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Unicidade dos superlativos

1.2 Quadro estritamente imanente

2.2.3 Unicidade dos superlativos

Uma vez considerados alguns aspectos essenciais que a verdade e a imortalidade partilham com a felicidade, cabe agora chamar a atenção para a existência de uma articulação entre estes diferentes superlativos. Se até aqui desenhámos a isomorfia (isto é, o paralelismo, a afinidade) entre, por um lado, a felicidade e, por outro, os restantes superlativos de que o homem tem notícia, interessa-nos agora sublinhar a conjunção que se estabelece entre todos eles.

Como ficará claro no que se segue, a verdade, a imortalidade, a felicidade, etc. não se encontram unidas simplesmente pela circunstância de partilharem entre si algumas propri- edades singulares. Se assim fosse, poderia dar-se o caso de elas constituirem, apesar da partilha referida, como que vectores independentes uns dos outros. Isto é, verdade, imor- talidade, etc. poderiam ser direcções de transcendência caracterizadas pelas propriedades descritas na subsecção anterior (carácter não adquirido, posse do conteúdo original, etc.), mas de tal maneira que não haveria nenhuma conexão ou articulação entre as diferentes direcções.

Ora, não é isso que se passa: os superlativos estão justamente ligados entre si, i.e., en-

trelaçados uns com os outros, articulados em conjunção. Uma tal conjunção (que não é,

de forma nenhuma, menos importante que a isomorfia descrita acima) significa que os su- perlativos estão unidos – no sentido em que interferem uns com outros, em que se afectam mutuamente. Assim, em vez de uma pessoa se relacionar independentemente (isto é, parale- lamente, separadamente) com os diferentes absolutos, relaciona-se conjuntamente com uma unidade que congrega a verdade e a imortalidade e a felicidade e a justiça e a sabedoria, etc. Isto quer dizer que uma pessoa não consegue, por exemplo, relacionar-se simplesmente com a verdade: nessa relação, está já a relacionar-se com todas as outras determinações superlativas.

O que temos estado a desenhar não é já uma multiplicidade de direcções avulsas, mas uma instância única. Por outras palavras, há, por assim dizer, um único ponto de fuga, para onde convergem todas as direcções de superlativo. Pelo que temos sugerido, percebemos que um tal ponto de fuga se traduz numa instância muito particular: o superlativo dos superlativos, isto é, o máximo dos máximos. Ou ainda, trata-se de uma superlativa acumulação de

superlativos.

Este ponto de fuga admite, em Santo Agostinho, duas compreensões heterogéneas, e de tal maneira que as duas correm, de certo modo, em paralelo nos seus textos. A primeira

corresponde a uma descrição inserida no plano teológico. Neste plano, o ponto de fuga não é outro senão o próprio Deus. Isto significa que, segundo esta primeira compreensão, os diferentes superlativos correspondem como que a refracções desse ponto de fuga. Ou seja, verdade, justiça, bem, paz, imortalidade, etc. não são senão diferentes facetas de uma única personagem. Dito ainda de outra maneira: na óptica teológica, há um única fonte para as diversas notitiae de superlativo.126

A segunda forma de compreender a conjunção referida corresponde a uma descrição estritamente imanente. É esta a descrição que aqui fundamentalmente nos interessa e em relação à qual devemos assinalar alguns aspectos decisivos.

Em primeiro lugar, de um ponto de vista imanente, verifica-se que o homem está caracte- rizado por uma multiplicidade de ultrapassagens isomórficas (e, em particular, que partilham a propriedade de o transcenderem absolutamente) a ocorrerem em simultâneo. Dito de outro modo, o homem encontra-se simultaneamente perante várias direcções de transcendência: verdade, felicidade, imortalidade, justiça, etc. Aliás, trata-se de direcções que se verificam

permanentemente, o que implica que o ser humano se acha ininterruptamente diante de uma

série de direcções que partilham a propridade de o transcenderem.

Em segundo lugar, isto sucede de tal maneira que aquilo que está sob a pressão de um superlativo também está sob a pressão do outro. Realmente, como vimos na subsecção an- terior, os diversos superlativos caracterizam-se pela propriedade comum de afectarem todos os outros conteúdos – o que implica que um determinado conteúdo está simultaneamente afectado pelos vários superlativos. Por exemplo, se eu estou a ver um relógio, o relógio aparece-me como estando inserido não só no quadro de uma tensão para a felicidade, como no quadro de uma tensão para a verdade, como no quadro de uma tensão para a imorta- lidade, etc. E tal como o relógio, assim também qualquer outro objecto está desde logo compreendido como desempenhando uma função (favorável, contrária, neutra, etc.) nas diferentes direcções de superlativo.

