2.1. A produção narrativa inglesa no medievo
2.1.2. Uma rede textual: as influências presentes na obra de Chaucer
Um aspecto fundamental ao se discutir a produção narrativa medieval refere-se à autoria. Se grande parte dessa provém da tradição oral, não se poderia, então, identificar autores. Para Genet, a fluidez do texto medieval dificulta pensar na figura do autor. Este não passa de um ator no processo de produção textual, já que cada cópia do mesmo texto é um texto diferente, por diversas influências. O texto, portanto, nunca está pronto. 130
A obra, por sua vez, é apenas uma possibilidade de realização de um tipo de texto. O manuscrito é, assim, uma obra mutante. Para Genet, a noção medieval de autoria gira em torno dos conceitos de criação e autoridade. Como no caso bíblico, não está em jogo quem escreveu
128 SIMPSON, James. “Chaucer’s presence and absence, 1400-1550”. In: BOITANI, Piero & Mann, Jill (eds.). The Cambridge Companion to Chaucer. 2nd ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2003, p. 263-264. 129 A fim de facilitar o acompanhamento do leitor, apresentamos nas notas extratos em prosa da tradução da Tales publicada por Paulo Vizzioli, com indicação de edição e página, fazendo traduções próprias quando uma maior clareza de sentido se faz necessária. CHAUCER, Geoffrey. Os Contos de Cantuária, Paulo Vizioli (trad.). São Paulo: T.A. Queiroz, 1988.
130 GENET, Jean-Philippe. “Acteurs”. In: La genèse de l'Etat moderne. Culture et société politique en Angleterre, Paris, PUF, 2003.
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cada livro, mas a autoridade que os inspirou, Deus. Assim, somente a partir de Dante, uma noção de autoria mais próxima da moderna seria definida.
À época de Chaucer, a identificação da autoria já se encontrava mais difundida, embora não implicasse em uma escritura de todo original, tratando-se as obras muitas vezes de adaptações de textos latinos existentes, de histórias recorrentes na tradição oral, etc. Como afirma Gonçalves,
O autor é primordialmente um produtor, mas não necessariamente um criador, ou, pelo menos, não um criador no sentido que mais tarde este termo viria a ter, que o vincula a uma invenção puramente, ou principalmente, pessoal e subjetiva. 131
Genet, entretanto, afirma ainda que nesse período a figura do poeta já apresentava na Inglaterra uma posição social definida, galgada por sua postura retórica, seu estilo discursivo e seus desenvolvimentos narrativos. Porém, ao observar o caso de Geoffrey Chaucer, constatamos que este só aparece nos registros devido aos seus cargos a serviço da Coroa, sendo apenas reconhecido como autor em suas próprias obras e por autores posteriores.
Ainda pensando em questões ligadas à autoria, pode-se considerar, seguindo Zumthor, que existiria nessa literatura uma forte intervocalidade,132 percebida com mais evidência devido à proximidade tanto temporal quanto física entre os autores, o que remonta à tradição oral por eles compartilhada. É com as palavras do próprio Chaucer que podemos entender tal dinâmica:
As thus: ye woot that every Evaungelist That telleth us the peyne of Jhesu Crist Ne seith nat alle thing as his felawe dooth; But nathelees his sentence is al sooth, And alle acorden as in hire sentence, Al be ther in hir tellyng difference. 133
Embora Chaucer estivesse se referindo aos diferentes evangelhos, o mesmo relacionamos às histórias compartilhadas e contadas por diferentes autores. Há diferentes versões de uma mesma história, o que não significa que cada uma delas não seja contada com
131 GONÇALVES, Sínval Carlos Mello. Na medida do impossível: O cavaleiro além da cavalaria nos romances de Chrétien de Troyes (1165-1191). Tese (Doutorado em História Social) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2004, pp. 94-95.
132 ZUMTHOR, op. cit., 1993, p. 145.
133 SIR THOPAS, 955-962, p. 216. “Mas isso é compreensível, como bem o demonstra o caso dos evangelistas que escreveram sobre os sofrimentos de Jesus Cristo. Nenhum deles, como sabem, diz sempre exatamente o mesmo que o outro, o que não impede que todos falem a verdade, pois, se há discrepâncias em pontos menores, todos estão de acordo quanto ao sentido geral” (CHAUCER, 1988:107).
