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2 CAPÍTULO I: REFERENCIAL TEÓRICO

2.2 CIBERFLÂNEUR

2.2.5 Uma visão negativa

Alguns discursos condenam as TIC, por acreditarem que isolam as pessoas umas das outras (SCHAWB, 2016). Para autores como Schawb, a revolução tecnológica, e as TIC como parte integrante “estão alterando profundamente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos” (SCHAWB, 2016, p.11). Para Ellard (2014),

com o avanço rápido de algumas décadas, muitas coisas mudaram, mas os fundamentos permanecem os mesmos. Se queremos saber como fazer uma cidade melhor, o lugar para começar é ao nível do solo, usando observação e medição, e aplicando o que é conhecido das ciências humanas a essas medições para construir uma visão psicologicamente fundamentada da relação entre o modelo físico de uma cidade e o que acontece lá.46

Alguns autores afirmam que as tecnologias podem “afetar negativamente nossas habilidades sociais e capacidade de empatia” (SCHAWB, 2016, p.103), podem nos privar de momentos de pausa, reflexão e diálogo. Para o escritor de cultura e tecnologia, Nicholas Carr (2011), quanto mais tempo dedica-se às tecnologias, mais tempo é preciso alimentar-se das tecnologias, o que cria um ciclo de dependência: as pessoas tornam-se dependentes de hábitos como checar informações, e-mails ou mensagens privadas porque sentem necessidade de estarem conectadas. Para o autor (2011, p.17-18), ainda, o modo como o cérebro funciona já não é mais o mesmo:

46“Fast forward a few decades, and many things have changed, but the fundamentals remain the same. If

we want to know how to make a better city, the place to start is at ground level, using observation and measurement, and applying what is known of the human sciences to those measurements to build a psychologically grounded view of the relationship between the physical design of a city and what happens there”. (ELLARD, 2014)

61 não se consegue dedicar mais tempo a um livro, como é possível dedicar-se ao ‘navegar’ na internet e ao seu ‘bombardeio’ de notícias. Para ele, as capacidades cognitivas se tornam mais superficiais por não se conseguir controlar a atenção despendida nos novos meios de comunicação.

Ainda em uma visão negativa, Carr (2011, p.17-19) acredita que a internet está aos poucos comprometendo a capacidade de concentração e contemplação dos lugares e das pessoas e tornando maior a dificuldade de apreciar o nosso entorno. O fato de que se consegue mais facilmente ‘se deslocar’ para outro ‘lugar’ através de um celular, faz Sherry Turkle (2012) afirmar que:

Estamos nos acostumando a uma nova maneira de ficar sozinhos juntos. As pessoas querem estar umas com as outras, mas também em outros lugares – conectadas a todos os lugares diferentes em que elas querem estar. As pessoas querem personalizar suas vidas. Elas querem entrar e sair de todos os lugares em que estão porque a coisa que mais importa para elas é o controle sobre onde colocam a sua atenção. Então você quer ir para essa reunião da diretoria, mas você só quer prestar atenção aos ‘pontos’ que lhe interessam. E algumas pessoas pensam que isso é uma coisa boa. Mas vocês podem acabar se escondendo uns dos outros, mesmo que estejam todos constantemente conectados uns aos outros. 47

A possibilidade de se ‘transferir’ para outro ‘lugar’ por meio das mídias digitais pode afastar as pessoas umas das outras, pela simples lógica de que quem se ‘afasta’ não se faz ‘presente’, e isso se aplica às pessoas e aos lugares à nossa volta. Lugares ‘reais’ a que se deixa de apreciar em decorrência da conexão virtual.

As relações sociais e a sociedade vêm mudando por causa das tecnologias, como aponta Carr (2011, p.271), ao dizer que

Embora os usuários iniciais da tecnologia frequentemente sintam as mudanças nos seus padrões de atenção, cognição e memória, à medida que seu cérebro se adapta à nova mídia, as mudanças mais profundas ocorrem mais lentamente, ao longo de várias gerações, conforme a tecnologia passa a impregnar cada vez mais o trabalho, o lazer e a educação – todas as enormes práticas que definem uma sociedade e uma cultura.

