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CAPÍTULO 3 – PERSPETIVAS DE INTERVENÇÃO POLÍTICA

3.4 UMA PERSPETIVA INTEGRADA DO ENVELHECIMENTO

Tendo em conta o nosso objetivo de identificar e analisar estratégias e orientações políticas

de apoio ao envelhecimento, tendo em conta as características e as necessidades da população mais velha, no sentido de adequar os programas e responder de forma inovadora às exigências e desafios das sociedades maduras contemporâneas; adotámos uma perspetiva que conjuga as orientações conceptuais já enunciadas, capazes de guiar as políticas locais dirigidas ao envelhecimento. As orientações teóricas em que esta perspetiva integrada assenta estão representadas na Figura 2, que passaremos a resumir.

Após refletirmos sobre as questões demográficas, entendermos o contexto e a constituição do envelhecimento como problema público com desafios instalados ao nível do Estado e da sociedade civil, admitimos que que a natureza do problema invoca uma abordagem de governança. Nesta perspetiva de parceria e colaboração entre atores públicos, privados e do terceiro setor, privilegiam-se as ações locais, pela proximidade e conhecimento das pessoas.

Bem-estar subjetivo Envelhecimento Ativo Saúde Participação Segurança

Satisfação com a Vida

Bem-Estar Bem-estar psicológico

Afetos

Promoção de Políticas de Envelhecimento Ativo para a População Portuguesa Governança Local

Multidisciplinar

Intersetorial Público Privado Soc. Civil

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Existem boas razões económicas para os governos, as organizações e a sociedade civil implementarem políticas de envelhecimento saudável e ativo, em termos de aumento de participação e redução de custos com cuidados (Edwards & Tsouros, 2006). Tendo os europeus conquistado vidas mais longas e saudáveis, os governos procuram formas de envolver os idosos na comunidade (Eurostat, 2012) de forma que, atitudes como esta, além de promover o bem- estar dos mais velhos, pode resultar em benefícios económicos para a sociedade. Muitas cidades e países europeus têm integrado estas estratégias, sendo a maioria replicáveis em outros países. Evidenciam-se exemplos de boas práticas relacionadas com a promoção do envelhecimento saudável na comunidade, estilos de vida saudáveis, prática de atividade física, educação para a saúde, combate à solidão dos mais velhos, desenvolvimento da participação social, melhoria das competências de preparação para o envelhecimento e acessibilidade ambiental. Os principais tópicos mais comuns nos projetos existentes consistem no capital social e atividade física, muitas vezes em combinação, com potencialidades tanto na melhoria da saúde física como no alívio da solidão (Healthy Ageing Project, 2007).

Considerámos o “envelhecimento ativo” como paradigma que inspira o desenvolvimento de programas desta natureza, no sentido de orientar as estratégias na conquista do bem-estar dos indivíduos à medida que envelhecem. O seu entendimento salienta a importância de olharmos o envelhecimento numa perspetiva de ciclo de vida, e participativa, que envolva as pessoas idosas no desenvolvimento de políticas sem perder de vista as suas preferências e necessidades relacionadas com o aging in place.

Fonseca (2014) argumenta que não há uma única maneira de alcançar um “envelhecimento”

ativo. Ao contrário do simples padrão de envelhecimento normal, o “envelhecimento ativo”

exige do indivíduo um certo estilo de vida que, como o nome sugere, é "ativo", procurando melhorar o funcionamento e desempenho do indivíduo, possibilitando o desenvolvimento e bem-estar psicológico. No entanto, tem havido um crescente debate sobre como o paradigma pode ser operacionalizado, a fim de chegar a todas as pessoas (Fonseca, 2014). Embora não

haja uma definição empírica do “envelhecimento ativo” comumente aceite, alcançou-se já um

consenso de que abrange um conjunto de domínios: baixa probabilidade de doença e invalidez, aptidão física, funcionamento cognitivo, estado de espírito positivo, capacidade de lidar com o

stress, e de estar envolvido na vida (Fernández-Ballesteros et al., 2013). Com efeito, a maioria

dos autores da área concordam que o “envelhecimento ativo” é um conceito multidimensional,

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que não pode ser reduzido a apenas à saúde ou ao contexto económico, precisando ter em conta determinantes comportamentais de proteção (Caprara et al., 2013).

