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Os caminhos para o engajamento no movimento de mulheres são muitos e cada uma das entrevistadas teve um percurso diferente. Os diversos modos de entrada na vida política marcaram a trajetória dessas mulheres dentro do movimento feminista. Em seus relatos, elas contam que iniciaram sua vida política através da participação na igreja, no movimento estudantil, no Movimento Feminino pela Anistia, na universidade e no sindicalismo, onde entraram em contado com questões relativas às mulheres.

A igreja foi uma das portas de entrada mais significativas para os movimentos sociais. A igreja católica mobilizava e organizava a juventude para a ação política e teve papel fundamental na formação de lideranças (Durham, 1984; Evers, 1984; Coser, 1989). Graça começou sua militância a partir da igreja: “Bom, primeiro eu fui da igreja, isso é normal, né, todo, praticamente, grande parte da militância ela vem de um trabalho com a juventude, que eu fui da JOC,Juventude Operária Cristã.”

O engajamento em movimentos sociais a partir da igreja marcou a trajetória de Graça. A juventude cristã era estimulada pela igreja a promover ações políticas e sociais com as comunidades menos favorecidas economicamente. Graça participou de diversos projetos comunitários e já tinha uma trajetória de militância antes de voltar seus interesses para as questões de gênero. Segundo ela, essa questão aparece apenas num “último momento” de sua militância política:”E aí, depois, quer dizer, a questão do gênero veio pra mim... praticamente no último momento da minha militância, né, eu acho muito engraçado isso.”

Graça atribui sua motivação para sua entrada no movimento de mulheres à conscientização política através dos trabalhos com as bases. A proximidade com as bases configura seu trabalho com as mulheres, como veremos no decorrer deste capítulo.

No início de sua militância, ela trabalhava com grupos de mulheres em associações das comunidades:

G: E eu fui de uma associação de mulheres no Aglomerado Morro das Pedras, numa das vilas daqui, de Belo Horizonte. (pigarro) onde eu fui vice- presidente, convidada por, né, a presidente da associação que era uma dona da comunidade. Ela disse: Graça, ocê tem um trabalho legal e tal vamo lá pra Associação de Mulheres que cê vai contribuir muuuito e tudo. E aí eu fui ser vice-presidente da associação, mesmo sem entender muita coisa, mesmo sem ler quase nada, mesmo só, só por ter aquela concepção de que as mulheres... era necessária a organização específica delas em algum lugar, né, ou seja, em todo lugar. .

Para Graça, ser vice-presidente desta associação e realizar trabalhos, durante a administração de Patrus Ananias, com vários grupos de mulheres nas vilas e favelas de Belo Horizonte, foi o que despertou seu olhar para os interesses específicos das mulheres. O que mais chamava sua atenção era o fato de que estes grupos dedicavam-se ao debate com vários assuntos, mas não à discussão de questões que concernem ao papel das mulheres na sociedade:

G: E a partir daí eu... eu... comecei a... a prestar mais atenção nisso, né, assim, prestar atenção no papel dessas mulheres, inclusive porque a associação de mulheres... ela era importante, mas ela não discutia a questão das mulheres, a problemática das mulheres, a organização das mulheres, era uma associação de mulheres como outra qualquer, que não tinha o objetivo claro dessa proposta, né.

C: Que que vocês discutiam?

G: Ah, discutia tudo. Cesta básica, discutia creche, discutia tudo. Né, é, asfalto no beco e num sei que, orçamento participativo. Menos o papel dessa mulher na sociedade, ou papel dessa mulher na família, ou o papel dessa mulher enquanto pessoa capaz de construir um mundo melhor, né. E e, assim, eu fui percebendo isso.

A maioria dos grupos comunitários de mulheres preocupava-se com debates e ações sociais em torno de temas que diziam respeito às mulheres apenas de modo periférico. Entretanto, algumas lideranças realizavam um trabalho marcado por uma perspectiva de gênero e estavam atentas para situação da mulher na sociedade. Graça cita o exemplo de D. Otália:

G: Tinha a dona Otália, que é da Associação de Mulheres do Betânia, que era uma figura extremamente boa, uma grande liderança, mas a dona Otália tinha alguma coisa diferente, que eu comecei a notar, que ela trabalhava a mulher, né, ela num trabalhava, ela fazia parte de tudo que era comissão na região, como faz até hoje. Mas ela tinha um negócio que era importante que eu notava, ela entendia qual era o seu papel enquanto mulher naquela sociedade.