47“We're getting used to a new way of being alone together. People want to be with each other, but also

elsewhere — connected to all the different places they want to be. People want to customize their lives. They want to go in and out of all the places they are because the thing that matters most to them is control over where they put their attention. So you want to go to that board meeting, but you only want to pay attention to the bits that interest you. And some people think that's a good thing. But you can end up hiding from each other, even as we're all constantly connected to each other” (Sherry Turkle, 2012).

62 A disseminação e a maneira como são absorvidas as novas tecnologias e a ‘computação ubíqua’ promovem a integração cada vez maior dos computadores – e derivados – ao ambiente humano, “atingindo toda sua complexidade social (ANDRADE, 2012)”.

O Nobel de economia Herbert Simon (1971) explica e relaciona, de maneira simples e de um ponto de vista econômico, o problema que o bombardeamento de informações, da ‘vida digital’, proporciona. O autor exemplifica do seguinte modo: um mundo de muitos coelhos é pobre em alface, já que os coelhos consomem as alfaces por completo e, o contrário, um mundo cheio de alfaces significa a existência de poucos coelhos. Ao as TIC com a quantidade de informações, Simon propõe a mesma lógica, quando se tem muita informação, o que se tem pouco “é bastante óbvio: a atenção de seus usuários” (SIMON, 1971, p. 40). Quanto mais informação se tem, mais dispersa se torna essa atenção e menos profundo é o seu grau. Muitas vezes, neste caso, a única atenção que se dá é à leitura dos títulos do site de notícia e não ao seu conteúdo propriamente. O autor conclui que “a riqueza de informação cria uma pobreza de atenção” (Obra citada, p. 40)48. A abundância de informação, faz com que

seu consumo seja mais ‘superficial’, assim como a sua absorção, por parte do usuário. Essa questão pode levar à seguinte reflexão apontada por Schawb (2016, p.104):

Nosso cérebro, ligado aos instrumentos digitais que nos conectam 24 horas por dia, corre o risco de se tornar uma máquina de movimento perpétuo que requer um frenesi incessante. Não é algo incomum eu conversar com líderes que dizem que não têm mais tempo para fazer uma pausa e refletir, muito menos desfrutar o “luxo” da leitura, nem mesmo um pequeno artigo inteiro.

Desfrutar a leitura não deveria ser um luxo, pois cabe “a cada um de nós que sejamos servidos e não escravizados pela tecnologia” (SCHAWB, 2016, p.105).

Parte da vida urbana acontece no espaço público, suas feiras e encontros entre as pessoas, mas, nos nossos dias, parte disso pode acontecer na internet. Não é mais preciso sair de casa para resolver parte das necessidades domésticas e particulares, bem como para se divertir e se entreter. Em artigo de 2002, Fuão previa que as cidades se encaminhavam para um esvaziamento de seus espaços públicos, para uma fantasmagoria, e que a revolução da informação consistia em substituir a cidade por um aparelho de comunicação – no caso a internet – visto que “o mercado, o fórum, o ágora estão agora dentro de casa, embutidos na TV, na Internet, no telefone. A casa não está mais na rua, mas a rua, dentro de casa” (FUÃO, 2002, p.4). Ainda para o

63 autor, essas mudanças, na organização da cidade, têm impactos físicos dentro da própria arquitetura e na postura sociocomportamental das pessoas.

Lugares públicos tradicionais, como bancos, cinemas, mercados, oficinas, tendem a encolher de tamanho e até desaparecer. Além de dar sumiço na arquitetura, a informática incrementa o controle, inibe o crescimento físico das cidades e dos espaços. Isso significa repressão, retenção. (FUÃO, 2002, p.7)

As transformações do espaço urbano, portanto, estão sendo afetadas em função das novas tecnologias, pois segundo o autor citado,

o espaço urbano é totalmente irrelevante para o telefone, para o celular, o rádio, a televisão e a Internet. Aquilo que os urbanistas chamam de escala humana, de "centralidade", ao discutir os espaços urbanos, está desligado dessas formas elétrico-eletrônicas. Tudo o que eles discutem atualmente em termos de urbanismo, desenho urbano, para mim, já não faz muito sentido (FUÃO, 2002, p.8-9).

Para ele e outros autores, o espaço público tradicional da cidade está desaparecendo, mas, para outros, o espaço pode estar apenas se transformando.

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