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CAPÍTULO 4 A FORÇA AÉREA: DO DESEJO À REALIDADE

4.1. Uma proposta de Lei

Por iniciativa do Ministro da Defesa Nacional, Santos Costa, são enviadas para a Assembleia Nacional, para aprovação, as propostas de organização da Aeronáutica Militar. No decorrer dos trabalhos desta V Legislatura (1949-1953), o Presidente da Assembleia Nacional (Albino dos Reis Júnior) envia para o presidente da Câmara Corporativa (Professor Marcello Caetano), em 24 de janeiro de 1952, as referidas propostas “a fim de que se digne

promover que sobre elas incida dentro do prazo de vinte dias, o respectivo parecer dessa Câmara. A Bem da Nação”.150 O relator nomeado foi o “Digno Procurador Humberto

Delgado” e o processo era constituído por um Relatório preliminar, a Proposta de Lei nº 186

da Organização Geral da Aeronáutica Militar e a Proposta de Lei nº 187 sobre o Recrutamento e Serviço Militar nas Forças Aéreas.

Para estudarem estas Propostas e emissão do respetivo Parecer são intervenientes vários Procuradores da Câmara Corporativa das Secções de Defesa Nacional e de Política e Administração Geral, nomeadamente: Professor Marcello Caetano (presidente da Câmara Corporativa), Afonso de Melo Pinto Veloso (vice-presidente da Câmara Corporativa e juiz- conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, aposentado), Afonso Rodrigues Queiró (Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra), João Francisco Fialho (oficial superior da Marinha), Joaquim de Sousa Uva (oficial superior da Marinha), José Joaquim d’Oliveira Guimarães (Diretor das Faculdades de Letras das Universidades de Coimbra e Lisboa), José Tristão de Bettencourt (General na situação de reserva), Rafael da Silva Neves Duque, e finalmente, o Coronel da Aeronáutica Humberto da Silva Delgado.

No relatório das Propostas de Lei são apresentados vários considerandos que suportam estes projetos de diploma. Em primeiro lugar, a necessidade da reorganização das forças aéreas como condição prévia e necessária definida quando da criação do Subsecretariado de Estado da Aeronáutica (art.º 8º do DL nº 37909, de 1 de agosto de 1950).

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Depois, esta organização tem um âmbito que abrange todos os territórios nacionais, de aquém e de além-mar, e não só o território metropolitano, não havendo distinção entre forças metropolitanas e ultramarinas, para além da criação de cinco regiões aéreas para melhor administrar as forças aéreas. Aborda o período de três anos como tempo de serviço obrigatório na estrutura das novas forças aéreas.

Avança posteriormente para o ponto mais controverso: define que a missão principal das forças aéreas deverá ser “a defesa dos pontos ou zonas vitais do território e a

cooperação na frente com as forças terrestres e navais”, classificando aquelas como forças

aéreas independentes e forças aéreas de cooperação. Pela exiguidade de recursos disponíveis, “ao menos as forças aéreas independentes deverão estar totalmente afectas ao

Subsecretariado de Estado da Aeronáutica, e por intermédio deste, ao Ministro da Defesa Nacional”. Quanto às forças aéreas de cooperação, apresenta três soluções diferentes:

a) Forças aéreas de cooperação integralmente descentralizadas e sujeitas, na preparação,

na administração e no emprego, aos Ministérios do Exército e da Marinha.

b) Forças aéreas de cooperação centralizadas e permanentemente afectas na preparação,

na administração e no emprego, ao Subsecretariado de Estado da Aeronáutica.

c) Forças aéreas de cooperação concentradas para efeitos de administração e preparação

e descentralizadas para efeitos de emprego.

Em 3 de março de 1952, Marcello Caetano devolve as Propostas de Lei nº 186 e 187 à Assembleia Nacional, com o respetivos Pareceres da Câmara Corporativa, para futura análise e debate na Assembleia Nacional. Estes Pareceres (nº 27/V e nº 28/V) são o resultado de uma discussão intensa entre os defensores da criação da Força Aérea e o grupo que pretendia manter na Marinha a sua aviação.

