3.2. A alfabetização em Ciências da Terra
3.2.1. Uma proposta curricular para o ensino de Ciências da Terra
Partindo do pressuposto que existem diferentes possibilidades para se abordar temas de Ciências da Terra no ensino secundário, tanto do ponto de vista de forma quanto de conteúdo, qual perspectiva a presente pesquisa utilizaria como referência? Sobre qual ponto de vista geocientífico as imagens presentes nos livros didáticos dentro de contextos geocientíficos seriam analisadas neste trabalho? Nesse sentido, pareceu lógico responder a uma pergunta chave: qual seria o objetivo fundamental do estudo das Geociências e que papel poderia ter a sua aprendizagem para a formação dos estudantes ao final do curso secundário?
Estas questões nos levaram ao estudo realizado por uma comissão que reuniu diferentes profissionais9 de distintas instituições vinculadas ao ensino de Geologia na Espanha. O objetivo principal deste grupo de trabalho era fornecer as autoridades educativas espanholas e também aos professores do Ensino Secundário Obrigatório (ESO) algumas diretrizes fundamentais sobre os conteúdos básicos e as concepções geocientíficas que, ao serem trabalhadas nesta etapa da
9Este documento foi elaborado por uma comissão, a partir da proposta das sociedades científicas e organizações representadas pelas pessoas relacionadas a seguir:
Emilio Pedrinaci, coordenador desta Comissão, INTERNATIONAL COMMISSION ON THE HISTORY OF GEOLOGICAL SCIENCES (INHIGEO- IUGS) (Espanha).
David Brusi y Luisa Quintanilla, ASSOCIAÇÃO ESPANHOLA PARA O ENSINO DAS CIÊNCIAS DA TERRA (AEPECT).
Elvira Roquero, ASSOCIAÇÃO ESPANHOLA PARA O ESTUDO DO QUATERNÁRIO (AEQUA).
José López Ruiz, CONFEDERAÇÃO DAS SOCIEDADES CIENTÍFICAS DA ESPANHA (COSCE).
Gabriel Ruiz de Almodóvar, CONFERÊNCIA ESPANHOLA DE DECANOS DE GEOLOGÍA (CEDG).
Ánchel Belmonte, FORO ESPANHOL DE GEOPARQUES.
Santiago Alcalde, GEÓLOGOS DO MUNDO (GM).
Josep Mª Mata-Perelló, ILUSTRE COLÉGIO OFICIAL DE DOUTORES E LICENCIADOS EM FILOSOFIA E LETRAS E CIÊNCIAS (CDL).
José Luis Barrera, ILUSTRE COLÉGIO OFICIAL DE GEÓLOGOS (ICOG).
José Carlos Feixas, ILUSTRE COLEGIO OFICIAL DE GEÓLOGOS DE ANDALUZIA (ICOGA).
Isabel Rábano y Ana Rodrigo, INSTITUTO GEOLÓGICO E MINERO DA ESPANHA (IGME).
José Antonio Pascual, REAL SOCIEDADE ESPANHOLA DE HISTORIA NATURAL (RSEHN).
Alberto González Díez, SOCIEDADE ESPANHOLA DE GEOMORFOLOGÍA (SEG).
Juan Jiménez Millán, SOCIEDADE ESPANHOLA DE MINERALOGÍA (SEM).
Amelia Calonge y Esperanza Fernández, SOCIEDADE ESPANHOLA DE PALEONTOLOGIA (SEP).
Vicente Cardona, SOCIEDADE ESPANHOLA PARA A DEFESA DO PATRIMONIO GEOLÓGICO Y MINEIRO (SEDPGYM).
Pedro Alfaro, Ana Crespo y Luis Rebollo, SOCIEDADE GEOLÓGICA DA ESPANHA (SGE)
educação formal, poderiam contribuir para a “alfabetização” dos estudantes em Ciências da Terra. Segundo o referido trabalho, o termo “alfabetização” teria significado análogo ao dado pela perspectiva linguística, que não considera alfabetizada uma pessoa somente porque ela identifica e reconhece as letras do abecedário, ou seja, espera-se que ela seja capaz de compreender um texto e expressar por escrito uma ideia. Dentro desta expectativa, foi desenvolvido um documento intitulado “Alfabetización em Ciencias de La Tierra”
(PEDRINACCI, 2011), o qual propõe dez “ideias chaves” para o ensino de conteúdos de Ciências da Terra e os princípios e conteúdos didáticos que sustentariam cada uma delas.