Outra experiência marcante na trajetória de Graça, também nos movimentos de base foi sua participação no sindicato das costureiras: “Eu era costureira, sou costureira, sei costurar e eu fui sindicalista”. Segundo Graça, participar, no início dos anos 1980, desse sindicato foi fundamental em sua formação política, pois ali ela percebeu que ocorriam discriminações de gênero que deveriam ser explicitadas e debatidas:

G: E é engraçado que as costureiras são oitenta por cento mulheres, né, aí cê sente a fragilidade da coisa política na categoria, né, nunca teve uma categoria com a no..., com oitenta por cento mulher, nunca teve uma presidenta, né, sempre teve o homem presidente, ou melhor, todos os cargos de grande importância são os homens lá no sindicato. Então eu acho... Eu até sô amiga do presidente, mas eu falo isso com ele de vez em quando, né. Que é um sindicato com a maioria mulher, no entanto quem dá o tom da política são os homens, né. E nós já tentamos várias vezes e tem até um povo aí da oposição... aí na categoria, mas que ainda não consegue ir pra frente, né.

Ela própria, junto com um grupo de costureiras, montou uma chapa e concorreu à direção do sindicato. Tiveram “trinta por cento dos votos, pra nós foi uma vitória (risos)”. Segundo ela, essas experiências foram fundamentais para seu amadurecimento político.

Graça entrou para a militância política a partir da igreja, onde realizava trabalhos comunitários, mais tarde foi sindicalista, participou de associações e trabalhou com grupos de mulheres nas comunidades. Ela é filiada ao Partido dos Trabalhadores e vem trabalhando nos programas voltados para as mulheres nas gestões petistas do governo municipal. Sua trajetória em relação a questões referentes ao gênero foi construída a partir de sua prática política e da consciência das discriminações vividas pelas mulheres. Ela identifica-se com as bases e todo o seu discurso é marcado por isto.

A entrada de Márcia no movimento de mulheres é, em alguns pontos, semelhante à de Graça, principalmente no que diz respeito à consciência política e à

percepção, a partir de sua vida política, da subordinação das mulheres. No entanto, sua participação em movimentos sociais iniciou-se por outro caminho. Quando era estudante universitária, ela engajou-se no movimento estudantil, unindo-se, desde o início, ao grupo pertencente ao Partido dos Trabalhadores:

C: Quer dizer que você entrou no movimento estudantil...

M: Estudantil e aí, né, automaticamente, eu já, eu já co-, eu já... eu já fui

pra turma do PT, né. Tinha a turma da reforma, que era a turma do PCdoB,

tinha a turma, a turma do partidão, né, que era do P-, e aí eu fi..., eu fiz um contato, quer dizer, eu me aproximei e, do pessoal do PT e aí o pessoal já começava, né, a ter, a conversar, então eu já começava ir a reuniões do partido, porque tinha o núcleo do movimento estudantil, então foi a partir daí que eu comecei a, participar (grifos nossos).

Na visão de Márcia, o fato de participar do movimento estudantil a levou e outras jovens a se preocuparem com as questões específicas das mulheres. Ela entrou no movimento de mulheres a partir do movimento estudantil:

M: (...) o contato maior mês... foi feito através ...é, da minha inserção na universidade e com algumas outras mulheres que eram militantes, ...é, do movimento estudantil onde a gente começou a questionar a postura, né,

de alguns companheiros nossos em relação ...a, à liderança então muitas

vezes nas reuniões o que a gente falava era o que os homens falava... nas assembléias, né? Ou então era o que era acordado, então nós começamos a... a montar um grupo, né? (grifo nosso)

Segundo ela, os homens eram as lideranças no movimento estudantil e eram eles que tomavam as decisões. Isso começou a ficar claro para as mulheres desse grupo, que decidiram se organizar para discutir questões relativas à mulher. Márcia participou, entre 1981 e 1982, de um grupo de discussão:

M: (...) o Mulheres Gerais que era onde a gente conversava sobre os nossos assuntos, né, sobre a, o, os nossos sentimentos em relação aos homens, em relação aos companheiros, em relação ao ficar, né, então a gente abria o verbo pra, pra gente f... ter uma proximidade maior.