Em terceiro lugar, há como que uma solidariedade interna entre os vários superlativos. Isto é, existe um nexo interno – uma ligação intrínseca – entre eles. Para considerar uma dessas ligações: felicidade e verdade encontram-se intrinsecamente relacionadas. Com efeito, uma pessoa, ao querer ser feliz, não está (nesse seu querer a felicidade) indiferente à verdade.

126

Esta interpretação permite explicar a isomorfia entre os diferentes superlativos. Por um lado, todos eles re- sultam de um mesmo superlativo. Por outro lado, este superlativo único aparece ao homem justamente com as propriedades que ele identifica nos diferentes superlativos; de facto, segundo a compreensão em causa, a notícia do ‘superlativo-fonte’ tem um conteúdo transcendente, não adquirido, permanente, indespedível, etc. E é precisamente a circunstância de esse superlativo-fonte ter estas propriedades que faz que todos os outros superlativos (que não são senão refracções daquele) se caracterizem por essas mesmas propriedades – e sejam, assim, isomórficos.

Segundo Agostinho, na verdade, felicidade e verdade são inseparáveis:

“Beata quippe vita est gaudium de veritate.”127

Desta forma, por desejar a felicidade, uma pessoa está já, com isso, a desejar a verdade. Considerando um outro exemplo de ligação, a felicidade está intrisecamente ligada à imor- talidade, de tal maneira que o desejo de felicidade não fica fechado em si mesmo, mas inclui incontornavelmente um desejo de imortalidade.128 Para dar ainda um terceiro exemplo, verdade e imortalidade estão também elas intrinsecamente relacionadas. Realmente, para Agostinho, a verdade não está sujeita a morte:

“(...) cum interit aliquid quod verum est, non interit veritas.”129

Estas ligações internas entre os diferentes superlativos põem em evidência a unicidade que referimos mais acima. De um ponto de vista estritamente imanente, portanto, as diferentes direcções de superlativo interferem de tal maneira que não podem ser separadas umas das outras. Em suma, acham-se unificadas num só superlativo de superlativos – o ponto de fuga único para que a notitia de superlativo, em última análise, aponta.

Finalmente, em quarto lugar, para uma perspectiva estritamente imanente, esse ponto de fuga único influencia decisivamente a compreensão do si mesmo. Especificamente, o homem vê-se como uma versão falhada dele. Ou seja, o homem compreende o ponto de fuga como aquilo que ele deveria ser mas não é, como o estado onde ele se projecta a estar mas onde não está, como a realidade que ele exige mas que não tem, como o objecto que ele reclama mas cujo pedido vê indeferido. Isto significa que se compreende a si mesmo como uma peça incompleta, como uma versão imperfeita do ponto de fuga – ou ainda, como um proprietário que detém apenas uma parte desse todo que ele já identifica como seu mas em cuja posse não se encontra.

A descrição imanente que temos apresentado vem na continuação do que tomava forma na exploração prévia da esfera da memória. Como insistimos, a exploração augustiniana realça dois aspectos: a capacidade quantitativa e a capacidade qualitativa da memória. Ora, o que agora temos vindo a descrever corresponde como que a uma superlativização desses dois aspectos. De facto, por um lado, a presença do ponto de fuga equivale à presença da quantitade máxima, inultrapassável; por outro, equivale à posse de uma multiplicidade de direcções heterogéneas (verdade, felicidade, justiça, bem, etc.), em regime de acumulação superlativa de superlativos.

127Conf. X, XXIII, 33. 128

Cf. a citação de De Trin. XIII, VIII, 11 feita na apresentação do superlativo correspondente à imortalidade.

129

Solil. I, XV, 28. Quando se afirma que a verdade não está sujeita a morte, está a querer dizer-se que corresponde

Isto permite-nos concluir que é precisamente esse o resultado global do levantamento da memória feito por Agostinho no livro X das Confissões. Quer dizer, aquilo que fundamen- talmente se conclui dessa exploração é que a personagem central que reside escondida na esfera da memória é o ponto de fuga de que estamos a falar. Dito ainda por outras palavras, a conclusão para que toda a análise da memória se encaminha é a de que existe um conteúdo – o ponto de fuga – que polariza todos os outros, o que implica que tudo está marcado por ele. E de tal maneira que é também esse conteúdo que corresponde à personagem central na interferência da memória no foco. Tudo aquilo que se vê, portanto, é em última análise visto à luz desse ponto de fuga – que justamente não se vê bem.