2 VIDA E DECISÃO: UMA ANÁLISE DA EXCEÇÃO
2.2 A SOBERANIA E A DECISÃO
2.2.2 Uma questão de decisão
O trajeto traçado até aqui apresentou as sociedades modernas não mais
apenas tuteladas por um ordenamento estritamente legal, mas também invadidas
por procedimentos de vigilância e de regulamentação. Estes responsáveis por
conduzir o corpo-individual e o corpo-população, portanto, a vida como um todo, a
um caminho pretendido pelas técnicas de governo. É a biopolítica que se faz
presente nas sociedades atuais através de veladas técnicas de subjetivação.
Essas tecnologias de poder ao mesmo tempo em que se preocupam com a
vida de uma população específica, precisam ver no outro, interno ou externo à
sociedade que se protege, a categoria do inimigo. Apenas ao categorizar o outro na
condição de inimigo, alçando de vez a vida à esfera do político, que o mesmo regime
306
AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer. p. 16. A partir desse contexto de exclusão e inclusão
da vida nua, Oswaldo GIACOIA JÚNIOR reflete sobre o fenômeno da vida nua exposta nos depósitos
de corpos humanos confinados em presídios brasileiros. Neste local, entretanto, os afrontamentos
praticados contra a decisão soberana e a vida nua através das rebeliões em cárceres e presídios,
cujos autores se organizam a partir de comandos com extensas ramificações extracarcerárias,
permitindo suporte e uma ação coordenada em rede, revelam que grupos rivais proferem e executam
a decisão soberana acerca do direito de vida e de morte sobre a vida nua depositada nas prisões
oficiais. Enquanto o Estado não possui mais as condições de se impor tal qual o detentor efetivo e
único da violência. De acordo com o autor, o que se assiste é o enfrentamento entre “poder estatal” e
“resistência” que se opõe através da decisão sobre o estado de exceção, ou precisamente o exercício
do poder de vida e de morte sobre a vida nua (GIACOIA JÚNIOR, Oswaldo. Foucault. p. 197-199).
biopolítico que cuida da vida, trata então da morte, da eliminação física daquele
classificado sob a rubrica de inimigo.
O poder normalizador biopolítico não suprimiu, mas se acoplou ao “velho
direito de soberania”, o qual garante a prerrogativa de decidir sobre o estado de
exceção
307. No que AGAMBEN vai complementar o pensamento foucaultiano e
afirmar que as sociedades atuais são totalmente regidas por dispositivos que
ensejam uma total dessubjetivação de seus indivíduos, não se restringindo apenas à
subjetivação anteriormente diagnosticada. Este estado de emergência permanente,
instaurado pela, cada vez maior, utilização do instituto do estado de exceção e da
sua maior e constante duração, revela que a base soberana ergue-se sobre a vida
nua do indivíduo, cuja eliminação não é passível de punição, tampouco se apresenta
como sacrifício. Esta indistinção remonta a idéia de que todos podem ser
categorizados como homines sacri.
Dessa forma, o campo, como experiência de anomia, como estado de
exceção em espaço bem definido, e como local das mais horrendas práticas
biopolíticas passa a ser o cerne de análise para tentativa de compreensão da
política contemporânea. É nele que se dá a produção do muçulmano, expoente
máximo da dessubjetivação que caracteriza a mais recente fase da biopolítica.
A exceção também é o local que apresenta a decisão em sua forma pura.
Isto fica claro quando Primo LEVI narra os procedimentos adotados no campo para
seleção daqueles destinados à solução final. Os trens que chegavam e despejavam
os novos detentos, muitos já seguiam às câmaras de gás. Às vezes, os “homens
válidos” eram selecionados para trabalhar nos campos, os outros “tragados pela
noite”. Nesta escolha, rápida e sumária, decidia-se sobre destinos das vidas nuas
que ali ingressavam. Nem sempre foi este o critério, segundo o autor, em outras
oportunidades abriam-se as portas dos dois lados dos vagões, sem aviso ou
instruções aos ingressos, aqueles que casualmente desceram pelo lado “certo”
entravam no campo, os demais iam à câmara de gás. Em outra oportunidade, o
autor questiona-se sobre o destino de um detento que no momento da seleção
encontrava-se na sua frente da fila. Não compreendia porque o suboficial da SS
selou a morte como destino àquele homem, pois afinal de contas ele não se
assemelhava a um muçulmano, ao contrário, era robusto e jovem. LEVI explica que
o exame é rápido e sem critério, afinal o essencial à administração do campo não é
quem eliminar, mas apenas que surjam logo vagas na percentagem prefixada
308.
Os exemplos históricos trazidos por Primo LEVI apresentam a vida nua do
detento submetida e exposta completamente ao simples arbítrio do agente nazista,
no momento representante do poder soberano. É na decisão deste, na pura decisão,
que o destino daquele está confiado. A máxima exposição aí verificada é suficiente
para demonstrar que não adianta qualquer categoria jurídica, moral, religiosa, ou
qualquer outra – afinal se está em um limiar no qual estes conceitos são todos
indistinguíveis –, para garantir a sobrevida necessária àquele homem sacro, àquele
detento recém ingresso, ou àquele Häftling que participou da seleção momentos
antes que LEVI. A matabilidade a que este indivíduo se encontra sujeito é
decorrente da decisão em sua forma mais pura.
Não há qualquer necessidade de fundamentação. Não há sequer qualquer
necessidade de critério. A simples decisão é suficiente para traçar o destino daquele
detento. A impunidade desta decisão garante que esta na sua essência seja
suficiente para se validar no mundo fático, para se tornar efetiva. A sua efetividade
lhe é inerente. As reações daí decorrentes são objeto de análise. Afinal se
oportuniza a verificação da máxima proferida por AGAMBEN, todos são homines
sacri, sujeitos ao arbítrio do soberano, à decisão do seu agente, o que por sua vez
enseja conseqüências imediatas entre os detentos, afinal “já não é o caso de se
poupar um ao outro e de ter escrúpulos supersticiosos”
309.