Nesses grupos, eram discutidas desde temas relativos aos relacionamentos entre homens e mulheres até o problema do lugar ocupado pelas mulheres na sociedade. Mais tarde, Márcia fez escola feminista, mostrando grande identificação com o feminismo e suas questões:

M: Então eu fiz, então acho que a minha a minha sorte de... de ter, é, também entrado pra essa área do feminismo, foi porque a essa... essa

tendência, é, me deu, eu fiz escola, né, do feminismo. Então. Nós tivemos curso sobre o feminismo, nós disc..., estudamos as linhas feministas, é, nós, é..., discutimos conjuntura, é..., do Brasil do ponto de vista, na ótica feminista.

Durante o tempo em que fez sua formação feminista, Márcia já era filiada ao PT. Participava dos encontros de mulheres do partido, onde questões feministas eram debatidas. Ser membro do PT aparece como fundamental em sua trajetória. Em sua entrevista, ela fala a partir do lugar de membro do partido e de sua posição hoje no governo local, uma vez que a cidade é gerida pelo PT. Graça, que também é filiada ao mesmo partido, enuncia seu discurso a partir muito mais de sua identificação com os movimentos sociais de base do que com sua identidade partidária. Apesar dos diferentes percursos e identificações, Graça e Márcia são exemplos de pessoas que atribuem sua entrada no movimento feminista à consciência política da situação das mulheres na sociedade brasileira e à necessidade de se trabalharem as questões específicas das mulheres.

Luzia, hoje filiada ao PPS, também mantém estreitas relações com os partidos políticos e é a partir de sua identificação partidária que ela enuncia seu discurso. Ela iniciou sua trajetória política ainda na universidade, onde participou de movimentos estudantis e entrou para partidos políticos. Ela conta que seu engajamento no movimento de mulheres a partir da participação no “Movimento Feminino pela Anistia” (MFPA)60:

L: É... então a minha vida, é..., depois entrei no Movimento Feminino pela Anistia, foi daí que depois surgiu essa vinculação com a luta das mulheres. O MFPA não se dedicava à luta pelas reivindicações específicas das mulheres, mas foi uma escola política importante para elas e formou muitas lideranças do movimento feminista. Segundo Luzia, foi a partir daí que ela se vinculou ao movimento de mulheres. No entanto, para ela, sua relação com as questões específicas das mulheres ganhou força foi com sua inserção em partidos políticos:

L: (...) mas, mesmo dentro dos partidos que eu participei, né, sempre também estive ligada, né, com essa, porque cada partido também tem essa... essa forma de organizar, pelo menos partidos de esquerda, defendendo essas bandeiras, de ter sempre uma comissão de mulheres ou

um departamento, é, específico que... que cuidasse dessa questão. Então também sempre tive, é, dentro do partido essa preocupação de lutar pra que o partido também, como um todo, assumisse não só as mulheres do partido, como essas bandeiras, né. Eu militei no MR8, depois entrei no PCB, né, em mil novecentos e oitenta e dois. E no... no PCB, num é, nós também, é um partido que historicamente, né, sempre defendeu também é... é... a luta pela igualdade de direitos, né, da mulher. Mas sempre alguma coisa meio ali das mulheres, então essa sempre foi também uma... uma trajetória. O PCB se transformou em PPS e... o PPS também em cada congresso que a gente realiza, nós temos lá os encontros das mulheres pra garantir no estatuto algumas questões que simbolizam que o partido de fato tem preocupação, né, com essa luta.

Essa identificação com o movimento social partidário marcou todo o discurso produzido por Luzia durante a entrevista.

Outra porta de entrada relevante para o movimento de mulheres em Belo Horizonte foi a inserção de intelectuais e acadêmicas. Karin, que seguiu a carreira acadêmica, começou a participar do movimento por sugestão de uma professora da universidade:

K: E aí então eu sabia o que.. que o grupo tava fazendo, não... não me vinculei ao grupo logo no início, passei a me vincular ao grupo por sugestão de Marília Matta Machado, que por sua vez não participava (risos), mas também fazia a mesma coisa, empurrava os outros pra ir pro dia a dia (grifo nosso).

