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UMBANDA: MITO FUNDANTE

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Como os demais mitos, o mito de Ossaim tem grande importância na Umbanda (nas religiões africanas). Para se compreender o imaginário de uma religião específica em sua profundidade é preciso adentrar o seu mito fundante, pois há um número muito grande de bacias de recepção que fazem com que o sentido do mito tenha a capacidade de transcender as suas variações.

No caso da Umbanda faz-se importante compreender o mito de Ossaim tendo em vista que esse mito traz à tona Ossaim como detentor do segredo das ervas sagradas, observando-se também que os demais orixás detêm algum poder sobre algumas delas, tendo sido atribuídas virtudes primordiais a cada uma para aliviarem o sofrimento humano.

O caráter instaurador no mito de Ossaim foi o que levou esta pesquisa a buscar compreendê-lo na sua dimensão simbólica, uma vez que ele traz consigo os motivos pelos quais na Umbanda algumas ervas agem de uma determinada forma e pertencem a um Orixá específico. Cada ewé (folha) tem um axé (poder). Esse elemento natural é revestido de eficácia simbólica mediante a presença dos arquétipos mencionados na narrativa mítica.

A Umbanda utiliza o mito de Ossaim como um mito fundante e incorpora em suas práticas religiosas o uso das ervas como pertencentes a Ossaim (e algumas delas a outros orixás). Existem variações em diferentes narrativas sobre um mesmo personagem mítico. Contudo, existem as perenidades, que são aqueles elementos que permanecem nos mitos e que fazem com que eles estejam presentes em diversos rituais, direta ou indiretamente. Pelo mito de alcança o passado, explicam-se as origens, e se prediz o futuro (PRANDI, 2001, p. 24-25).

Esses mitos são basilares para os rituais que se praticam na Umbanda, pois o seu conhecimento faz parte do cotidiano do terreiro e é repassado por meio de uma relação interpessoal, uma vez que nessa religião “ouvir os cantos, as histórias exemplares e os comentários litúrgicos dos mais velhos é fundamental na perspectiva religiosa. A palavra ocupa um espaço, sendo-lhe atribuído o poder de veicular o axé” (BARROS, 2011, p. 45).

É no momento da transmissão dos mitos que surgem as chamadas variações e perenidades, de modo que o culto aos orixás podem seguir diferentes invocações. “Cada orixá se multiplica em vários, criando-se uma diversidade de devoções, cada qual com um repertório específico de ritos, cantos, danças, paramentos, cores, preferências alimentares, cujo sentido pode ser encontrado nos

mitos” (PRANDI, 2001, p. 24). Essa é outra característica do regime noturno. Abordando o símbolo da lua, Durand (2002, p. 287) expõe que a lua, com suas diversas fases, é “a mãe do plural”, e completa essa ideia falando que as divindades do regime noturno são plurais, possuindo vários nomes e funções.

Na Umbanda, a figura de Ossaim, senhor das folhas, é bastante enfatizada. Segundo a literatura religiosa da Umbanda, é no frescor da madrugada, com os primeiros raios de sol, que Ossaim protege a colheita das ervas, quando Oxalá irradia sua luz cristalina e a expande junto à mãe natureza. Dessa forma Ossaim, regendo a manipulação das ervas sagradas nos rituais de Umbanda, auxilia e protege o filho de fé, que, sob sua proteção, segue o rito de lhe agradar primeiro, colocando na entrada da floresta a sua oferenda para obter uma colheita farta e certa, pois precisará dos ensinamentos de Ossaim para colher as ervas especiais e adequadas, já que algumas trazem a calma, o vigor, a sorte, a glória, as honras e as curas, enquanto outras podem acarretar misérias, doenças e acidentes.

