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6 A BIOÉTICA ABORDADA EM OUTRAS DISCIPLINAS DO CURRÍCULO

6.1 Uma perspectiva interdisciplinar da Bioética

As diferentes percepções em torno do significado e relevância do tema Bioética, tanto no meio científico quanto acadêmico, fez surgir nos últimos anos, grandes preocupações sobre este assunto tão discutido nas diferentes sociedades. A sociedade exige, com toda a legitimidade, assegurar-se de que a ciência e aqueles que estão envolvidos em pesquisas científicas se atenham a princípios morais e éticos apropriados. Observou-se que, essencialmente a partir do século XX, houve uma crescente preocupação com as questões bioéticas, muitas delas relacionadas aos impactos ambientais que vêm ocasionando prejuízos e ameaças à manutenção da vida de diferentes espécies. Outras implicações dessa crescente preocupação vêm elencadas junto a conflitos eminentemente sociais, como as ligadas ao controle de natalidade, sexualidade, pena de morte, igualdade ou direitos humanos. Há também que se referir as questões de reflexão ética quanto à adequação da utilização das biotecnologias e engenharias genéticas; organismos modificados geneticamente, agricultura, pecuária, veterinária, experimentação e bem-estar animal, etc. (COMSTOCK e ROSA, 2004).

Esta ética aplicada, que é a Bioética, perpassa o conceito de uma “ética da vida” estritamente ligada às ciências biomédicas. Trata-se de uma área transversal e multidisciplinar que carrega, desde a criação do termo pelo médico oncologista Van Rensselaer Potter4, a proposta de um conceito abrangente sobre todos os aspectos éticos das ciências da vida, ou

seja, seu sentido de uma “Bioética Global”. A Bioética não se restringe aos aspectos da biomedicina, sendo hoje matéria de grande discussão e atenção também no meio acadêmico (COMSTOCK e ROSA, 2004).

Muitos são os cursos universitários que se preocupam em abordar o tema com grande empenho nos seus currículos. Isto se deve primeiramente à intenção, por parte de instituições de ensino superior pretendem, de formar cidadãos aptos a discutir, argumentar, conhecer valores e formar a capacidade de julgamento moral e ético, reconhecendo as individualidades e respeitando as diferenças e o bem comum. Ademais, nas formações profissionais, a Bioética pode ser considerada importante meio de resgate dos valores morais e a valorização das relações estabelecidas na vida em sociedade, além da disponibilidade ao debate ético. Clotet, em uma de suas afirmações, considera:

O fato de que os futuros profissionais da Odontologia, Medicina, Enfermagem, Farmácia, Psicologia e Biologia tenham uma melhor prática ou exercício da sua especialidade através do conhecimento desta disciplina na época da faculdade, constitui um avanço extraordinário (CLOTET, 2006, p. 217).

Os valores e as condutas morais estão no âmago das discussões bioéticas, sendo que todo conflito é gerado a partir de uma disparidade de intenções e percepções, encontrando, pois, na sala de aula, uma importante via de resgate e reflexão sobre seus sentidos em diferentes culturas e contextos.

Os cursos de formação de professores de Ciências e Biologia, principalmente, devem estar engajados nesta busca. Os alunos que estão sendo preparados para atuar como professores, provavelmente, enfrentarão situações de conflito em suas aulas e se faz necessário que estes saibam administrar os acontecimentos, engajar-se nos debates e abrir-se ao novo. Estes são fatores tão necessários às discussões éticas quanto o próprio conhecimento da essência da Bioética, considerando que, ao “[...] afirmar o respeito devido a todo ser humano independentemente da sua idade, cor, saúde e situação econômica, a Bioética está contribuindo enormemente para o exercício da cidadania em nossa sociedade” (CLOTET, 2006, p. 217).

É importante trabalhar a Bioética durante a formação de estudantes universitários e, considerando o foco desta investigação, durante a formação de licenciandos em Ciências e

Biologia. “A Bioética deveria estar presente em todos os currículos, principalmente de professores, pois ela vai fazer esse profissional ser um profissional mais aberto. Mais aberto aos problemas, mais crítico, no sentido da crítica construtiva, e vai sair, e isso seria um diferencial, entendendo que vai construir uma nova sociedade a partir da sua ação e da ação dos seus alunos que são cidadãos que ele está ajudando a formar” (AF).

Em bibliografias atualizadas de outros países, são vislumbradas argumentações pertinentes, pautadas em considerações que corroboram fortemente a incorporação da Bioética aos processos formativos.