Porque o “envelhecimento ativo” depende de vários fatores em parte relativos ao indivíduo mas também ambientais e societais, percebe-se que o conceito se aplica tanto a indivíduos como a grupos populacionais, responsabilizando igualmente as organizações governamentais e da sociedade civil. Ora, se por um lado as políticas de “envelhecimento ativo” promovem uma responsabilidade individual para aproveitarem as oportunidades, por outro estas oportunidades estão dependentes de ações políticas a todos os setores do governo, bem como da sociedade civil e do setor privado. Estão implicados todos os níveis de governo, sociedade civil, setor privado, meios de comunicação e pessoas que envelhecem. Entendemos, assim, o “envelhecimento ativo” como um conceito político raro que pode unificar os interesses de todas as partes interessadas: cidadãos, ONGs, empresas e decisores políticos (Walker, 2008). Os princípios inerentes à sua realização de uma forma não coerciva, ao longo da vida, refletem a necessidade das parcerias. A responsabilidade individual deve ser acompanhada por uma ação política que conecte todos os apoios que, normalmente, são separados em diferentes departamentos administrativos. A ação intersectorial é um pré-requisito para a realização desta abordagem abrangente, bem como para a criação de uma sociedade para todas as idades (Walker, 2008). Nestes processos de governança, também já sublinhámos a importância das colaborações entre a investigação e as políticas, constituindo ainda esforços incomuns, na medida em que a pesquisa se tem limitado às universidades enquanto a política e planeamento ocorre com mais frequência nas organizações governamentais e sem fins lucrativos (Glicksman

et al., 2013). As parcerias colaborativas no contexto da implementação de políticas de “envelhecimento ativo” e criação de comunidades age-friendly passam pelo diagnóstico das necessidades, estabelecimento de um plano de ação e implementação em parceria, envolvendo os idosos, associações de idosos e outras partes interessadas (Garon et al., 2014).

Estas iniciativas de colaboração intersectorial provaram já a sua eficácia ao nível da saúde pública (Littlecott et al., 2015), sendo cada vez mais transferidas para as localidades, a fim de atender às necessidades locais e regionais, por serem sensíveis às características locais (Rummery & Coleman, 2003, cit. por Littlecott et al., 2015). A promoção da saúde para as pessoas idosas não é apenas uma questão para o Estado, mas para todas as agências governamentais e organizações cujas políticas e ações podem ter um impacto sobre a saúde das pessoas mais velhas. É preciso envolver não apenas o processo político ao nível nacional mas

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procurar também influenciar a forma como estas questões são integradas e pensadas a nível local, por exemplo, nas comissões políticas estratégicas das autoridades de saúde e autoridades

governamentais locais (O’Shea, 2006). Na verdade, embora se admita que as políticas podem

ser avaliadas em diferentes espaços geográficos: local, regional, nacional ou internacional,

considera-se que a aplicação dos programas de “envelhecimento ativo” é, inevitavelmente, ao

nível local através da proximidade que mantém da população. De acordo com Neal et al. (2014), são necessários alguns requisitos para abrir a janela política, reconhecendo que o fenómeno de envelhecimento da população acarreta uma necessidade de respostas locais, bem com um ambiente propício e vontade política. Trabalhar com grupos de bairro pode permitir avaliar as barreiras e os recursos ao nível local, decidindo estratégias de melhoria. Por outro lado, trabalhar a nível regional pode influenciar o planeamento e a implementação de esforços maior amplitude (Neal et al., 2014).

A operacionalização dos determinantes do “envelhecimento ativo” permitirá melhorar os

fatores de proteção e minimizar os fatores de risco ao longo da vida, tanto ambientais como comportamentais. Melhorar as estruturas de governança para responder à revolução da longevidade ordena, portanto, a uma colaboração intersectorial, indispensável no alinhamento e implementação das políticas. Esclarecemos que, nesta perspetiva da OMS, nos afastamos do foco na prevenção de doenças e provisão de cuidados de saúde para apostar na promoção de bem-estar físico, social e mental ao longo da vida. É esta abordagem holística de “envelhecimento ativo” que a presente investigação assenta, considerando que é, em si, um arquétipo inovador com potencialidades ao nível da intervenção política local. Considera-se uma estratégia capaz de responder às necessidades, expectativas e direitos das pessoas à medida que envelhecem, promovendo um bem-estar reproduzido no nível de satisfação com a vida dos

mais velhos. Este vínculo entre os pilares do “envelhecimento ativo” e o bem-estar subjetivo

na sua forma de satisfação com a vida, que pode ser promovido através de ações de governança, sob a perspetiva multidimensional e intersectorial, resume as linhas de análise que sustentam esta investigação.

Em jeito de síntese, embora se admita que não há um único caminho para as políticas de envelhecimento, estão aqui reunidas e integradas as orientações em que esta pesquisa irá assentar. Trata de uma perspetiva integrada, fundamentada nas leituras realizadas e tendo em vista os objetivos a que nos propusemos.

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