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veracidade. Dessa forma, é preciso considerar tal texto sob um contexto mais amplo da produção poética inserida na sociedade medieval, que difundia algumas das concepções arraigadas na Cristandade. Tal noção é fundamental para analisarmos as influências presentes na obra do autor.
A influência do pensamento cristão na sociedade medieval inglesa encontra-se refletido, de forma abrangente, na produção narrativa do período. À época de Chaucer, as narrativas bíblicas eram conhecidas tanto pelos letrados, que podiam acessar os manuscritos, quanto pelos iletrados, que tinham acesso aos sermões, às pregações e às peças de cunho religioso. A educação formal, em geral, começava e terminava com a Bíblia em latim. Os meninos eram alfabetizados lendo os Salmos, e era exigido dos alunos universitários que debatessem os temas bíblicos para que pudessem se formar.134 Além disso, as ilustrações de temas bíblicos multiplicavam-se nas paredes, nos murais, nos vitrais e nas esculturas das igrejas. No período medieval, os livros canônicos já haviam sido estabelecidos. A parte mais extensa, o Antigo Testamento, teve seus textos extraídos das escrituras hebraicas, consistindo basicamente na Lei e nos profetas. Entre seus livros estão os cinco que compõem o Pentateuco, que trata da criação, da lei e do povo escolhido, os livros proféticos, em que se anuncia a vontade de Deus, e alguns livros históricos e de sabedoria, assim como os Salmos. Ao separar-se do Judaísmo, a Igreja reuniu uma nova coleção de livros, o Novo Testamento, fixado em 27 livros pelo Papa Dâmaso I. Entre estes estavam os quatro evangelhos, que narram a vida de Jesus, as cartas de Paulo e outros, exortando os novos fiéis, os Atos dos Apóstolos, que relatam a vida dos primeiros cristãos, e o Apocalipse, narrando a revelação de João.
Na leitura cristã, o Antigo Testamento prepara o Novo Testamento, ou seja, a narrativa da aliança de Deus com seu povo escolhido prepara seu próprio clímax, a salvação na figura de Cristo. Assim, Antigo e Novo Testamentos, reunidos, narram a completa história da salvação. Como seus contemporâneos, Chaucer retoma ambos em sua narrativa poética. No entanto, encontramos referências aos textos em língua vernácula, o que leva muitos estudiosos a considerar a influência da Bíblia de Wycliffe135 na obra de Chaucer.
Condenada oficialmente apenas em 1409, após a morte de Chaucer, a primeira tradução completa da Bíblia para o inglês médio jamais havia sido aceita pela Igreja, não apenas pelo uso da língua vernácula, o que restringia o monopólio dos eclesiásticos, mas também
134 EDDEN, Valerie. “Bible”. In: ELLIS, Steve (ed.). Chaucer: An Oxford Guide. Oxford: Oxford University Press, 2005.
135 Como visto anteriormente, Wycliffe defendia um acesso direto às Escrituras, não dependendo do intermédio e da interpretação do clero. Com este fim, promoveu a tradução da Vulgata para a língua vernácula.
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porque não apresentava a glosa, os comentários extraídos dos Doutores da Igreja e que constituíam, portanto, a interpretação oficial dos textos bíblicos. Wycliffe e os lolardos acreditavam que todos deveriam ter acesso às Escrituras e o direito de interpretá-las. Chaucer, por sua vez, ao escrever em inglês médio tornava mais amplo o acesso aos seus textos. No entanto, este fator não permite a asserção de que o autor tivesse recorrido à tradução de Wycliffe a fim de inserir referências bíblicas em seu texto. Na verdade, em The Canterbury Tales, a definição de lolardo aparece como uma característica negativa.
Oure Host answerde: “O Jankin, be ye there? I smelle a Lollere in the wynd”, quod he.
“Now! good men,” quod our Host, “herkenth me; Abydeth, for Goddes digne passioun,
For we schal han a predicacioun;
This Lollere heer wil prechen us somwhat.” 136
Voltamo-nos agora para as referências bíblicas encontradas ao longo da obra. Seria muito complexo quantificar com exatidão todas as referências bíblicas utilizadas por Chaucer, já que, por diversas vezes, elas estão implícitas ou fazem apenas alusão a temas e personagens bíblicos, e não a passagens propriamente ditas. Desse modo, propomo-nos a nos ater às principais referências encontradas na voz do narrador e de seus peregrinos.
