maneira paternalista como o Estado encaminhou estas mudanças prejudicou a capacidade de uma organização endógena das comunidades.

Além da produção de madeira e carvão, incorporaram-se e incentivaram-se outras atividades econômicas que ajudaram no desenvolvimento socioeconômico do território como: o turismo, a pesca e principalmente, a atividade florestal. A partir de 1959, teve início a organização planejada e centralizada da exploração florestal local. Com a construção de vias de acesso que ligavam as comunidades dentro da CZ com os municípios circundantes e com nova infraestrutura, o acesso ao recurso florestal dentro da Ciénaga foi facilitado. Segundo a fala de um morador local, que trabalhou por mais de 30 anos para a Empresa Florestal, foi a partir de 1959 que a exploração florestal em CZ intensificou-se:

En el año 59 se empezaron a desarrollar las granjas avícolas, las cochiqueras, y eso era desguazando y desbaratando los montes (…) Aquí en la granja Soplillar habían 200, 300 trabajadores cortando madera rolliza y madera en bolo y entonces poco a poco fuimos destruyendo los bosques, sin darnos cuenta de lo que estábamos haciendo. Aquí hay lugares que tienen nombre, por ejemplo, el Macahual, porque allí habían muchos árboles q se llamaban así, macahua, y empezamos a explotar eso sin saber el daño que le estábamos haciendo al bosque. Imagínate tú, 10 o 12 carros tirando madera en bolo pa llá fuera, pa Australia, un aserrío que tenía dos turnos, DOS TURNOS, día y noche, arreando madera pa ahí (Los Hondones, 2015).

Por outro lado, em 1961 iniciaram-se atividades de reflorestamento com métodos silviculturais para melhorar o estado das florestas, bem impactadas devido ao desmatamento extremo produzido na etapa anterior. Nesta época, a política florestal, que estimulava estes grandes planos de reflorestamento, o desenvolvimento de infraestrutura para a exploração florestal, o melhoramento das condições de vida dos trabalhadores e a preparação de um pessoal técnico especializado, não foi respaldada por uma legislação florestal básica, nem por um regime de sanções administrativas (GAREA, 2001).

Em 1975 a Empresa Florestal Integral (EFI) de CZ foi criada, constituindo a principal fonte de emprego na área. Esta entidade estatal assumiu a responsabilidade do fomento e aproveitamento das florestas e da indústria florestal, assim como o controle do patrimônio florestal em nome do Estado. Embora esta empresa disponibilizasse pessoal para exercer o controle e a administração de um vasto território como a Ciénaga, os papeis exercidos pela empresa conspiraram contra o exercício de um controle estatal efetivo do patrimônio que administrava, pois possuia um caráter dual (GAREA, 2005).

Manteve-se como atividade econômica fundamental a florestal, sem planos de manejo até 1981, quando foi realizado o primeiro plano de ordenação de florestas em colaboração com a URSS. Este plano foi atualizado em 1989, mas sem resultados científicos na área que apoiaram o manejo recomendado. Na década de 80, a atividade florestal atingiu 88,6% da

produção bruta da área. Nestes anos se incrementou a produção florestal mediante a via extensiva, provocando impactos negativos no sistema ecológico (LABRADA et al., 2002). As tecnologias para estas atividades econômicas foram importadas da União Soviética, cujos custos eram superiores à média mundial, o que aumentou os custos de produção e a aceleração das importações dos bens intermediários, as peças de reposição e os combustíveis (GONZÁLEZ & PÉREZ, 2010).

De maneira geral, segundo Garea (2005) a política florestal do novo governo revolucionário se caracterizou desde o próprio ano 1959 pelos grandes investimentos em extensos planos de reflorestamento, a introdução do desenvolvimento tecnológico na silvicultura, a qualificação de técnicos e trabalhadores florestais e o melhoramento das condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e camponeses relacionados com a atividade florestal. Porém, careceu da aplicação de uma legislação florestal que garantisse a proteção e conservação das florestas e sua exploração racional. O crescimento da área florestal, até a década dos anos 90, foi proporcionalmente inferior ao valor dos recursos investidos para este fim, mas ainda assim se conseguiu elevar em 6% a área de florestas16 ao nível nacional, processo que foi aumentando nas décadas posteriores (Figura 2.1).

16 Deve-se destacar que uma grande parte de estas florestas são plantações de espécies de crescimento rápido e

Fonte: Rosete et al.( 2011)

Figura 2.1. Dinâmica da cobertura florestal em Cuba no período de 1812 a 2003