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1. HISTÓRIA E MEMÓRIA NA PRODUÇÃO LITERÁRIA

1.3. Discurso e História

1.3.1. Uma palavra sobre a descontinuidade da História

Em seus estudos, Foucault retoma a importância da história como fonte de subsídios quanto à construção de práticas que levam os sujeitos a se deslocarem da objetivação rumo a uma subjetivação. Mas a história que ele propõe não é a história tradicional, positivista, linear, tida como uma espécie de grande e vasta continuidade, uma história preocupada em analisar as unidades, descritas como épocas, e os feitos dos grandes homens. Uma história balizada em fatos cronologicamente organizados, que possuem uma

9 Os elementos que importam aos analistas do discurso são: a história, a ideologia, as condições de produção, as formações discursivas, as formações imaginárias, o interdiscurso e a memória discursiva, entre outros. Lembrando que a seleção de tais elementos devem estar em conformidade com os objetivos do estudo.

verdade única que resume a função do historiador à mera coleta e organização dos fatos. Ao contrário, ele defende a história que observa o que está próximo, que investiga, que se preocupa com a compreensão dos fenômenos e rupturas.

Para o autor, em A Arqueologia do Saber, os fenômenos não se originam em algum lugar que seria como o lugar próprio da sua verdade e nem são reflexos dos atos de um único sujeito. O tempo é uma sucessão de descontinuidades, e é essa fragmentação da temporalidade da história que nos permite perceber a finitude do homem. Assim, o homem só existe através da história e o sujeito é um acontecimento histórico que obedece à lei do acaso, é uma posição ocupada por quem enuncia algo em determinado lugar. Sendo assim, ele é suscetível às transformações discursivas que possibilitam novas regras de enunciação. E, tais transformações, não dependem exclusivamente de um único sujeito.

Foucault propõe a substituição da história tradicional pela dita “história nova”, que engloba diversas modalidades de história como a história das idéias, a história do pensamento, dos conhecimentos, da ciência, da literatura. Para ele a história é essencialmente descontínua, é feita de rupturas e se realiza em meio a conflitos e privilegia a pluralidade de acontecimentos em sua dispersão.

É no interior dessa história nova que Foucault anuncia a história do saber ou, a arqueologia do saber, em que ele tenciona investigar os sistemas de pensamento e renuncia à história das idéias. Assim, vemos que Foucault não faz história das idéias nem história das ciências, e sim analisa a possibilidade da ordem, da positividade histórica, a partir da qual um saber pode se constituir.

Pensar a história de forma tradicional é próprio da sociedade moderna, que se volta para a busca de um início, um desenvolvimento e um fim para as coisas e os acontecimentos. Daí a emergência de um saber histórico que trará um sentimento de segurança aos indivíduos, pois conhecemos todos os fatos históricos, que nos revelam o passado, interferem no presente e nos preparam para o futuro. Por isso o pensamento foucaultiano é tão relevante no campo da Análise do Discurso, pois ele se opõe à história tradicional, na medida em que se identifica com o (no) acontecimento, o (no) novo, a dispersão e a heterogeneidade que só são permitidos por meio dos conflitos estabelecidos numa dada realidade. Desta feita, Foucault se propõe a descrever a constituição do campo histórico como uma rede formada na inter-relação dos diversos saberes que a atravessam. E é justamente nesta rede que os discursos emergem.

Graças à sua maneira crítica de pensar os acontecimentos históricos, Foucault possibilita aos analistas do discurso uma forma de se pensar a relação da Análise do Discurso com essa nova história, com essa rede. Propõe uma abordagem crítica sobre os discursos dos

documentos e sobre os discursos contidos nos discursos do próprio historiador, pois estes estariam presos às condições de produção e de sentido de sua época. Com tal pensamento, ele apresenta uma nova forma de ver e escrever a história, estabelecendo um diálogo entre os analistas do discurso e os historiadores. Entendemos que Foucault contribuiu para o pensamento dos analistas do discurso sobre qual o lugar epistemológico ocupado pelo discurso, a partir do momento que passou a defender que o discurso não está no campo da língua, mas no campo do enunciado e que, por isso, deve ser visto em sua função enunciativa. Nesse processo, há que se considerar não apenas o sujeito que produziu o discurso, mas de que lugar institucional e sob que regras sociais e históricas esse discurso foi produzido.

A atenção dos historiadores profissionais sempre se voltou para os longos períodos. Com a perspectiva da nova história, as sucessões lineares, até então o objeto da pesquisa histórica, foram substituídas por uma série de rupturas e diversos níveis de análise se multiplicaram. De acordo com Foucault (2000c, p. 83),

a velha questão da história (que ligação estabelecer entre os acontecimentos descontínuos?) foi substituída desde então por uma série de interrogações difíceis: que estratos é preciso isolar uns dos outros? Que tipo e que critério de periodização é necessário adotar para cada um deles? Que sistema de relações (hierarquia, dominância, estratificação, determinação unívoca, causalidade circular) pode ser descrito entre eles?

Percebe-se que a atenção deslocou-se das vastas unidades que formam uma “época” ou um “século” para os fenômenos de ruptura. As grandes continuidades do pensamento, as manifestações maciças e homogêneas da razão, a evolução de uma ciência cederam lugar à incidência das interrupções.

Foucault (2000c) nos chama a atenção para que não tenhamos a crença de que certas disciplinas históricas tenham ido do contínuo ao descontínuo, enquanto outras, como a história, foram da abundância das descontinuidades às grandes unidades ininterruptas. Conforme o autor, a noção de descontinuidade é que mudou de estatuto. No paradigma histórico tradicional, o descontínuo restringia-se ao dado e ao impensável e devia ser contornado, reduzido, apagado pelo discurso da história, para que aparecesse a continuidade dos encadeamentos. O historiador devia suprimir da história a descontinuidade temporal, pois era necessário que a história fosse contínua para que se mantivesse a soberania do sujeito.

Hoje a descontinuidade se tornou um dos elementos fundamentais da análise histórica, dadas suas três funções principais: constituir-se como uma operação deliberada do historiador; ser o resultado de sua descrição no processo de análise; e, ser um conceito que o

trabalho não cessa de especificar, assumindo uma forma e uma função diferentes conforme o domínio e o nível nos quais é assinalada. Ela é, a um só tempo, instrumento e objeto de pesquisa, uma vez que delimita o campo de uma análise e constitui-se como efeito desta, rompendo com as unidades para estabelecer novas. Dessa forma, a história e as disciplinas históricas deixaram de ser a reconstituição dos encadeamentos para além das sucessões aparentes. Afinal, a história não é uma duração. Segundo Foucault (2000b, p. 292), “ela é uma multiplicidade de tempos que se emaranham e se envolvem uns nos outros. É preciso, portanto, substituir a velha noção de tempo pela noção de duração múltipla”. Nesse sentido, observa-se que a história desenredou-se do tempo, ou seja, não se concebe mais essa grande duração única que englobava, em um só movimento, todos os fenômenos humanos. Na verdade, o que ocorre são durações múltiplas, sendo cada uma delas portadora de certo tipo de acontecimentos. Segundo Foucault (2000b, p. 294), essa é “a mutação que está em vias de se produzir atualmente nas disciplinas da história”.