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CAPÍTULO III A “OUTRA” VOZ DO RENASCIMENTO

1. Uma voz inquieta

Composta por um vasto leque de trabalhos, que abrangem os quatro géneros literários populares entre o universo humanista do Quattrocento – a epístola, o diálogo, o discurso e a consolatio - a obra de Isotta Nogarola atesta a sua extraordinária erudição, as suas capacidades literárias e a profundidade do seu pensamento, tendo imposto um modelo que seria seguido pelas mulheres letradas que nos séculos seguintes se debateram para poder expressar as suas ideias.

Na sua obra podemos identificar três fases distintas que corresponderão às etapas do seu desenvolvimento intelectual: a da sua juventude, cujos limites temporais podemos situar entre 1434-1440, constituída essencialmente pela sua correspondência humanista trocada com a comunidade intelectual do Vêneto; um período de despertar intelectual que terá decorrido entre 1441-1449, onde Isotta terá tentado reconciliar todos os novos conhecimentos adquiridos, nomeadamente os textos clássicos, bíblicos e patrísticos, os quais até então lhe eram desconhecidos e finalmente a plena maturidade académica, entre 1450-1461, quando a sua escrita revela as suas experiências com os novos géneros literários e com o “seu novo sincretismo do pensamento cristão e pagão”170.

Tal como era usual para qualquer autor que aspirasse a um lugar na res publica litterarum, a coleção das suas cartas em latim circulou entre amigos e conhecidos, os quais copiaram e recopiaram os seus textos, disseminando-os o mais possível171, promovendo aos seus conhecimentos literários e filosóficos, amizades e ideias, assim como as suas capacidades de linguística e retórica clássica. Este também tinha sido o meio utilizado pelos seus antecessores - Petrarca, Salutati, Bruni, Barbaro, Poggio e                                                                                                                

170 NOGAROLA, 2004, p. 9.

171 Na era do manuscrito, antes da disseminação do livro impresso, este tipo de procedimento equivalia a

Filelfo – durante cerca de cem anos de epistolografia humanista, pois apesar de na Itália do século XV o discurso público ser considerado inapropriado para as mulheres, as suas cartas, no entanto, circulavam livremente.

Com exceção de uma carta consolatória (consolatio) enviada a Damiano dal Borgo em 1438, a escrita precoce de Isotta – correspondente à fase inicial do seu desenvolvimento intelectual (1434-1440) – não contem quaisquer citações de textos bíblicos ou patrísticos, mas revela vastos conhecimentos de textos de autores clássicos, como Cícero, Plutarco, Juvenal, Petrónio ou Vergílio.

Apesar de não haver conhecimento da existência de algum trabalho de Nogarola, escrito durante a segunda fase que identificámos (1441-1449), que tenha sobrevivido até aos nossos dias, sabemos que nesse período da sua vida ela se dedicou ao estudo aprofundado de textos bíblicos e patrísticos, juntamente com os clássicos, conforme se pode verificar das inúmeras citações que os seus trabalhos posteriores revelam.

Importa referir também a carta que o humanista veneziano Lauro Quirini lhe endereçou cerca de 1448172, aconselhando a Isotta um programa de estudos que incluía filosofia e retórica, matérias que sempre haviam sido consideradas inúteis para as mulheres. Esta extensa lista compreendia inúmeras obras do corpo aristotélico (representativo do treino de Quirini na Universidade de Pádua) que ia desde a Lógica (Organon) até à Ética e Política e que incluía trabalhos como Magna Moralia, Physica, Metaphysica, De interpretatione e Categoriae, assim como comentários medievais cristãos e islâmicos a Aristóteles (Boécio, S. Tomás de Aquino, Averróis e Avicena)173.

O período compreendido entre 1450-1461 foi sem dúvida a fase mais produtiva da sua carreira humanista. Assim, durante esta terceira fase, existe notícia de que Isotta produziu seis obras principais para apresentação pública, apesar de que apenas cinco delas terem sobrevivido até à atualidade. Com efeito, sabe-se que a humanista italiana compôs um discurso que apresentou no ano de jubileu de 1450 na corte papal de Nicolau V em Roma, texto esse que já não existe.

De pari aut impari Evae atque Adae peccato (Diálogo de Adão e Eva), sobre o qual nos debruçaremos em pormenor no capítulo seguinte terá sido escrito no ano seguinte (1451) e em 1453 Isotta compôs duas obras: um elogio para Ermolao Barbaro quando este foi entronizado como bispo de Verona e uma leitura pública sobre a vida se S. Jerónimo, encomendada à humanista pelo recém-nomeado bispo, para ser                                                                                                                

172 Vide supra, Capítulo II, 2., pág. 46. 173  NOGAROLA, 1886, Vol. II, p. 22.  

apresentada ao povo de Verona. Nestes dois trabalhos ela teve a oportunidade de exibir os seus conhecimentos clássicos e bíblicos adquiridos durante a década anterior.

Já no final da década de cinquenta do Quattrocento, por ocasião do Concílio de Mântua convocado pelo Papa Pio II em 1459, destinado a organizar uma cruzada para libertar Constantinopla, que tinha caído sob o poder dos turcos em 1453, Isotta compôs um discurso apelando à unidade entre os cristãos contra o invasor otomano. Para os humanistas italianos Constantinopla representava o último bastião da cristandade no Oriente e da antiga civilização grega no Ocidente. Assim, o seu discurso é simultaneamente um panegírico do Papa, cuja natureza delicada, misericórdia e clemência ela elogia e um apelo às armas contra os turcos otomanos, a quem ela apelida de “nação selvagem” e “raça maldita de homens”, na mais evangélica e violenta das suas composições, recheada de alusões bíblicas misturadas com reminiscências clássicas de Cícero, Plutarco e Vergílio174.

A última obra composta pela humanista, de que se tem conhecimento, foi uma carta consolatória (Consolatio) escrita para o nobre veneziano Jacopo António Marcello, como ocasião da morte do seu filho de oito anos, Valério, ocorrida a 1 de janeiro de 1461. Após a morte inesperado do seu filho, Marcello decidiu reunir num volume uma coleção de vinte e três textos consolatórios de dezanove autores, para celebrar a vida e morte de Valério. Para além de Isotta Nogarola, o livro contou com os contributos de Francesco Filelfo, poeta da corte do duque Francesco Sforza de Milão, o eminente humanista e secretário papal Niccolò Sagundino e Pietro Perleone, historiador e professor humanista na Scuola di San Marco, entre outros. Considerada como a mais elegante e polida de todas as suas obras, a contribuição de Isotta para o monumento literário que Marcello decidiu erigir ao seu filho, consolidou definitivamente a sua fama entre os autores humanistas do seu tempo.