CAPÍTULO III – DESENVOLVIMENTO DE TEMAS APLICADOS DE TEORIA GERAL DO DIREITO E DOGMÁTICA CLÁSSICA.
3.2. Unidade do direito, harmonização e integração entre sistemas jurídicos: entre a Teoria dos Sistemas e o Construtivismo Lógico-Semântico.
3.2.1. Unidade do direito: entre definição e conceito.
Como mais um elemento do conjunto de premissas teóricas, diz-se que o direito é entendido, para todos os efeitos, aqui, como um fenômeno que se expressa e existe como linguagem esquematizada em um contexto de comunicação, organizado sob a forma de um sistema único.
Inicialmente, deve ser reafirmado que o direito é um sistema uno, ou seja, as meras divisões de abordagem ou distinções entre os ramos do direito são meras divisões metodológicas, pois a simplificação é base de qualquer estudo científico, do que é válido afirmar a existência de uma divisão na ciência do direito, mas nunca será válido afirmar que o direito positivo divide-se.
Aqui, logo, pode ser dito que o que o direito positivo pode multifacetar um dado de sua própria realidade, ou seja, a partir de um dado objeto dinâmico, cada ramo do direito qualifica de uma dada maneira, transformando em fatos diversos.
Obviamente, com estes atos de qualificação e requalificação há a preservação de uma espécie de hierarquia material, em que (re)produz-se um fato jurídico qualificando uma irritação de maneira prevalente, generativa de ineficácia técnico-sintática sobre quaisquer outras qualificações.
Em outras palavras, no sistema do direito existem mero conflitos de qualificações internas, dentro de uma perspectiva espacialmente delimitada, como em um terremoto, em que a irritação percebida pelo sistema jurídico (epicentro) se propaga como uma onda de choque, que vai se abrandando a medida que se afasta do epicentro, gerando uma fragilidade inata naquela qualificação mais distante deste.
Obviamente a irritação é captada por uma estrutura que está na periferia do sistema, no caso, o contrato ou ato cível, o direito tributário não verifica esta irritação externa, mas a interna produzida a partir desta versão em linguagem, sendo uma observação de segundo nível, lembrando que as normas tributárias estão mais próximas do centro do que da periferia do sistema, não absorvendo a supracitada irritação, mas, tão-somente, a irritação interna produzida pela norma cível, que será confrontada com a irritação originária para os efeitos da norma antielisiva.
Faz-se parêntese para delimitar que a posição das cortes e sua forma de decidir são menos subjetivas em detrimento dos processamentos de irritações na periferia do sistema, pois estas levam em conta, menos fortemente, as expectativas dos outros sistemas sociais, ressaltado pela sua posição central, o que implica uma isolação das cortes de irritações mais fortes, baseado na necessidade extrema destas cortes de situarem-se como eixo estabilização do sistema jurídico.
Neste sentido, cada sistema possui seu núcleo que o estabiliza internamente (gerando uma força centrípeta, atraindo mais comunicações para o centro do sistema jurídico) e externamente, mantendo a separação (distinção funcional) entre cada uma das moléculas componentes do sistema social, fazendo
com que sua operação não gere conseqüências nos outros sistemas sociais de maneira sobreposta, mantendo, portanto, o fechamento operativo.
Retomando, em todo este contexto, o direito, portanto, é abordado por meio de uma metodologia que privilegia a teoria dos conjuntos e utiliza a interação entre as normas jurídicas como forma de resolução e aproximação do direito e as outras ciências, com método próprio e algum tipo de objetividade na análise dos problemas apresentados pelo objeto, no caso, o direito como objeto cultural.
Ainda, deve ser dito, que o direito acaba sendo observado com os instrumentos que a linguagem apresenta, quais sejam, a semiótica aplicada, além da lógica formal e Teoria dos Sistemas, na forma que será elucidada em ponto posterior.
É dizer, a unidade é construída/criada/inaugurada a partir da diferença, uma unidade assimétrica, assim como o conceito diferencia-se de outros conceitos, sendo definido negativamente.
Portanto, para delimitar um conceito, outros são contrapostos, enquanto classes disjuntas, uma definição pela negativa, pela impossibilidade de dois corpos ocuparem o mesmo espaço ao mesmo tempo, uma definição pela diferença.
Neste contexto, a distinção entre enunciado e proposição é ponto essencial para a construção do conhecimento, assim como a interação entre a lógica, entendida como a disciplina que estuda as estruturas do pensamento, e o direito, que possui estruturas definidas, enquanto observado como elemento lingüístico.
Logo, é lícito concluir que o direito é um sistema já que as normas jurídicas possuem uma função comum, a regulação ou qualificação dos eventos pensados, além de possuir estruturas sintaticamente idênticas, quando transpostas do texto enquanto suporte físico para uma dada proposição.
Retomando, como ponto fundamental, a distinção lingüística entre definição e conceito é fundamental, entre critérios ou elementos de inclusão em classe e a classe em si, respectivamente.
Conceito é compreendido, aqui, como a classe, a palavra, enquanto a definição contém os critérios para ingresso nesta classe (definição conotativa) ou os elementos componentes desta classe (definição denotativa).
Logo, os conceitos que são idênticos apresentam definições fixas no direito, porém, quando usados com algum adjetivo, qualificativo, assumem a forma de subclasse do conceito originário.
Exemplificando: a definição do conceito de crédito advém do código civil, mas, quando utilizada no direito tributário, com o adjetivo tributário assume certas diferenças no seu tratamento em certas situações, no que diz respeito, as suas garantias e privilégios, a exemplo.
É dizer, antes de ser crédito tributário é crédito, logo, subclasse dos créditos, sujeitando-se, como critério de ingresso naquela classe de crédito aquilo que é determinado no código civil.
Cita-se que a forma de abordagem apresentada acaba por ter ligação direta com algumas conclusões a serem apresentadas, pois, tomando o direito como um sistema formado por outros subsistemas, seria possível encontrar formas diversas de qualificação para um determinado evento, contraditórias entre si.
Portanto, com a abordagem utilizada, não existem contradições, mas qualificações distintas, conforme elucidado anteriormente, do que os efeitos são diversos da proposta explicitada acima.
Logo, a qualificação deve ser tomada sob um determinado ângulo, do que as normas podem possuir vários conseqüentes para um mesmo fato, mas não são normas autônomas entre si, mas sim vinculadas a um denominador comum.
Tal afirmação equivale a dizer que a combinação entre antecedente e conseqüente de uma norma funciona de tal forma: um antecedente para um conseqüente; um antecedente para vários conseqüentes; vários antecedentes para um conseqüente; ou, por fim e, exaustivamente, de vários antecedentes para vários conseqüentes.
Por fim, lembra-se que tal afirmação é derivada da aplicação da teoria dos predicados poliádicos ao direito.
3.2.2. Unidade do direito e da Ciência do Direito: uma relação com Flusser.