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Unidade e diversidade no português falado no Brasil

Há dois slogans muito comuns relacionados ao português brasilei-ro: um deles diz que o Brasil é o maior país de língua portuguesa – e está perfeitamente correto; o outro, menos comum hoje em dia, é aquele segundo o qual o Brasil é o maior país em que se fala apenas uma língua – e isso não está correto, por mais de um motivo.

O primeiro slogan é incontestável diante de um país de dimensões continentais que conta com mais de 190 milhões de habitantes (em 2009). Mas isso não exclui duas coisas: (1) que há diversidade no inte-rior do português brasileiro, e (2) que o português não é a única língua falada no Brasil, algo que vai contra o segundo slogan.

Sobre a veracidade do ponto (1) todos estão de acordo. Afinal, basta conhecermos pessoas de diferentes regiões do país, ou ligarmos o rádio ou a televisão que veremos (ou melhor, ouviremos) facilmente a diver-sidade dos “falares portugueses” no Brasil – o que comprova, aliás, que somos excelentes “linguistas amadores”, principalmente foneticistas, e percebemos imediatamente o sotaque das pessoas.

É documentado no Brasil, desde o século XIX, que certas regiões têm sotaques diferentes de outras. Um bom exemplo foi estudado por

Oliveira (2004) e trata-se de um texto de 1816, um documento

poli-cial, escrito por policiais de Florianópolis (então Desterro), que relata o

Ver também Ilari e Basso (2006, p. 160-161).

encontro com oficiais de São Paulo. Os policiais de Florianópolis identi-ficaram os paulistas, entre outras coisas, pela maneira de falar:

encontramos /

pelas onze horas mais ou menos da / mesma noite na Rua do Vinagre junto / à porta de um tal Fayal, bem de fronte / da travessa que toma para a Rua Augusta / uns oito vultos, dois ou trez dos quaes com / borretinas do uniforme de cavallaria / de S. Paulo, ao presente destacada nesta Vª [corroído]

os mais vestidos de ponxes com chapeos / desabados, os quaes fomos reconhecer da par- / te da Justiça, como era da nossa obrigação / declarando serem soldados do Regimto / d. São Paulo – como com effeito erão, e se / conhecerão pela diferença e singularidad.e da sua voz e pronúncia – que ali se acha - / vão com licença do seu Then.e Cor.El comand.Te

[MIRANDA, F. G..; SARAIVA, J. P. A.; VIEIRA, S. F. Ofícios dos Juízes de Fora para o Presidente da Província (1814-1821), Florianópolis: Núcleo de Estudos Portugueses, 1996. Série Filológica].

Depois da virada do século XIX para o século XX, encontramos vá-rios trabalhos que descrevem uma ou outra variedade do português brasileiro e alguns que têm por objetivo mapeá-los; podemos citar os seguintes trabalhos: O dialeto caipira, de Amadeu Amaral (so-bre São Paulo, 1920 / 2a. ed. 1953); O linguajar carioca, de Antenor Nascentes (1922); A linguagem dos cantadores, de Clóvis Monteiro (sobre o Ceará, 1934); A língua do Nordeste, de Mário Marroquim (sobre Alagoas e Pernambuco, 1938); Alguns aspectos da fonética

sul-riograndense, de Elpídio Ferreira Paes (1938); O falar mineiro e Os estudos de dialetologia portuguesa, de J. A. Teixeira (sobre

Capítulo 10

Línguas Indígenas e Africanas na Formação do Português Brasileiro

O trabalho de Antenor Nascentes, de 1922, traz o primeiro atlas linguístico brasileiro, classificando as variedades regionais do português do Brasil. Mesmo contando com quase cem anos, esse mapa é ainda re-lativamente fiel à realidade variacional do português brasileiro e identi-fica as seguintes variedades: Sulista, Mineiro, Fluminense, Baiano, Nor-destino, Amazônico:

Limites com o estrangeiro Limites estaduais Limites dos subfatores

Amazônico Sulista Mineiro Baiano Território Incaracterístico Nordestino Fluminene

Mapa – Atlas linguístico brasileiro. Fonte: Nascentes (1922). Apesar de sua atualidade, o trabalho de Nascentes merece alguns retoques. O primeiro deles se refere ao que o autor classificou como “Território incaracterístico”, que compreende uma região aproximada-mente do tamanho da França (cf., ILARI; BASSO, 2006, p. 170-171).

