4 IMAGINAÇÃO: UMA FUNÇÃO MENTAL SUPERIOR
4.3 UMA REFLEXÃO SOBRE O CONCEITO DE GEGENSTAND
A Psicologia Cultural Semiótica considera a existência não apenas de eventos reais, ou seja, tangíveis que já existem no plano presente, como também considera relevante a compreensão daquilo que está a ser vivido, e assim destaca a importância da imaginação, uma vez que é a função mental que permite aos seres humanos agirem com base em suas expectativas de futuro. É por meio da imaginação que se torna possível significar eventos, pessoas, objetos e situações, que nem sempre são concretos, mas, ainda assim, guiam as relações do sujeito no mundo.
Com isso a tradição da Gegenstandtheorie, surgida em Graz no começo do século 20, mostra-se relevante para a construção de uma teoria que avance metodologicamente e consiga compreender os fenômenos psicológicos que se desenvolvem no tempo, e requerem a elaboração de planos futuros (VALSINER, 2014b). Alexius Meinong foi o criador do conceito de Gegenstand, e defendia a perspectiva de que todos os fenômenos psicológicos emergem do encontro humano com os objetos. A ênfase de Meinong recaiu ainda sobre os objetos que não existem, ou seja, não são passíveis de tangibilidade, como é o caso das noções abstratas de patriotismo, justiça, igualdade, liberdade, amor etc. Embora esses conceitos não possam ser vistos ou tocados, a sua subsistência é crucial para a organização da psique humana, e claramente regulam as ações dos sujeitos no mundo (VALSINER, 2014b).
É importante considerar que os sujeitos podem agir com base em suas experiências passadas, mas também podem agir com base em sua expectativa de futuro, a exemplo; estudar uma graduação para no futuro obter um diploma e exercer determinada profissão; investir no mercado de ações para no futuro obter retorno financeiro, etc. (VALSINER, 2014b). Essas e tantas outras ações mostram que os sujeitos significam e se relacionam com objetos/pessoas/situações mesmo que esses não estejam concretos no presente. Muitas ações humanas que se desenrolam no presente, estão focadas no futuro imaginado.
O conceito de Gegenstand aponta para a ideia de que tudo aquilo que nos circunda, seja tangível ou não, é passível de significação. Isso porque o sujeito intencionalmente age sobre os objetos/pessoas/situações de modo a significá-los, é esse processo de significação que é afetivo,
relacional, contextual e intencional que faz com que tais objetos/pessoas/situações ganhem valor para o sujeito e com isso se transformem em Gegenstand.
Em termos de processos psicológicos, uma vez que os objetos são investidos pelas pessoas indo em direção a eles (intencionalidade) tornam-se Gegenstand e adquire algumas propriedades relacionais específicas em relação ao agente. Este é o processo que permite a constituição de objetos não existentes (como liberdade, papai-noel, raça, pátria, etc) como coisas existentes que podem exercer alguma ação sobre o mundo através da ação intencional do agente de anexar sentimentos específicos a eles (TATEO, 2018a, p. 10, tradução nossa).
É pertinente considerar que no processo de significação, a transformação do Gegenstand necessariamente implica em conceber esse objeto como possuidor de resistências (ver item 4.4), ou seja, ele contra reage ao processo de significação. Comumente ao significar uma coisa/pessoa/situação o sujeito imagina quais as possíveis reações desse objeto significativo, e as resistências não se resumem em oposição, são simplesmente um aspecto que complementa a significação atribuída e, portanto, podem ser do Gegenstand como também podem ser antecipadas imaginativamente pelo sujeito no ato de significar.
O conceito de Gegenstand foi retomado por Valsiner (2014a) e posteriormente por Tateo (2017), a fim de explicar que o processo de construção de significados é afetivo e intencional, pois os seres humanos criam Gegenstands porque, de acordo com Valsiner (2014a) nossa ação humana integra o ato anatomofisiológico de ver, ao ato intra e interpsicológico de ver em acordo com nossas expectativas e emoções.
4.3.1 Considerações sobre o “ver” e o “ver como”
Quando Tateo (2017) inspirado nas ideias de Valsiner (2014a) retoma o conceito de
Gegenstand para explicar o processo de construção de significados, pelo qual os sujeitos
transformam coisas/pessoas/situações em objetos significativos, ele explica que essa transformação só é possível mediante a nossa capacidade de “ver como”, que consiste em ver atribuindo sentido, valorando, por meio de nossas experiências prévias, afetos e perspectivas de futuro.
A distinção entre o “ver” e “ver como” foi uma proposição feita inicialmente por Wittegenstein, que concluiu que existe o ato sensorial “ver” e o ato interpretativo de “ver como”, que consiste na nossa atribuição de significados a partir do estabelecimento de uma relação especial com o objeto. O “ver como” implica em um ato de vontade, onde o sujeito seleciona alguns aspectos do objeto, ignora outros e constrói um significado. O “ver como” está
imbuído de intencionalidade, hábitos, preconceitos, experiências prévias e expectativas de futuro (TATEO, 2018a).
Considere esse exemplo hipotético: estou caminhando na rua vejo uma criança sozinha com as vestes sujas, eu posso vê-la como uma órfã que mora nas ruas e precisa de cuidados. O que me fez interpretar que a menina seria uma órfã, são as minhas experiências passadas, meus afetos e o contexto cultural no qual estou inserida que preconiza que as crianças não devem estar nas ruas desacompanhadas de adultos. Com isso, o “ver como” é necessariamente contextual, cultural e afetivo (TATEO, 2017).
Tateo (2017) argumenta que o processo de significação ocorre em 3 níveis: o primeiro é sensorial; usando o exemplo acima, eu apenas vejo uma criança na rua, o segundo nível consiste na atribuição de sentido (vejo a criança como órfã abandonada) e o terceiro envolve uma antecipação de reação desse objeto significado; eu posso imaginar que essa criança se aproximará de mim e pedirá comida, dinheiro, etc.
Quando eu significo aquela criança sozinha na rua, ela passa a ser para a mim um
Gegenstand, quando eu imagino que ela pode me abordar para pedir comida ou dinheiro, eu
antecipo as resistências desse Gegenstand, ou seja, sua contra ação (ver item 4.4). Entretanto é pertinente considerar que não existe necessariamente uma relação de causalidade entre “ver como” e agir, pois se trata de um processo de significação dirigido ao futuro.