Pode-se citar, como exemplo, uma sugestão da American Association for the Advancement of Science que, em 1990, recomendava o tema diretamente ao ensino das ciências e indiretamente à investigação científica:

Os cursos científicos devem disseminar os aspectos [mais vastos] da ciência, realçando as suas dimensões éticas, sociais, econômicas e políticas. Tato o cidadão como o cientista, devem ter a capacidade para avaliar os custos, benefícios e riscos da ciência em termos econômicos, sociais e individuais, e para entender porque devem as políticas públicas e os regulamentos governamentais serem tidos em conta na aplicação prática do conhecimento científico (COMSTOCK e ROSA, 2004, p. 23).

As razões são muitas para considerar a relevância desse tema nos currículos dos cursos de graduação. No entanto, a grande reflexão em torno desta questão instaura-se em outros aspectos não menos relevantes ou até mesmo carecedores de maior atenção: a Bioética traria maior contribuição à formação dos professores de Ciências, ao ser abordada como uma disciplina autônoma e isolada? Ou, vislumbrando-se outra alternativa, seria mais conveniente trabalhá-la de forma integrada e complementar às disciplinas específicas dos cursos formativos?

Essa reflexão encontra sustentação nas considerações que podem ser feitas sobre as atitudes e a preparação dos docentes que estão envolvidos no processo de formação desses licenciandos. Ademais, nem todo professor é ou precisa ser um bioeticista. O que se requer é a postura mantida por esse professor como peça fundamental para o desenvolvimento de um bom trabalho. Manter uma conduta profissional que priorize a abertura às discussões, às argumentações fundamentadas e o conhecimento da adequação dos valores morais são ações que beneficiam a incorporação da bioética na formação dos futuros professores.

Além do que, “não se trata de uma disciplina como outra, se trata de uma dimensão de realidade, de um registro de relação com a realidade que não pode, absolutamente, ficar fora das dimensões básicas da formação de quem quer que seja, muito especificamente daquele cientista que, trabalhando com Biologia, pode ter a tentação de afunilar o seu fazer, no sentido de se concentrar excessivamente numa delimitação epistemológica muito estreita” (RT).

A oportunidade de abordar as mais diversas situações numa pluralidade de contextos e conhecimentos viabilizada numa sala de aula instala-se nessa necessidade de priorizar a Bioética nos currículos dos licenciandos em Ciências e Biologia. “A possibilidade de trabalhar a bioética parte da consciência do sentido que possa ter esse trabalho” (RT). A disponibilidade e a intenção em envolver-se com a Bioética não bastam se partirem de “modismos” num assunto que vem, progressivamente, ganhando espaço nos desafios atuais. Evidentemente serão aspectos fundamentais quando percebidos como o primeiro e importante passo ao trabalho com a Bioética. Sobretudo, necessitariam estar incorporados ao conhecimento do propósito da Bioética, a fim de que não se desfigure a essência desta disciplina. E, valendo-se das considerações de Comstock e Rosa (2004, p. 26), “a ética aplicada é porventura a disciplina das humanidades mais alheia à ciência, visto que se centra na tarefa normativa de justificar considerações sobre como o mundo humano deveria ser”

Sendo a Bioética uma “disciplina”, conforme é considerada por muitos autores, deduz- se que seja, utilizando-se da semântica da palavra, relativa à ação de disciplinar conceitos e conteúdos. Porém, o termo “disciplina” pode apresentar dois sentidos principais: “[...] pode significar uma metodologia pedagógica e pode significar o corpus de verdades científicas que resulta desta prática” (LEPARGNEUR, 1996, p. 89). O primeiro sentido pode e é recomendado ao trabalhar-se a Bioética, desde que de forma contextualizada e atual. Dessa forma, há possibilidade de atribuir à Bioética uma condição de disciplina que, concordando com Lepargneur (1996):

Recusamos o conceito de bioética como disciplina em formação, que iria constituir aos poucos seu corpus científico. Aderimos plenamente, entretanto, ao conceito de bioética como disciplina: disciplina de um certo confronto que aceita o diálogo leal e esclarecido entre visões inicialmente divergentes (LEPARGNEUR, 1996, p. 13- 14).

Posto isto, trata-se de uma disciplina que não se limita ao fazer pedagógico tradicional, tampouco àquele delineado em pragmatismos ou teorias estanques, mas que se debruça sobre o sentido de uma disciplina mutável, pluridimensional e contextualizada na contemporaneidade. Ainda, segundo Clotet, “a Bioética não é uma disciplina definida e consolidada nem nos seus conteúdos nem nos seus limites. Trata-se de um estudo interdisciplinar dos problemas éticos que se desenvolvem paralelamente ao progresso biológico e médico” (CLOTET, 2006, p. 190).