2. Problema e Objeto de Estudo
3.5. Unidade de Adolescentes do HDE– CHLC
A hospitalização para o adolescente é encarada como perda de controlo nos diferentes níveis da sua vida psicossocial, emocional e na intensa procura pela identidade e autonomia (Hockenberry et al., 2006). Ao ficar confinado a um internamento, o cliente geralmente tem uma perspetiva que algo não está bem consigo, compreendendo os processos que levam ao adoecer e recuperação (Barros, 2003). É então na intervenção do enfermeiro, pautada pela sensibilidade às necessidades emocionais do cliente que se encontra a chave para que a
hospitalização não determine uma experiência negativa na vida do adolescente, mas sim uma oportunidade de crescimento e fortalecimento da sua identidade, a par do desenvolvimento também do enfermeiro, como relação recíproca que se estabelece (Watson, 2002; Diogo, 2012). Posto isto, são os objetivos deste estágio:
− Prestar cuidados ao adolescente hospitalizado.
− Identificar as necessidades emocionais do adolescente em contexto de hospitalização.
− Desenvolver estratégias e intervenções terapêuticas promotoras de experiências emocionais positivas no cliente em contexto de hospitalização.
− Sensibilizar a equipa de enfermagem para a importância do trabalho emocional nos cuidados de enfermagem ao adolescente e/ou criança hospitalizado e seus cuidadores informais.
Foi elaborado também o Guia Orientador de Atividades (Apêndice I), estruturante para os objetivos e atividades propostas para o estágio, enquadrado na reunião com a enfermeira orientadora, que permitiu estabelecer o diagnóstico de situação. Para este diagnóstico saliento também o meu conhecimento prévio da unidade, como profissional que integra a equipa de enfermagem e presta cuidados aos clientes, sendo conhecedora da dinâmica e das necessidades que os clientes habitualmente expressam, o que permitiu uma reflexão atempada sobre as atividades a desenvolver.
Saliento o envolvimento emocional como uma ferramenta essencial para estabelecer a relação de cuidados (Morse et al., 2006; Diogo, 2012). Este envolvimento permite uma ligação afetiva e de proximidade (Diogo, 2012) permitindo a individualização dos cuidados. Os adolescentes são sensíveis ao envolvimento emocional, onde o interesse pelo cliente nos cuidados está patente, e concorre para a empatia emocional, que torna o enfermeiro sensível às necessidades emocionais (Diogo, 2012) do adolescente. A própria empatia é descrita como uma estratégia para a satisfação do cliente, expressa nos padrões de qualidade da OE (2002). O Jornal de
Aprendizagem V (Apêndice V), e o Diário de Campo XII (Apêndice IV) expressa
pode ser trabalhada pelo enfermeiro de modo a que os resultados na experiência emocional do adolescente são atenuados os aspetos negativos e valorizados os aspetos positivos. De facto, como Watson (2002, p.89) expressa, as emoções são “as janelas da (…) alma [do cliente]”, sendo estas uma forma de aceder ao corpo e alma, atendendo sobretudo à dignidade e respeito pela pessoa única que é cuidada, na relação terapêutica.
Com base nas caraterísticas do adolescente nesta fase, a sua procura pela autonomia, a sua introspeção e reflexões sobre o que o rodeia, a capacidade de mobilizar um pensamento abstrato e as suas relações sociais e íntimas (Opperman & Cassandra, 2001; Hockenberry et al., 2006; Papalia et al. 2009), e mobilizando a evidência científica mobilizada, a qual expressa a essência e importância do trabalho emocional em enfermagem, encontro estratégias, instrumentos e capacidades que os enfermeiros mobilizam no cuidar do adolescente e que se inscrevem na minha prática e na prática da equipa de enfermagem da Unidade de Adolescentes. Mais uma vez, a mobilização destas estratégias não é percebida ou identificada de forma totalmente consciente corroborando o estudo de Smith (2012). Desta forma a realização de uma Ação de Formação para a equipa de enfermagem, explorando a temática do trabalho emocional (Apêndice XIII), sendo que neste contexto foram apenas exploradas as estratégias que mais se adequam aos adolescentes. No seguimento da sensibilização da equipa para o trabalho emocional, também a
Aplicação do Algoritmo de Atuação em Enfermagem sobre o Trabalho Emocional em Adolescentes (Apêndice XIV) faz todo o sentido, pela Unidade de
Adolescentes ser por excelência uma unidade de internamento que recebe a população adolescente, procurando que os seus cuidados sejam determinados pela qualidade e melhoria contínua destes. Como já foi referida a empatia, nomeadamente a empatia emocional como expressa nos cuidados contribui par a satisfação do cliente (OE, 2001), mas também a oportunidade de incentivar a promoção de estilos de vida saudáveis, fornecendo informação que promova no adolescente a reflexão e, consequentemente, a aquisição de novas capacidades, assente na promoção de saúde, concorrendo para que o cliente alcance o seu máximo potencial de saúde (OE, 2001). A exposição do Poster “Os Jovens e os
estratégias para cativar o adolescente.