A figura bíblica mais citada ao longo de The Canterbury Tales é Salomão. Sua sabedoria e seus conselhos são exaltados em diversos contos da obra. Entre diversas outras referências, apenas no Conto de Chaucer sobre Melibeu há 42 citações diretas a Salomão. Neste conto, o Chaucer-peregrino narra a história de Melibeu, um homem cuja casa foi invadida por inimigos invejosos que agrediram sua esposa e mataram sua pequena filha. Após este incidente, Melibeu quer se vingar dos agressores, mas sua esposa Prudência procura dissuadi-lo de tal intento, recorrendo para isso a diversas autoridades, entre elas Salomão.
“Lat calle,” quod Pudence, “thy trewe frendes alle and thy lynage whiche that been wise. Telleth youre cas, and herkneth what they seye in conseillyng, and yow governe after hire sentence./ Salomon seith, ‘Werk alle thy thynges by conseil, and thou shalt never repente”. 137
136 THE EPILOGUE OF THE MAN OF LAW’S TALE, 1172-1177, p. 104. “O Albergueiro retrucou: ‘Oi, Jankin! É você que está aí, padreco? Sinto o cheiro de um fanático no ar.’ E voltando-se para os outros: ‘ Atenção, boa gente! Prestem todos atenção. Pela Santa paixão de Cristo, esperem, porque agora vamos ouvir uma prédica. Este lollard aqui quer nos fazer um sermão’”. (CHAUCER, 1988:88).
137 THE TALE OF MELIBEE, 1001-1002, p. 218. “Convoca’, disse Prudência, ‘todos os teus amigos verdadeiros e teus parentes mais sábios, conta-lhes o teu infortúnio, e ouve o que têm para te aconselhar, seguindo então a sua orientação. Diz Salomão: ‘Pede conselho em tudo o que fizerdes, e nunca te arrependerás’”. (CHAUCER, 1988:109).
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Salomão aqui reflete a sabedoria daquele que não se deixa levar pelas fortes emoções e sabe esperar e se aconselhar para tomar a melhor decisão. Na voz de Dona Prudência, o sábio rei é ainda exemplo de perdão, reconciliação e paciência, assim como Jó, que também é citado algumas vezes por sua paciência. Também no Conto do Moleiro o mesmo versículo é retomado na voz do jovem Nicholas: “For thus seith Salomon, that was ful trewe:/ ‘Werk al by conseil, and thou shalt not rewe’”.138 No entanto, neste caso o jovem tenta enganar seu anfitrião a fim
de deitar-se com sua esposa. É com este intento que aparece na narrativa outra importante referência do Antigo Testamento, o dilúvio e a arca de Noé, presente no livro do Gênesis.
Para enganá-lo com sua mulher, Nicholas convence John de que foi avisado em sonho sobre um segundo dilúvio e que devem preparar três barris para que John, sua esposa e ele possam se salvar.
“Now John”, quod Nicholas, “I wol nat lye I have yfound in my astrologye,
As I have looked in the moone bright, That now a Monday next, at quarter nyght, Shal falle a reyn, and that so wilde and wood That half so greet was nevere Noes flood. This world”, he seyed, “in lasse than an hour Shal al be dreynt, so hidous is the shour.
Thus shal mankynde drenche, and lese hir lyf.”139
Nicholas aqui joga com o desconhecimento de John dos detalhes da narrativa bíblica do dilúvio, pois esta termina com o surgimento do arco-íris como sinal da promessa de Deus de que o mundo nunca mais veria um dilúvio como aquele.
Outra importante referência presente na obra é o pecado de Adão e Eva. Esta história é contada e recontada pelos peregrinos, entre os quais, Chaucer, o Monge e o Pároco, seja como exemplo da tragédia humana ou da tendência ao pecado.
Adam oure fader, and his wyf also, Fro Paradys to labour and to wo Were driven for that vice, it is no drede. For whil that Adam fasted, as I rede, He was in Paradys; and whan that he
138 THE MILLER’S TALE, 3529-3530, p. 72. “..., como dizia Salomão, que falava sempre a verdade: ‘Siga os conselhos e nunca se arrependerá’”. (CHAUCER, 1988:54).
139 Idem, 3513-3521. “‘Nesse caso, John’, continuou Nicholas, ‘não vou mentir para você. Descobri, por meio de minha astrologia, enquanto examinava a lua nova, que agora, na próxima segunda-feira, um pouco antes do amanhecer, vai cair uma chuva tão pesada e violenta que, comparado com ela, o dilúvio de Noé não chegou nem à metade. O Mundo’, prosseguiu ele, ‘em menos de uma hora ficará inundado, tão terrível será a tempestade; e a humanidade inteira vai se afogar e morrer’”. (CHAUCER, 1988:54).