A razão para a taxação “território incaracterístico” é majoritariamente a falta de população nessas regiões, algo que mudou e muito nos últimos anos, principalmente com a migração de paulistas e gaúchos. Sobre a variedade Sulista, assim como para o caso da Amazônica, haveria mais subdivisões a fazer, opondo, por exemplo, a varidade de São Paulo à de Florianópolis e à de Porto Alegre, assim como a variedade de Manaus à de Belém. Obviamente, a depender do grau de detalhe da análise, as outras varidades de Nascentes também podem ser subdivididas.

Ilari e Basso (2006, p. 167-169) arrolam alguns fenômenos regionais do português brasileiro, que apresentamos abaixo. Antes de olharmos para tais fenômenos, é importante salientar, porém, que não se trata de uma exposição exaustiva, ou seja, pode ser que mais regiões apresentem os fenômenos que citamos ou que certas regiões os apresentem com mais frequência e de maneira mais robusta que outras:

fenômenos de ordem fonética: 1.

P

alatalização de /s/ e /z/ finais de sílaba e de palavra:

<mais> pronunciado [maj∫], <rapaz> pronunciado [Rapaj∫] etc. Encontrado principalmente na fala carioca, mas também em alguns locais do Espírito Santo, em algumas regiões de Minas Gerais e em certos falares do Pará, do Amazonas e também de Pernambuco (Recife);

Realização de /s

/ final como /h/

<mais> pronunciado [majh]

encontrado no Nordeste e no Rio de Janeiro;

Realização de /v/ e /

ʒ/ como /h/ em início de palavra.

<vamos> pronunciado [hamʊ] <gente> pronunciado [het∫׀]

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Diferentes realizações do /R/ (o <r> de carro):

apical múltipla na Região Sul (churrasco, espeto corrido e chi-marrão na voz dos gaúchos);

uvular [] na pronúncia carioca ([kaʊ]); fricativa velar surda [h] no resto do País;

Ausência da palatalização de /t/ e /d/ antes de /e/ e /i/:

a palatização (<dente, pratinho, disco> pronunciados [det∫׀], [prat∫iɲʊ], [dʒiskʊ]) é fenômeno generalizado em todo o ter-ritório brasileiro, com exceção do interior de São Paulo e da Re-gião Sul (<leite quente> pronunciado [lejte kete]); encontrado também em regiões de PE, do CE, do MA e do PI;

Palatização de /t/, /d/ antes de /a/ e /o/:

<oito, muito> pronunciados [ojt∫ʊ], [mujt∫ʊ]

encontrado em regiões do sertão, Pernambuco, Paraíba e Mato Grosso;

Pronúncias [o] e [e] em final de palavra:

<leite quente> pronunciado [lejte kete]

encontrado em localidades da Região Sul e em localidades do interior de São Paulo. A não ser nesta área, a oposição /e/-/i/ se neutraliza em posição pós-tônica; idem para /o/-/u/;

“entoação descendente”:

<sei não> pronunciado com um “contorno descendente longo” encontrado no Nordeste, acima do estado da Bahia;

abertura das vogais pré-tônicas:

<decente> pronunciado [dset∫׀] encontrado na região Nordeste;

pronúncia retroflexa do /r/, ex. <porta> pronunciado

[pɔt]:

esta pronúncia é uma das características do “dialeto caipira”, que costuma ser associado à região não costeira de colonização mais antiga, em São Paulo. A pronúncia retroflexa do /r/, como de res-to muitas outras características do dialeres-to caipira, alcançam de fato algumas regiões do sul de Minas Gerais, do Mato Grosso, do norte do Paraná, de Goiás e de Tocantins. A mesma pronúncia é dada no “dialeto caipira” ao primeiro [l] de <álcool> e ao [l] de <sol> e de <animal>.

pronúncia como [w] ou [

] do -l que fecha sílaba:

a primeira pronúncia é generalizada pelo Brasil afora, o que leva à confusão de palavras como mal e mau, e a grafias erradas como <autofalante> e <altomóvel>. A segunda pronúncia é encontrada no Sul. Outros falares regionais, entre eles o dialeto caipira, apresentam uma terceira alternativa de pronúncia, que é a queda pura e simples do /l/ final;

queda do -r final dos infinitivos verbais / queda do –r final

dos substantivos:

<andar>, <lugar>, <flor>, <morador> pronunciados respecti-vamente [ãda] e [luga], [flo], [morado] ou [mɔrado]

encontrado principalmente em Minas, São Paulo, Espírito Santo, mas também, com maior ou menos intensidade, em todo o ter-ritório nacional;

pronúncia do fonema /

λ/:

áreas: na região do “dialeto caipira” e em muitas outras, a pro-núncia é [j]: filho [fijo], milho [mijo]; nessas regiões, uma reação de hipercorreção leva eventualmente a pronunciar desentupi-dor de pia como desentupidesentupi-dor de pilha. Em outras regiões (par-te do Nordes(par-te), a pronúncia é [l]: mulher pronunciado [mulɛ];

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2. fenômenos morfossintáticos:

uso ou omissão dos artigos definidos antes de nomes pró-•

prios e dos nomes de parentesco:

O assunto de que mais se falou na casa de mainha / da mãe foi o casamento de /do Luís.

a omissão se dá principalmente na região Nordeste;

uso de

tu e você como pronomes de segunda pessoa:

há, realmente, em português brasileiro, três formas de expressar a segunda pessoa: (i) pronome tu + verbo de segunda pessoa:

tu és / tu vais; (ii) pronome tu + verbo de terceira pessoa: tu é / tu vai; (iii) pronome você e verbo de terceira pessoa: você é / você vai. As duas primeiras soluções prevalecem nos três

esta-dos da região Sul; na fala carioca, encontramos a segunda e a terceira; na região norte e nordeste também encontramos (i) e (ii). A solução com você + verbo de 3ª pessoa prevalece no resto do País.

tendência a omitir o pronome reflexivo com verbos prono-•

minais:

Já tinha acontecido antes, por isso não preocupei (em vez de

me preocupei).

encontrado em Minas Gerais, e ampliando sua área a partir de lá.

O leitor terá notado que alguns dos fenômenos acima também ocor-rem em sua região, apesar de ela provavelmente não fazer parte da região à qual associamos esses fenômenos. Isso se dá porque muitos deles têm origem nos diferentes graus de escolaridade dos falantes e não necessariamente em sua procedência geográfica; tal constatação nos mostra que a variação linguística não se dá apenas na dimensão geográfica (chamada de variação diatópica), mas também na dimensão

econômico-social (variação diastrática) que no Brasil está diretamente ligada ao nível de escolaridade, e ao acesso a ela. Sobre esses pontos, você pode consultar o material de Sociolinguística e retomar seu con-teúdo para mais detalhes.

Diante da existência das variedades e das diferenças entre elas men-cionadas acima, convém perguntar se é possível falar que há diferentes dialetos do português no Brasil. Essa não é uma pergunta fácil de res-ponder, pela simples razão de que não há definição de dialeto que seja trivial e isenta de problemas – como decidir quanto estamos diante de dois dialetos? Pela impossibilidade de entendimento? Pelas fronteiras políticas? Por uma combinação de fatores? Quais?

É certo que, no Brasil, um manauense pode entender um gaúcho e as maiores dificuldade de comunicação serão encontradas no léxico, mas a questão da legitimidade político-social de variedades e dialetos é bastante delicada e que não aprofundaremos aqui. Assim, o português brasileiro de fato apresenta-se bastante homogêneo, mesmo com as di-ferenças que apresentamos logo acima.

A constatação da homogeneidade do português brasileiro, contu-do, não nos autoriza a endossar o segundo dos slogans que vimos acima, a saber: que o Brasil é o maior país em que se fala apenas uma língua. Atualmente, o Brasil tem como língua oficial o português e a língua brasileira de sinais (Libras), reconhecida oficialmente desde 2002; além disso, o município de São Gabriel da Cachoeira tem como línguas ofi-ciais, reconhecidas pelo governo brasileiro, as línguas indígenas tucano, nheengatu e baniwa.

Quanto às línguas indígenas ainda faladas no território nacional, nas diversas reservas espalhadas pelo País, encontramos cerca de 180. Não podemos esquecer também das línguas de comunidades de imigrantes que vieram mais recentemente ao Brasil e que também influenciaram o português brasileiro, como o italiano, o alemão, o japonês, entre outras.

