2.3 LINGUAGEM E DISCURSO POLÍTICO
2.3.1 Uma proposta tripartite
A partir de pesquisas no âmbito do discurso político, em diversos domínios discursivos, Bochett et al (2017) propõem uma forma de organização da seara de gêneros do discurso político, com base nos aspectos variáveis de Fetzer (2013). A Figura 23 representa a Topologia do Discurso Político.
A Figura 23 é regida por dois eixos: (i) protocolaridade (formalidade) e i(i) performatividade. O primeiro eixo (i) se constitui em um continuum, que compreende os graus de formalidade e rigidez dos gêneros do discurso político, no que concerne os
procedimentos legais do fazer político, isto é, particularidades de funcionamento político de cada sociedade, registrados através de códigos morais e normativos. O segundo eixo (ii) também é constituído de um continuum e é regido pelo grau de performatividade que o gênero do discurso político exerce: em um extremo, encontram-se os discursos políticos cuja atividade social se agrupa em torno da promessa, da persuasão, do aumento do corpo eleitoral para eleição ou reeleição, das discussões intrapartidárias ou interpartidárias (coligações); também encontram-se gêneros políticos formadores de opinião, que normalmente são veiculados em velhas e novas mídias. Nesse extremo do
continuum, a performatividade dos discursos é baixa, pois não há modificação direta no
sistema político e/ou estado civil de uma comunidade. Já em seu outro extremo, encontram-se os gêneros do discurso político que “efetivamente modificam o estado civil, como discursos oficiais de agentes políticos, decretos, regulamentações, que, finalmente tornam-se normas do âmbito da sanção social, de circulação em esfera institucional e pública” (BOCHETT et al, 2018).
Figura 23 - Topologia do Discurso Político
+performativo + protocolar - performativo DP A DP B C DDP D DSP - protocolar
Fonte: (Bochett et al, 2017, p. 145).
Assim, formam-se quatro quadrantes (A, B, C, D), nos quais são distribuídas três formas do discurso político: o discurso político (DP), o discurso do político (DDP) e discurso sobre política (DSP). O DP se encontra no quadrante A, pela sua característica altamente protocolar e performativa que, primeiramente, é produzido e transmitido em
esferas institucionalizadas que são responsáveis pela organização e manutenção do sistema político de uma comunidade. Em termos de domínio discursivo, é o discurso político que se realiza em debates, em seções parlamentares, em deliberações do Supremo Tribunal Federal ou da Justiça do Trabalho. Fetzer (2013) caracteriza esse quadrante de política profissional, praticada por participantes que são agentes políticos reconhecidos pelas formas de eleição a depender do tipo de governo de sociedades.
O quadrante B, cuja performatividade é baixa, contudo, com alto e médio níveis de protocolaridade, é constituído de gêneros do discurso políticos considerados oficiais, porém, que ainda não foram regulamentados, normatizados e, portanto, sua performatividade, isto é, a capacidade de mudança do sistema político é baixa. Nesse quadrante, encontram-se anúncios oficiais sobre possíveis mudanças políticas. Do quadrante A ao quadrante B, os autores posicionaram um seta de via dupla pois a seara de gêneros desse discurso pode flutuar em termos de sua performatividade e dão o seguinte exemplo (BOCHETT et al, 2017, p. 137):
quando um agente político discursa sobre uma potencial mudança legislativa ou uma mudança referente à cobrança de impostos, este discurso é de alta protocolaridade, por se tratar de momentos oficiais acerca do funcionamento de um governo, porém, de baixa performatividade por não efetivamente modificar leis e normas do Estado
O quadrante C, com baixa protocolaridade, porém, produzidos em esferas institucionais e de média a alto níveis de performatividade, os autores posicionaram o
DDP, composto de discursos políticos de debates intra ou interpartidários, agendas de
programas governamentais de partidos políticos, em maioria significativa ou não no sistema político, entre outros. Nesse quadrante, são produzidos os discursos políticos que surgem a partir de coligações entre partidos. Primariamente, tais coligações não possuem caráter protocolar de acordo com as regras e normas de uma comunidade, porém, o caráter de performatividade é de médio a alto, pois, alianças políticas são capazes de causar mudanças no sistema, como por exemplo, quando dois partidos políticos, em combinações explícitas ou implícitas, alinham-se para a aprovação ou rejeição de projetos de lei ou criação ou apagamento de leis. São condições de produção, recepção, transmissão e distribuição próprios de cada partido ou das temporárias
combinações intrapartidárias. O campo discursivo desse quadrante é a ação política ancorada em esferas políticas partidárias particulares, que envolvem, além de agentes políticos reconhecidos, também, empresários de grandes organizações e lobistas.
