Essa mesma tradição oral das histórias de Barnabé envolve e ressignifica serras, pedras, árvores e animais. Os umbuzeiros, como quase tudo na comunidade, estão envolvidos nessa tradição oral, na territorialidade e na ancestralidade desse povo.
O umbuzeiro (Spondias Tuberosa) foi chamada de “árvore sagrada do sertão” por Euclides da Cunha. Seu nome vem do Tupi-guarani “Y-mb-u” que significa “árvore que dá de beber, devido à capacidade de armazenar grande quantidade de água nas raízes, garantindo sua sobrevivência na seca” (Sá, 2016).
Seu tempo de vida estimado em mais de 150 anos e sua grande capacidade de sobrevivência à seca e as adversidades do clima do sertão faz do umbuzeiro um símbolo de resistência no nordeste brasileiro (Batista, Silva, Santana e Cavalcante, 2015:18,31).
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Figura 8: Umbuzeiro no Sítio Mulungu – jovem e ainda sem nome
Como sertanejo típico, Lampião e seu bando também se beneficiavam do umbuzeiro, como mostra o texto do Jornal Pequeno, do Ceará, em 19 de março de 1928: “Lampeão com seu grupo faminto continua sustentando-se de „imbus verdes‟ nas diversas matas de Barra do Christovam e Serra Bom Nome” (Torres Filho, 2011:345)
O fruto do Umbuzeiro, umbu ou imbu, é agridoce e tem cerca de um a dois centímetros de tamanho. É muito apreciado pelos moradores de Conceição, pois mata a fome e a sede ao mesmo tempo. Como a terra de Conceição, o Umbuzeiro é considerado de uso coletivo, sendo fruto de renda extra para muitos moradores.
Valdeci é uma que faz doce, geléia, licor e suco de umbu para consumo próprio e para vender. É possível encontrar em Salgueiro moradores de Conceição com grandes tonéis azuis a vender Umbu por atacado ou a granel. Também é possível encontrar produtos feitos na comunidade em alguns pontos da cidade. Sua presença é marcante até no artesanato local, no bordado de roupas, quadros e objetos de decoração.
Mas, muito além do possível valor econômico de seu fruto, o umbuzeiro é tratado praticamente como árvore sagrada. Não se tolera sequer que alguém bata no umbuzeiro para tirar umbu. Assim, em um dia de sol em julho de 2018 estava um menino, neto de Valdeci batendo com um pau nos galhos do Umbuzeiro Valdeci para derrubar uma fruta. Valdeci então brigou com o menino: “pode parar, quando ele quiser ele cai”.
65 Outra aproximação do umbuzeiro de símbolo de resistência é a forma como ele se insere na cultura da comunidade de Conceição das Crioulas. Dono de identidades e personalidades próprias, todos esses umbuzeiros têm nome e tem histórias que lhes dão identidade. Seus nomes podem ser de pessoas que moram próximo ou, mais frequente, de usos dados a ele ou mesmo de situações em que foram protagonistas (Adalmir José da Silva, 2018).
Adalmir afirma que existem umbuzeiros que cujas histórias e nomes estão na memória coletiva da comunidade como um todo. Mas que a maioria deles está mais ligado “ao espaço aonde a família trabalhava” (Adalmir José da Silva, 2018), portanto, cada família conta as histórias de seus umbuzeiros como uma forma de contar sua própria história e marcar seu território específico de trabalho. Note-se que, como cada família concentra-se em determinados sítios, as histórias dos umbuzeiros também contam as histórias dos sítios de Conceição.
Saber contar as histórias dessas árvores centenárias, portanto, é, para cada família, um elemento legitimador de pertencimento e territorialidade de forma mais poderosa e inquestionável que qualquer título de terras lavrado em cartório.
Figura 9: Capa do livro: Umbuzeiros, usado nas escolas39
39 O livro foi produzido por alunos do 7º ano de 2014 da Escola José Néu, em Conceição. A imagem retirada do trabalho de Nascimento (2017:101).
66 Assim, dos umbuzeiros mais presentes na memória coletiva da comunidade foi possível identificar os seguintes: o umbuzeiro da bexiga cujo chá da casca era usada para o “mal da bexiga”; umbuzeiro do Tio Né, que marca a fronteira com o outro lado do território, depois da Vila; umbuzeiro Matafome, perto do Caldeirão dos Ossos; Umbuzeiro Zé Bezerra, no Sítio Paula; e Umbuzeiro da Diva, marcador de território junto à Serra das Crioulas.
O de Mulungu é mais chamado de umbuzeiro da Diva, porque foi Diva, moradora do Sítio Mulungu, que não deixou que o cortassem na demarcação das terras de Conceição (Águas, 2012:256). Como resultado, os agentes do Incra cortaram o umbuzeiro apenas pela metade, de forma vertical. Ainda assim, a árvore sobreviveu para se tornar um marco físico e simbólico da divisa das terras Atikum e de Conceição das Crioulas.
O umbuzeiro da Diva fica ao pé da Serra das Crioulas, que segundo alguns moradores de Conceição, é a verdadeira divisa entre Conceição das Crioulas e as terras dos indígenas Atikum. Essa polêmica faz até mudarem o nome da Serra dependendo de quem fala.
Em conversa com um dos caciques Atikum, Aldenor, esse diz que o nome da Serra é Uman, antigo território Atikum. Por outro lado, os moradores do Mulungu afirmam que desde o início dos tempos os negros usavam o platô da serra citada para plantar. Para esses é a Serra das Crioulas.
Essas discussões de fronteiras, quando acontecem, algumas vezes são acaloradas e cheias de sarcasmos e provocações. Ainda assim é o umbuzeiro que pacifica todos. “Da metade pra cá é nosso”, afirma Diva (2018). E o umbuzeiro que passa a ter o nome de Diva demonstra seu fortalecimento como novo marcador de fronteira, mas também demonstra um caso de amor que a comunidade tem com sua natureza.