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Eet of the fruyt defended on the tree, Anon he was out castto wo and peyne. O glotonye, on thee wel oghte us pleyne! 140
A fim de conferir autoridade ao seu sermão contra a gula, o Vendedor de Indulgências confere a Adão e Eva este pecado. Outro texto bíblico utilizado contra este pecado são as Epístolas de São Paulo: “Of this matiere, O Paul, wel kanstow trete:/ ‘Mete unto wombe, and wombe eek unto mete,/ Shal God destroyen bothe,’ as Paulus seith”. 141
Paulo é retomado em diversos outros contos e temas, mas chama atenção sua apropriação pela Mulher de Bath. Alison é uma tecelã que já foi casada cinco vezes e que espera ansiosamente pelo sexto marido. Em seu prólogo e conto, ela procura persuadir a companhia quanto às maravilhas do matrimônio e a importância de se deixar a mulher estar à frente das decisões. Para tanto, Alison lança mão de diversos textos bíblicos que se referem ao casamento como as Bodas de Canaã, o episódio da Samaritana, Salomão e suas esposas e o famoso versículo do Gênesis, “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1,28). No entanto, é a utilização das Epístolas de São Paulo que se destaca, uma vez que ela tanto procura validar sua posição quanto vai de encontro ao que diz o Apóstolo.
Wher can ye seye, in any manere age, That hye God defended mariage By expres word? I pray yow, telleth me. Or where commanded he virginitee? I woot as wel as ye, it is no drede,
Th’apostel, whan he speketh of maydenhede, He seyed that precept therof hadde he noon. Men may conseille a woman to been oon, But conseillying is no comandement. He putte it in oure owene juggement; For hadde God comanded maydenhede,
Thane hadde he damped weddyng with the dede. Poul dorste nat comanden, ate leeste,
A thing of which his maister yaf noon heeste. 142
140 THE PARDONER’S TALE, 505-512, p. 197. “Não duvidem: foi devido a esse pecado que nosso pai Adão e sua mulher foram expulsos do Paraíso para uma vida de trabalho e sofrimento. Enquanto Adão jejuava (segundo o que tenho lido), permaneceu ele no reino do Éden; mas, assim que comeu do fruto proibido, foi condenado a viver de suores e prantos. Oh gula, é mais que justo o nosso lamento”. (CHAUCER, 1988:244-245).
141 Idem, 521-523. “São Paulo abordou muito bem o tema, declarando: ‘Os alimentos são para o estômago, e o estômago para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como aquele.’” (CHAUCER, 1988:245).
142 THE WIFE OF BATH’S PROLOGUE, 59-74, p. 106. “Eu gostaria que me mostrassem onde e quando Deus altíssimo condenou expressamente o matrimônio. Digam-me, por favor. E onde ordenou Ele a virgindade? Sem dúvida, sei tão bem quanto vocês que, quando o Apóstolo Paulo falou da virgindade, reconheceu não ter qualquer preceito sobre o assunto: pode-se aconselhá-la às mulheres. Mas aconselhar não é o mesmo que ordenar. Na verdade, ele a deixou a nosso critério. Mesmo porque, se Deus tivesse imposto a castidade, teriam com isso automaticamente proibido o casamento; e se a semente não pudesse ser plantada, como é que a virgindade iria crescer? De modo algum o Apóstolo ousaria exigir uma coisa que não tivesse sido determinada pelo seu Senhor.” (CHAUCER, 1988:138).
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Nesta passagem, a Mulher de Bath apropria-se do discurso paulino a fim de justificar sua necessidade de estar sempre casada. Em I Coríntios 7, 27-28, Paulo diz: “Estás casado? Não procures desligar-te. Não estás casado? Não procures mulher. Mas, se queres casar-te, não pecas; assim como a jovem que se casa não peca. Todavia, padecerão a tribulação da carne; e eu quisera poupar-vos”. Desse modo, Alison pode demonstrar que não está pecando ao casar- se novamente após a morte de seus maridos, já que Deus nunca condenou o matrimônio. No entanto, ela também discorda do Apóstolo quando a palavra deste é contrária à sua vontade.