O Parecer nº 27/V, numa apreciação na generalidade, refere a importância da Aeronáutica, que em alguns países se tornou um “exército do ar, incumbido quer da defesa

do espaço aéreo, quer de nele manobrar para acções ofensivas tácticas e estratégicas, primeiro sobre a terra e depois sobre o mar, ao crescer o raio de acção dos materiais e a segurança de voo”. Diz ainda que Portugal tem-se mostrado “lento no acompanhar da evolução da arte da guerra e que, como tal, não ser de admirar que, tardiamente em relação a tantas outras potências, só agora dê um passo na organização das suas forças armadas, ao

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apresentar o Governo duas das três leis fundamentais para a independência ou paridade do exército do ar”.

Em termos práticos, a Câmara dá o seu assentimento ao caráter extensivo da ação do Subsecretariado de Estado da Aeronáutica a todo o território nacional, metropolitano e ultramarino. Quanto à divisão em regiões aéreas, seria conveniente o assunto ser estudado mais profundamente e basear-se a decisão futura em experiências das primeiras regiões que se pusessem em funcionamento, ficando o governo com a autorização de as instituir, por simples decreto, conforme as necessidades.

A integração das forças aéreas foi o ponto crucial da lei em que as opiniões dos técnicos e não técnicos mais se dividiram. Sublinham que a proposta de lei trata “não da

absorção de uma força por outra, mas a passagem de duas forças aéreas a um novo Subsecretariado, isto é, a um novo e terceiro exército – o do ar”.

No ponto seguinte é aflorado que “em toda a parte do Mundo, praticamente foi da

aviação do Exército que partiu o grito de independência e também em quase toda a aparte do Mundo foi a Marinha que reagiu à integração, baseada em factores real ou aparentemente objectivos uns, subjectivos outros”.

Depois foram analisadas questões de índole económica (em termos orçamentais e de formação de pilotos nas duas aviações do Exército e da Marinha) e continuou a apreciação da Câmara dizendo que quanto a questão da unificação das forças aéreas, por maioria, “entendeu que a resposta devia ser positiva, com base em razões de economia, nas de

possibilidade mais fácil de traçar directivas comuns em política aérea e na experiência de diversos países”.

Já no âmbito da análise na especialidade, no respeitante ao artigo 1º, propõe-se evoluir da expressão “aeronáutica militar” (representaria o sentido lato, abrangendo todo o conteúdo do sistema aeronáutico) para “forças aéreas” (sentido mais restrito de “força militar aérea” conjunta, com os seus serviços anexos), passando as novas forças criadas a terem a designação de “Forças Aéreas Portuguesas”. Ainda neste artigo ficavam definidas a existência e a dependência das forças de cooperação. Assim, “as forças aéreas de cooperação com as forças terrestres poderão ser colocadas à disposição do Ministério do Exército para emprego pelos respectivos comandos”; e “as forças aéreas de cooperação com

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as forças navais ficarão permanentemente atribuídas ao Ministério da Marinha”, […]“salvo os de instrução básica e os de manutenção de material e outros de interesse comum”.

Relativamente ao art.º 7º, a Câmara Corporativa entendeu que devia tomar posição clara quanto à existência e grau de dependência das forças de cooperação, pelo que aditou dois parágrafos referentes à aviação de cooperação naval. Ainda neste artigo, é expressa a dependência e as responsabilidades de cada órgão: “Na imediata dependência do

Subsecretario de Estado da Aeronáutica exerce a sua acção o chefe do Estado Maior das F. A. P., a quem cabe o comando superior das respectivas forças e é o primeiro responsável militar pela sua preparação”. Na sequencia deste assunto, no art.º 21º, propõe-se “Como órgão superior do comando das F.A.P. existirá um Comando-Geral das Forças Aéreas Portuguesas, subordinado ao Chefe do Estado-Maior das Forças Aéreas. Sob a directa dependência do Comando-Geral das F.A.P. estarão: 1º As Forças Aéreas para Operações Independentes (FAOI); 2º As Forças Aéreas de Cooperação (FAC); 3º As unidades de instrução ou escolas necessárias à preparação das forças anteriormente designadas”.