O adolescente hospitalizado apresenta também receios que vão para além da pela perda de controlo da sua vida nos diferentes níveis (Hockenberry et al., 2006). As intervenções invasivas e o receio da dor (Crnković et al. 2009) estão também patentes nas emoções potencialmente intensas, associadas à hospitalização. Porém, a proximidade e estabelecimento de uma relação terapêutica, nomeadamente por parte dos enfermeiros, é valorizado pelo adolescente, como ponto de apoio durante a sua hospitalização (Woodgate, 2006). Neste sentido o trabalho emocional expresso no Jornal de Aprendizagem V (Apêndice V) e os
Diários de Campo XII, XIII e XIV (Apêndice IV) são o espelho de uma relação que
se estabelece e procura de alguma forma a promoção do auto-cuidado e bem-estar, essencial para a qualidade dos cuidados (OE, 2001). Conhecendo também a importância dos adolescentes expressarem as suas emoções, permitindo gerir estas (Diogo, 2012) de diferentes formas, escrevendo, desenhando, entre outras (Raingruber, 2004; Cordeiro 2009; Papalia et al. 2009), procurei dinamizar o “Jornal
Jovem” (Apêndice XVI), um folheto em forma de revista que procura divulgar os
trabalhos que os adolescentes vão desenvolvendo durante a hospitalização ou que por sua vontade elaboram um contributo voluntário e anónimo através de escrita ou outras formas de inspiração e que é publicado no “Jornal Jovem”. Saliento o contributo do “Jornal Jovem” para atenuar as vivências emocionalmente intensas, permitindo a expressão de sentimentos e o alívio da pressão, associados à hospitalização. Este jornal converge então para a expressão de sentimentos, sendo um canal de informação sobre o que de bom existe no internamento, ou o que foi desenvolvido durante o período que nele permaneceram, na perspetiva de outros adolescentes que já estiveram hospitalizados na unidade. Esta intervenção, é intencionada a que quem está hospitalizado encontre uma forma de distração, participando em projetos que também sejam estimulantes (Hockenberry et al., 2006) e que as vivências potencialmente intensas sejam transformadas em vivências positivas e gratificantes para os diferentes intervenientes, adolescentes hospitalizado hoje, o adolescente hospitalizado amanhã e a equipa de enfermagem. É neste contexto que procuro que a enfermagem se evidencie “como um processo de cuidar de humano-para-humano” (Watson, 2002, p. 69), reforçado pela situação analisada
no Jornal de Aprendizagem V (Apêndice V).
Saliento que todo o estudo e investimento nas atividades e reflexões, durante os estágios, contribuiu para a aquisição de competências comuns e específicas de enfermeira ESCJ (DR, 2011), que serão alvo de reflexão em seguida. Porém, direciono a importância das atividades desenvolvidas deste último estágio na Unidade de Adolescentes para o desenvolvimento de um projeto onde a dimensão emocional é uma realidade, divulgada junto da equipa e através das atividades elaboradas, encontrando nestas as bases que sustentam a estrutura de um projeto a ser continuado na Unidade de Adolescentes, e que aqui se iniciou. Este projeto será explicitado e fundamentado com mais pormenor no capítulo 5.