Avaliamos que este poderia servir de referência para a análise que realizaríamos, uma vez que esta iniciativa mantém conexão com propostas recentes para a educação em Geociências sugeridas por outras iniciativas internacionais, como por exemplo, o projeto Earth Science Literacy Principles (http://www.esrthscienceliteracy.org), financiado pela National Science Foundation e a American Association for the Advancement of Science, organizações que conta com a participação das mais importantes sociedades científicas americanas relacionadas com o ensino das Ciências da Terra.
Para as nossas pretensões, era imprescindível que o referencial para as análises se baseasse em um tipo de concepção mais “global”, uma vez que ela deveria servir para o estudo de materiais oriundos de diferentes sistemas educativos e de diferentes culturas. Assim, a proposta das “ideias chaves”, com parâmetros educativos globais, nos pareceu bastante adequada.
Segundo ela um indivíduo para ser considerado “alfabetizado” em Ciências da Terra deve:
• Ter uma visão geral de como a Terra funciona. Saber utilizar este conhecimento básico para explicar, por exemplo, a distribuição de vulcões e tremores de terra, as características mais gerais do relevo e ainda compreenda alguns dos fatores que podem causar mudanças globais do planeta;
• Ter uma perspectiva temporal sobre as profundas mudanças que afetaram o nosso planeta no passado e os organismos que o tenha povoado, de modo a proporcionar uma melhor interpretação do
presente;
• Ter uma compreensão de algumas das interações fundamentais entre a humanidade e o planeta, os riscos naturais que podem afetá-lo, sua dependência para obter recursos e a necessidade de incentivar o uso sustentável destes;
• Ter a capacidade de localizar e selecionar informações relevantes sobre alguns dos processos que afetam a Terra, formular perguntas relevantes sobre eles, avaliarem se determinadas evidências apóiam ou não uma determinada conclusão, etc.;
• Saber utilizar os princípios básicos geológicos e procedimentos mais elementares e usuais da geologia e ter capacidade para avaliar a sua importância para a construção do conhecimento científico sobre a Terra.
(PEDRINACCI, 2011)
Os itens dispostos acima e a análise de todo o documento em questão deixam claro o tipo de educação proposta, a qual visa a formação de um indivíduo que tenha consciência de que a Terra como sistema complexo, dinâmico e em constante transformação. Da mesma maneira, esta proposta educativa espera que este indivíduo possua uma perspectiva temporal dos processos capazes de transformar de forma global o planeta e consiga utilizar os conhecimentos geológicos para prever situações de riscos. Finalmente, ele deseja que em posse desses conhecimentos, ele seja capaz de contribuir de forma positiva para a sustentabilidade da vida humana na Terra.
Assim, entendemos que se tratava de uma proposta educativa aplicável a diferentes contextos geográficos, sociais e culturais, ou seja, uma concepção de educação em Ciências da Terra de caráter global, sem descartar a importância do conhecimento local.
Para que se entenda melhor a proposta, ela defende que os seus objetivos podem ser atingidos, entre outras coisas, pelo desenvolvimento de alguns conteúdos, centrados em dez
“ideias chaves” que se inter-relacionam. Tais ideias não apenas tópicos e sub tópicos a serem ensinos aos alunos, mas elas trazem em si certa concepção epistemológica para o ensino das Ciências da Terra, já discorrido em parágrafos anteriores. Para que esta concepção fique clara para o leitor, uma vez que as análises discursivas das imagens dentro de determinado contexto geocientífico foi realizado com base nelas, na sequência será apresentada cada uma dessas ideias
chaves e os subtópicos ou conceitos que as sustentam, a partir da tradução direta do documento original. As concepções que embasam a “ideia chave 6” que trata da dinâmica interna da Terra e foi escolhida por esta investigação para ser a textualização base para as análises das imagens será discutida de forma mais aprofundada. O capítulo 4 discutirá como se deu a eleição da ideia chave 6 para ser a base textual das análises realizadas.