Em resumo, a Câmara Corporativa diz concordar, de forma geral, com a doutrina da Proposta de Lei nº 186, e, em consequência, propõe a sua aprovação à Assembleia Nacional, com as emendas introduzidas.

Todavia, as opiniões de técnicos e não técnicos, ainda que todos Procuradores da Câmara Corporativa, bastas vezes foram discordantes, atendendo aos interesses e aos grupos de pressão política e militar a que se encontravam vinculados. A prova evidente desses antagonismos são as declarações de voto expressas por quase todos os intervenientes.

Relativamente à Proposta de Lei nº 187, a que se refere o Parecer nº 28/V da Câmara Corporativa, foram tidos em conta os seguintes pontos fundamentais:

a) Recrutamento sem distinção de filiação ou origem, incluindo entrada na classe de oficiais, pelas escolas militares;

b) Previsão do recrutamento de mulheres;

c) Aumento da autoridade e da influência da aviação militar sobre a aviação civil; d) Duração do tempo de serviço militar;

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Em relação à primeira alínea, é dada uma abertura de recrutamento a naturais de qualquer região do país, incluindo do ultramar, independentemente da sua filiação ou origem. O tempo de serviço militar será de três anos nas fileiras, como tempo mínimo. No respeitante ao serviço militar para “indivíduos do sexo feminino” ficou ressalvado que seria apenas em tempo de guerra.

Em 3 de março de 1952, Marcello Caetano devolve ao presidente da Assembleia Nacional as duas Propostas de Lei (nº 186 e nº 187), com os respetivos Pareceres da Câmara Corporativa (27/V e 28/V), para efeitos de discussão e aprovação.

O debate das Propostas de Lei iniciou-se em 14 de março de 1952,151 tendo o

presidente da Comissão de Defesa, Frederico Vilar, Oficial general do Exército, dito que estas Propostas são o complemento à criação do Subsecretariado de Estado da Aeronáutica, em 1950, e que uma das razões para esta grande reorganização está relacionada com o impacto decorrente do Pacto do Atlântico, assinado por Portugal, com reflexos externos e internos. Fez de seguida uma passagem pelas linhas gerais das Propostas, declarando que opta “pela

centralização das aeronáuticas militar e naval numa força aérea única, podendo eventualmente as forças aéreas de cooperação ficar sob a dependência dos respetivos Ministérios para efeitos de emprego em tempo de guerra e para efeitos de instrução operacional em tempo de paz”. Continuou dizendo que “procurarei a contrapartida do meu desgosto [saída da Aeronáutica Militar do Exército] na certeza que a criação do Subsecretariado de Estado da Aeronáutica virá aumentar a eficácia da colaboração entre as forças de terra, mar e ar”.

O resultado final de todo este trajeto, que se iniciou no Ministério da Defesa, passou pela Câmara Corporativa e terminou na Assembleia Nacional, foi a publicação da Lei nº 2055, de 27 de maio de 1952, que legisla sobre a “organização geral da aeronáutica militar”, e a Lei nº 2056, de 2 de junho o mesmo ano, que define o “recrutamento e serviços militares nas

forças aéreas”. O Decreto-Lei nº 38805, de 1 de julho de 1952, entre outros aspetos,

determina que fiquem na dependência da Subsecretaria de Estado da Aeronáutica os serviços da estrutura da Aeronáutica Militar e da Aviação Naval. Pode-se afirmar que, neste dia, nasceu a Força Aérea, embrião do que conhecemos nos dias de hoje.

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Este processo, que se foi revelando complexo e doloroso, foi alvo de muitas apreciações subjetivas, mas também de outras mais técnicas e mais desapaixonadas. Em vários “teatros”, travou-se uma luta entre os partidários da Marinha e do Exército, na parte daqueles que queriam uma Força Aérea independente. Pelo meio, foram-se aglomerando civis políticos que tomaram partido por uma das partes. Outro “palco” foi a comunicação social da época, onde vários “atores” expuseram e lutaram pelas suas ideias.