Por último, o quadrante D, os autores posicionaram o DSP, de baixa performatividade e de média a baixa protocolaridade, por não necessariamente serem constringidos pelas restrições léxico-gramaticais dos gêneros do discurso político mais institucionalizados e produzidos, em domínios discursivos e por participantes que são legitimados no e pelo sistema político. Nesse quadrante, encontram-se os textos de natureza política que são produzidos, distribuídos e transmitidos em e por velhas e novas mídias: notícias, reportagens, colunas de opinião, editoriais, falas de programas televisivos e até conversas informais entre eleitores. A título de demonstração, Bochett et al (2017, p. 147) inserem exemplos de práticas discursivas de política na topologia do discurso político e apresentam a Figura 24.
Figura 24 - Práticas discursivas localizadas na topologia do discurso político
+ performativo + protocolar - performativo DP Normativas DP
Anúncios oficiais; promessas de agentes políticos vigentes
DDP
Campanhas eleitorais, Debates intrapartidários
DSP
Notícias, reportagens, colunas de opinião, editoriais
programas televisivos
- protocolar
A partir desse conceito de discurso político, no próximo capítulo, retomamos teorias linguístico-gramaticais que embasam conceitos de linguagem e seu funcionamento.
3 POLARIDADE E ENGAJAMENTO
Neste capítulo, apresentamos a negação na perspectiva da GSF, de Halliday e Matthiessen (2004, 2014), explorando as possibilidades de realização léxico-gramatical do Adjunto negativo não, com adendos em relação à particularidade da língua portuguesa, conforme apontamos com o estudo de Gouveia (2010) sobre o funcionamento do Modo. Expomos, também, apontamentos acerca de alterações dos diagramas de possibilidades de realização do Adjunto negativo na dissertação de Callegaro (2015), em conformidade com novas leituras de Halliday e Matthiessen (2014) e leituras complementares em Tottie (1987), Pagano (1994), Givón (1993, 2001) e Nahajec (2012).
Das realizações léxico-gramaticais do Adjunto negativo, passamos, na seção 3.2, a tratar do sistema de Engajamento (MARTIN; WHITE, 2005) e a negação, pois os autores examinam o potencial dialógico e avaliativo do Adjunto negativo não e a relação interpessoal que constrói entre falante/escritor e ouvinte/leitor. O Engajamento trata sobre o grau de engajamento que elaboramos ao invocar outras vozes na formulação do avançamento das nossas posições de valor. Através desse sistema, ou expandimos o espaço dialógico, quando o investimento interpessoal na invocação da voz do outro é baixa, resultando na possibilidade de formulação de outras alternativas dialógicas quanto a posição de valor que construímos. Podemos, também, contrair o espaço dialógico, quando realizamos a voz do outro, tanto de forma explícita quanto explícita, objetiva ou subjetivamente, de maneira a fechar possibilidades dialógicas futuras para que nossos ouvintes/leitores possam avançar posições de valor. Conforme citamos, a negação é parte do sistema de Engajamento, nos recursos semântico-avaliativos capazes de contração dialógica, com efeito de recusa de enunciados anteriores. Exploramos tal relação na seção 3.2.1, separada no intuito de descrever o potencial do Adjunto negativo e quais efeitos de pressuposição e expectativa são construídos, com base na relação entre falante/escritor e ouvinte/leitor.