Ela entrou no movimento como “interessada”:

K: Em... eu participo é... eu participo como interessada, é, divulgando ta... ta... tá... aquele primeiro... aquele ato público em 1980 que foi organizado por um grupo de... de feministas... que essa história toda cê tem, né. É... eu vou ao ato, quer dizer eu acompanho a montagem, depois fui ao ato depois... a partir dali, é, se divulga o CDI, a idéia de criar o CDI numa reunião, eu lembro que eu tava com as etiquetinhas no carro, distribuindo folder ta... ta... tá, esqueci da reunião (risos) é ótimo, né? O dia mesmo

da reunião eu não fui não (risos) (grifo nosso).

Podemos perceber nessas falas que a participação de Karin no movimento tem particularidades em relação às demais entrevistadas. Por um lado, em seu discurso, ela se coloca como intelectual, que “fazia a mesma coisa” que outras acadêmicas, ou seja, interessava-se pela questão da mulher, mas não participava do cotidiano do movimento social. Por outro lado, ela se mostra comprometida com a luta movimento. Como vimos no capítulo anterior, ela manteve o telefone do SOS Mulher em sua casa e continuava prestando atendimento às mulheres mesmo depois desse serviço ter sido extinto. Além disso, participou de diversas ações

importantes do movimento de mulheres, como a criação da Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher e Constituinte. Ao longo deste trabalho, poderemos notar que todo o seu discurso foi emitido a partir do lugar de intelectual, de professora da UFMG, marcando sua autonomia em relação ao movimento, aos partidos e à prefeitura, sendo que autonomia não significa falta de comprometimento.

Outro caminho para a politização das mulheres foi a participação sindical. Por um lado, a sindicalização levou as mulheres à participação política, mas por outro, nos sindicatos, tradicionalmente, as “reivindicações da mulher” não eram trabalhadas ou o eram de modo periférico. O movimento de trabalhadores entendia que pensar nas especificidades das mulheres no trabalho impossibilitava a unidade da luta, pois desviava a atenção da questão principal, a de classe (CÓSER, 1989). Apesar das divergências entre o movimento sindical e o feminista, algumas sindicalistas, na década de 1990, estiveram presentes nos debates propriamente feministas. Um exemplo disso é o percurso de Ermelinda, que “era do sindicato dos trabalhadores da educação”: “Porque na verdade a minha interferência é pelo sindicato, então tudo que existia de políticas de gênero, política do movimento feminista e encontro do movimento feminista, eu participava enquanto sindicalista”.

Ermelinda entrou em contado com as questões de gênero a partir da participação sindical, tendo uma trajetória diferente daquela traçada pelas militantes do movimento feminista. Foi em encontros feministas que Ermelinda conheceu o trabalho realizado na Casa Abrigo. Mais tarde, graças aos contatos feitos nos encontros, ela veio a ser a gerente daquele programa. É posição de coordenadora de políticas públicas voltadas para mulheres que ela emitiu o discurso que estamos analisando.

Daniele não participou do movimento de mulheres. Ela fala a partir do lugar de uma funcionária pública, concursada, que ocupa lugares institucionais. Já trabalhou em outros programas da prefeitura de Belo Horizonte e, atualmente, é gerente da CASV.

Acima vimos os diversos os caminhos de entrada no movimento de mulheres de nossas entrevistadas. Esses modos de engajamento político apontam para as facetas dos discursos enunciados por elas no decorrer de toda a entrevista. A emissão do discurso é marcada por suas identificações, subjetivas e sociais, com determinadas posições. Graça identifica-se com as bases dos movimentos sociais; Márcia, com o cargo que ocupa na administração petista da cidade de Belo

Horizonte; Luzia, com a participação política em partidos; Karin com a universidade; Ermelinda, com a coordenação dos programas; e Daniele com o lugar de funcionária pública concursada. Essas identificações constituem, portanto, elementos de relevância fundamental para a análise dos discursos produzidos nas entrevistas, pois marcam a trajetória das entrevistadas e a construção dos sentidos de cidadania, gênero e violência.

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