A decisão em sua forma pura não é verificada apenas no espaço de anomia
resultante do estado de exceção. O momento inaugural, quando se define e se dá
contornos à necessidade que põe em risco o ordenamento, cuja manutenção
demanda a sua própria suspensão, portanto, quando se instaura o estado de
exceção também revela a decisão em sua essência. No que Carl SCHMITT afirma:
“a decisão sobre a exceção é, em sentido eminente, decisão, pois uma norma geral,
como é apresentada pelo princípio jurídico normalmente válido, jamais pode
308
LEVI, Primo. É isto um homem? p. 18 e 130-131.
309LEVI, Primo. Idem. p. 130.
compreender uma exceção absoluta e, por isso, também, não pode fundamentar, de
forma completa a decisão de que um caso real, excepcional”
310Em outras palavras, na medida em que o soberano caracteriza-se
exatamente pelo monopólio de decisão sobre a necessidade ou não de instaurar o
estado de exceção, é ele quem vai definir e decidir se a situação que rodeia o
ordenamento é suficiente ou não para lhe ameaçar a ponto de que seja crível a sua
suspensão para salvaguardá-lo. Esta decisão também não possui princípios e
parâmetros pré-fixados por alguma letra de lei ou por qualquer outra categoria
valorativa ou axiológica. A decisão é exarada do âmago do soberano, a partir de
seus critérios próprios, para os quais inexiste contornos pré-estabelecidos. Trata-se
de mais um exemplo da decisão em seu caráter puro. Assim, AGAMBEN vai
concordar com SCHMITT ao afirmar que uma das principais contribuições do estado
de exceção é revelar a pureza absoluta da decisão tal qual um elemento formal:
Na Politische Theologie, ao contrário, o operador da inscrição do estado de exceção na
ordem jurídica é a distinção entre dois elementos fundamentais do direito: a norma (Norm) e
a decisão (Entscheidung, Dezision), distinção que já fora enunciada no livro de 1912,
Gesetz und Urteil. Suspendendo a norma, o estado de exceção “revela” (offenbart) em
absoluta pureza um elemento formal especificamente jurídico: a “decisão” (...). Os dois
elementos, norma e decisão, mostram assim sua autonomia
311.
Afirmar que o soberano ao instaurar o estado de exceção define aquilo que
ameaça o ordenamento, é o mesmo que dizer que a aplicação do ordenamento
jurídico necessita de um meio homogêneo para sua aplicação, enquanto a
anormalidade cria a ameaça que lhe impõe a auto-suspensão. Ou seja, há a
necessidade de criar uma situação “normal” que permita a aplicação das regras, do
contrário, compete ao soberano suspendê-las para salvaguardá-las. Neste momento
as categorias trabalhadas por Carl SCHMITT, Michel FOUCAULT e Giorgio
AGAMBEN convergem e podem ser tensionadas em uma mesma direção. Ao menos
é o que ora se propõe.
SCHMITT expõe que o “direito é situacional”, isto é, a regra não se aplica ao
caos, havendo a necessidade de um meio homogêneo, de uma normalidade fática
para possibilitar a vigência do ordenamento. Compete ao soberano criar e garantir
310
SCHMITT, Carl. Teologia Política. p 7.
esta situação de normalidade, afinal em si repousa o monopólio da última decisão,
daquela que implica na suspensão integral de toda a ordem jurídica
A norma necessita de um meio homogêneo. Essa normalidade fática não é somente um
“mero pressuposto” que o jurista pode ignorar. Ao contrário, pertence à sua validade
imanente. Não existe norma que seja aplicável ao caos. A ordem deve ser estabelecida
para que a ordem jurídica tenha um sentido. Deve ser criada uma situação normal, e
soberano é aquele que decide, definitivamente, sobre se tal situação normal é realmente
dominante. Todo Direito é “direito situacional”. O soberano cria e garante a situação como
um todo na sua completude
312.
Em sentido bastante semelhante, Michel FOUCAULT apontou que, por volta
do século XVI, passou a ser exigido do poder soberano algo além do que o simples
exercício da soberania, havia uma demanda precisa pelo governo, entendendo esta
categoria como condução dos indivíduos, e não simplesmente política de Estado ou
gestão governamental
313. Portanto, àquele poder de fazer morrer e deixar viver,
característico do soberano, adere esta especificidade da forma de governo, da
construção de condutas, da subjetivação de indivíduos. Trata-se de um determinado
momento histórico em que os Estados buscam maximizar suas forças através da
autolimitação externa e da maximização interna de poder. Quando a população
aparece como objeto de poder, alvo de regulamentações (biopoder) – não se
poderia esquecer a vigilância (disciplina), se considerado o corpo de modo individual
– para ser analisada como massa viva suscetível às conduções pretendidas pelo
soberano detentor das técnicas de governo.
A regulamentação e a vigilância, técnicas de poder utilizadas pelo governo
para produção de subjetividades, para condução da vida, servem para criação da
situação normal e homogênea exigida para aplicação e vigência do ordenamento
jurídico – aqui entendido não como simples conjunto de regras, mas também como
as demais decisões regulamentares exaradas pelo soberano. Assim, se “a aplicação
da norma necessita de um meio homogêneo”, conforme afirma Carl SCHMITT, as
técnicas de poder apresentadas por Michel FOUCAULT, reunidas na sua idéia de
“governamentalidade”, estão à disposição do soberano para criar este ambiente,
esta situação normal para vigência do ordenamento.
312