And seye thise wordes in the Apostles name? “In habit maad with chastitee and shame Ye wommen shul apparaille yow,” quod he, “And noght in tressed heer and gay perree, As perles, ne with gold, ne clothes riche.” After thy text, ne after thy rubriche, I wol nat wirche as muchel as a gnat. 143
Aqui podemos claramente compreender sua oposição ao texto de Paulo na I Timóteo 2,9. Alison, sendo tecelã e herdeira de cinco maridos, apreciava vestir-se com suas vestes vermelhas e sapatos muito bem ornados, e não julgava ser isso um pecado. Portanto, era a primeira nas filas em sua paróquia e não havia mulher que ousasse passar a sua frente. Alison lança mão ainda de outras autoridades, que não nos caberá agora discutir.
Há diversas outras referências aos evangelhos e às epístolas do Novo Testamento em outros contos, como a multiplicação dos pães em São Marcos e a sabedoria de Deus na Epístola de São Tiago. No entanto, voltar-nos-emos agora para a presença dos clássicos latinos na obra de Geoffrey Chaucer.
Ao discutir as estratégias de persuasão de Afonso X na Primeira Partida, Carla Barros apresenta três eixos de argumentação para a justificação da lei, a argumentação baseada em uma autoridade, em um modelo e em uma comparação. Interessa-nos, então, pensar na argumentação por autoridade. Para a autora,
A argumentação assente na autoridade divina ou na das Escrituras deve a sua eficácia ao facto de não ser questionável, à ausência de contra-discursos; ela é em si prova
143 Ibidem, 341-347, p. 109. “(…), reforçando essa afirmação infeliz com a citação destas palavras do Apóstolo: ‘Da mesma sorte que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso.’ Dou menos importância que um mosquito a esse seu texto e às suas ordens”. (CHAUCER, 1998:142).
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suficiente, é prova apodíctica, baseada em raciocínios que não necessitam de ser demonstrados porque emanam do Ser infalível, perfeito. 144
No entanto, como vimos no caso da Mulher de Bath, essa autoridade é, por vezes, questionada. Ainda assim, esta demonstra ser a estratégia de justificação mais eficaz. De forma semelhante, prova ser eficaz a argumentação baseada na autoridade dos clássicos, “nomeadamente os que são traduzidos do hebraico, do grego e do latim, línguas consideradas primitivas, de próxima origem adâmica, e acedendo, por esse facto, a um certo estatuto de perfeição”.145 Inúmeras são as menções aos autores clássicos ao longo da narrativa de Chaucer.
O latim dominava a tradição clássica, uma vez que o grego não era tão bem conhecido no ocidente medieval. Segundo Helen Cooper, os gregos mais conhecidos eram Aristóteles e Platão, entre alguns outros filósofos.146 Logo, estes não poderiam estar fora do escopo utilizado por Chaucer. O Filósofo, Aristóteles, é mencionado diversas vezes pelos peregrinos, assim como Platão.
Crist spak hymself ful brode in hooly writ, And wel ye woot no villeynye is it. Eek Plato seyth, whoso kan hym rede, The words moote be cosyn to the dede. 147
Aqui Platão, ao lado de Cristo, aparece na voz do narrador a fim de justificar a necessidade de contar todas as histórias assim como foram narradas pelos peregrinos. Uma autoridade incontestável para justificar a narrativa que se vai desenvolver. Os clássicos gregos, entretanto, aparecem de forma menos extensa. Abundavam, por outro lado, as referências aos clássicos latinos.
Entre os mais citados em The Canterbury Tales está Sêneca, que em apenas um dos contos, o Conto de Chaucer sobre Melibeu, é mencionado 17 vezes por Dona Prudência como exemplo de prudência e bom conselho.
144 BARROS, Clara. Convencer ou persuadir: análise de algumas estratégias argumentativas características do texto da Primeyra Partida de Afonso X. In: Cahiers de linguistique hispanique médiévale. Nº 18-19, 1993, p. 408. 145 Ibidem, p. 408.
146 COOPER, Helen. “The classical background”. In: ELLIS, Steve (ed.). Chaucer: An Oxford Guide. Oxford: Oxford University Press, 2005.
147 GENERAL PROLOGUE, 739-742, p. 35. “O próprio Cristo usou de linguagem franca nas Santas Escrituras; e não me consta que haja ali qualquer imoralidade. Também Platão afirmou, para os que podem lê-lo, que as palavras