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4. ANÁLISE DO PERFIL DA ORGANIZAÇÃO INOVADORA –

4.1. UMA SÍNTESE DO SETOR HOSPITALAR DE SALVADOR

Atualmente, no Brasil, os hospitais possuem grande diversidade de aspectos que os caracterizam de formas diferenciadas. Em relação à propriedade, existem os hospitais privados e os públicos, que integram o Sistema Único de Saúde (SUS), além das organizações sem fins lucrativos, que podem, ou não, integrar a rede SUS (SOUZA, 2003). O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado na década de oitenta e se baseia na garantia da universalidade dos serviços de saúde, preconizada pela Organização Mundial da Saúde, OMS (MARINHO, MAC-ALLISTER, 2005 apud JESUS, FILHO e SOUZA, 2006). No Brasil, o Sistema Único de Saúde, SUS, encontra-se dividido em um setor público e outro privado, o que desmistifica a imagem de que o SUS é composto apenas por instituições públicas.

A ampliação da iniciativa privada no setor tem seu ponto de alavancagem na mesma época, pois a legislação instituída em 1988 faculta a livre participação da iniciativa privada, atuando de forma suplementar ao sistema de saúde estatal. Nas últimas duas décadas, foi o setor privado que apresentou uma maior expansão em sua estrutura e nos serviços prestados à população, cobrindo possíveis lacunas deixadas pelo setor público. A tendência atual é que este crescimento se intensifique, aumentando a oferta da assistência privada no Brasil (JESUS, FILHO e SOUZA, 2006).

Um dos fatores que justificam este crescimento é a concentração de profissionais de saúde na rede suplementar. Segundo dados divulgados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (CREMEB) em 2006, existem 12.803 médicos ativos na Bahia, sendo que deste total existem mais de 8.000 atuando em Salvador. Este fato se dá pelos baixos

salários oferecidos no setor público e na falta de infra-estrutura como fator limitador para absorver esta mão de obra.

Um outro aspecto que descreve o crescimento do setor privado é a utilização de economias de escala que permitem a diminuição dos custos da atividade clínica e hospitalar em geral. Isso permite que estas empresas possam cobrir seus gastos fixos através da quantidade de serviços prestados. A alta competitividade do setor da saúde faz com que as organizações adotem a gestão de custos, usando a tecnologia da informação no controle, gerenciamento e tomada de decisão com confiança e credibilidade. Esta variável tem contribuído para o controle das margens de lucro; identificação de serviços e clientes mais lucrativos; avaliação dos custos fixos e variáveis; definição do ponto de equilíbrio, estabelecendo um conjunto de indicadores de desempenho delineadores para tomada de decisões (SOUZA, 2005).

Segundo Silva e Loiola (2003), neste contexto de crescimento do setor, as instituições hospitalares ainda são vistas como organizações conservadoras, nas quais a área gerencial ficava, em certo ponto, relegada a segundo plano, em relação a sua dimensão técnica/assistencial. Segundo Shortell e Kaluzny (2001, apud SILVA e LOIOLA, 2003), são características dos serviços de saúde a dificuldade em definir e mensurar resultados; a imensa gama de operações variáveis e complexas; a natureza emergencial das suas atividades, em um contexto de pouca aceitação a ambigüidades e erros.

Mintzberg (1995) ressalta que os serviços profissionais, como a assistência médica hospitalar, são especializados horizontalmente. O profissional é quem detém o planejamento e controle de sua atividade (controle vertical), sendo especializados em termos de sua execução (por áreas de especialidade médica). Esse tipo de trabalho exige habilidade e conhecimento que não têm como ser submetidos a um controle minucioso. Em função do treinamento e formações prévias, mecanismos fundamentais de coordenação do trabalho profissionalizado, esse trabalhador pode se sentir mais comprometido com as normas da sua profissão do que com os objetivos organizacionais (situação que pode se agravar em hospitais com corpo clínico aberto, ou seja, os médicos não são empregados do hospital). Assim, estabelece-se pouco controle gerencial sobre essa atividade, dando margem à dupla linha de autoridade e problemas de coordenação das atividades.

Entretanto, verifica-se uma tendência cada vez maior para profissionalização e modernização dessas organizações, incorporando, à prestação de seus serviços e a sua coordenação gerencial, técnicas e modelos de gestão que possibilitem melhor qualidade, otimização dos processos e custos reduzidos, com vistas à sua própria sobrevivência (GONÇALVES, 2002 apud SILVA e LOIOLA, 2003).

Outra importante mudança no setor foi o incremento do nível de regulamentação. Principalmente na década de 90, o setor foi bastante afetado pelo aumento de controle estatal. O advento da Lei n° 9. 656/98 e a criação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) acarretaram em maior número de regulamentações, principalmente para as operadoras de planos de saúde que, em decorrência disto, tiveram um aumento de custos operacionais, para cumprimento das novas exigências e garantias ao consumidor (SILVA e LOIOLA, 2003).

As autoras complementam afirmando que grande parte dessas pressões é deslocada para os prestadores de serviços de saúde, pois já não podiam mais ser repassadas integralmente ao consumidor, tanto por restrições legais, por limitações em sua capacidade contributiva ao sistema. A redução dos custos operacionais (ou seja, os valores pagos aos prestadores de serviços de saúde) foi a alternativa vislumbrada por esse segmento, a fim de manter sua sobrevivência. Instrumentos gerenciais como “porta de entrada, auditoria preventiva, pacotes cirúrgicos e de atendimento, redução da rede credenciada, direcionamento de demanda, descontos, parcerias e as já conhecidas glosas” foram algumas das iniciativas tomadas nesse sentido.

Motivadas, ou melhor, impulsionadas pela reconfiguração e crises do setor, instituições hospitalares privadas localizadas em Salvador passaram a se espelhar nos setores mais desenvolvidos em termos de gestão — ou em instituições congêneres mais avançadas — tanto diretamente, pela análise de técnicas de gestão utilizadas, como indiretamente, pelo acesso e recrutamento de profissionais oriundos dessa área e treinamentos externos.

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