Segundo Saraceni (2002, p. 72-73), a vinculação entre as forças físicas e invisíveis, secundadas pelos orixás e espíritos desencarnados, é praticada em rituais umbandistas diversos, no seu contato com a “Mãe Natureza”, envolvendo todos os elementos naturais, numa proposta de que as matas e ervas emanam uma energia etérea para curas espirituais, pois as árvores, além de purificadoras do ar, são emissoras de fluidos etéreos vivificantes em todas as dimensões terrestres. Por sua vez, as águas das cachoeiras e dos mares limpam a aura humana.

No caso específico da Umbanda, os vegetais são muito importantes e devem estar consagrados aos orixás, conforme se pode observar na Evocação Consagratória, presente no Manual do Umbandista:

Pedimos as Vossas bênçãos neste momento e que Vossas presenças luminosas espalhem sobre nossa cabeça e sobre estas ervas as Sete Luzes Divinas... Fazei com que eles obtenham, pela Vossa bondade, a invocação de Vossos Sagrados Nomes, a saúde do corpo, da alma e tudo o que as necessidades da vida lhes fizerem pedir com Devoção e Fé. (VIEIRA, 2006, p.311).

A fé no princípio mágico ativo presente nas ervas é administrada por aqueles que são dotados de poder para exercer tal função, ou seja, os pais e mães de santos, pois eles cumprem o papel de intermediários entre os pacientes e os orixás e neles são reconhecidos os conhecimentos médicos, podendo eles, com isso, prescrever cataplasmas, infusões e curativos à base de ervas, que agem,

concomitantemente, em um sistema de correspondência entre uma parte do corpo, a planta curativa e o orixá.

Assim, as ervas (bem como outros objetos e elementos) são consagradas aos orixás, a fim de que sejam energizadas para irradiar benefícios para aqueles que delas se utilizem com devoção, respeito e reverência. A busca e a obtenção de cura de maus sentimentos, maus-olhados e a limpeza das más energias sãorealizadas dentro de um contexto religioso, em que são utilizadas as mais diversas ferramentas, como incensos, defumadores, banhos e chás. Além disso, elas cumprem um papel de purificadoras do ambiente, pois:

Flores, ervas, raízes, sementes e frutos no altar liberam essências balsâmicas que purificam o ambiente, tornando-o mais leve e benéfico, mantendo uma vibração elevada. As plantas em geral emitem radiações energizadoras, purificadoras, curadoras, cicatrizadoras, higienizadoras e potencializadoras. (VIEIRA, 2006, p. 30).

Considerando o símbolo como objeto que elucida algo que não está presente, pode-se constatar que as ervas se remetem ao campo transcendente e, portanto, vão além da sua própria matéria, de modo que para sua utilização são realizados inúmeros rituais, para que, de forma mágica, elas atendam à expectativa de quem as utiliza.

No contexto ritual são louvadas, cantadas, empregadas como fins de estreitar os laços com as entidades para propiciar curas, conselhos e mesmo integrar as representações dos adeptos como meio de compreender a natureza das coisas e poder divisar o “invisível” mundo que pode ser revelado por determinados vegetais. (ALBUQUERQUE, 1997, p. 23).

A valorização da natureza e a crença nos orixás, observada nos rituais da Umbanda, demonstram como há uma recepção que parte de um mito fundante. No mito fundante em questão, é também presença fundamental a música pela qual as ervas adquirem o axé. Dessa forma, “os cantos louvam, qualificam, enumeram, classificam e evidenciam os atributos das espécies vegetais. Cumprem também um outro objetivo, quando são utilizados para agilizar o axé nelas contido” (BARROS, 2011, p. 61).

Ossaim desempenha um papel fundamental no mito em questão porque:

Os cânticos das folhas – orin ewé – podem ser uma louvação relacionada a Ossaim nas festas dedicadas aos Orixás, apresentando, nesse momento, acompanhamento rítmico da orquestra ritual. Em outros momentos, muitas vezes somente o som do adjarim (ajarim ou adjá) é ouvido, invocando o poder de Ossaim de curar e encantar o cotidiano dos terreiros durante os ritos de passagem. (BARROS, 2011, p. 61).

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