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Resumo

Nesta Unidade, investigamos a história da língua portuguesa na América. Começamos com a chegada do português ao território ame-ricano e a delimitação de suas fronteiras, mostrando novamente como não é possível estudar a história de uma língua sem levar em conta sua história externa. Num segundo momento, investigamos as possibilida-des de periodização do português brasileiro e, depois de nos decidirmos por uma delas, exploramos as características de cada uma de suas fases. Lembramos também que o português brasileiro é composto por diferen-tes variedades; uma imagem que, por vezes, pode ficar distorcida pela ideia de que falamos “uma mesma língua”. Por fim, apresentamos e ana-lisamos algumas das hipóteses sobre a formação do português brasileiro. Essa parte é confessadamente mais especulativa e, talvez justamente por isso, mais instigante: há ainda inúmeras perguntas a serem respondidas.

Leia mais!

Há vários livros e artigos sobre a formação do português brasileiro e suas diferenças frente ao português europeu (e também africano e asiático). O leitor interessado pode começar, por exemplo, pelos textos já clássi-cos de Silva Neto (1946, 1950), Melo (1986) e Mendonça (1948). Mais recentemente, podemos citar os textos de Ilari e Basso (2006), Naro e Scherre (2007) e Noll (2008) – esses dois últimos defendem propostas específicas sobre a formação do português brasileiro. Sobre as varieda-des do português brasileiro, é sempre interessante consultar o texto de Nascentes (1922), Ilari e Basso (2006) e os diversos trabalhos mais re-centes que você deve ter visto na disciplina de Sociolinguística.

Os dados completos dos livros, cujos autores são mencionados nesta seção, podem ser encontrados nas Referências.

Epílogo

Epílogo: conservadorismos e

inovações do português

brasileiro

Em vários momentos deste livro, tratamos as diferenças do portu-guês brasileiro em relação ao portuportu-guês europeu como conservadoris-mos e inovações do primeiro em relação ao segundo. Tomareconservadoris-mos como marco cronológico para avaliar se uma dada diferença deve ser tratada como uma inovação ou um conservadorismo a data de 1500, ou seja, se uma característica que o português europeu tinha em 1500 foi mantida no português brasileiro, mas não no europeu, tal característica será con-siderada um conservadorismo do português brasileiro; se, por sua vez, um dado fenômeno não for encontrado no português de 1500 e nem no atual português europeu, mas sim no português brasileiro, podemos dizer que tal fenômeno é uma inovação do português brasileiro.

Ao longo deste livro, já nos deparamos com as diferenças entre o português europeu e o brasileiro que podem ser distribuídas entre ino-vações e conservadorismos. Como resumo, apresentamos abaixo, de modo adaptado e resumido, algumas das conclusões de Noll (2008), Ila-ri e Basso (2006) e Teyssier (1997).

Conservadorismos do português brasileiro:

a nasalização heterossilábica, como em

1. cama [ˈkɐ̃.ma] e não

[ˈkɐ.ma];

a ausência de oposição entre /a/ e

2. /ɐ/, como no português

euro-peu cantámos vs. cantamos; a repetição da negação, como em

3. não sei não;

a manutenção das vogais pretônicas e postônicas [e], [o] e [u], 4.

conservação de [e] antes de palatal

5. ([ʎ ɲ ʃ ʒ]), que em Portugal

se realiza como [ɛ ɐ ɐj]; conservação dos ditongos

6. [ej ej̃], que em Portugal se realizam

como [aj aj̃];

conservação do gerúndio como

7. está fazendo, e não a fazer;

conservação da próclise em sentenças afirmativas com sujeito 8.

substantival anteposto.

Um conservadorismo bastante interessante, mas ainda a ser melhor estudado, refere-se à prosódia e à estrutura fonética do português. Se pedirmos para um falante nativo de português europeu para que leia os versos do poema Os Lusíadas, de Camões, ele certamente não respeitará a métrica, ou seja, ao invés das dez sílabas com as quais são construídos os versos, um português pronunciará oito ou sete. Como dissemos mais acima, isso se deve às profundas mudanças pelas quais as vogais do por-tuguês europeu passaram, possibilitando a redução drástica de sílabas. Se um brasileiro ler os mesmos versos, encontraremos, todavia, as dez sílabas em sua pronúncia. Isso pode ser uma evidência de um conserva-dorismo prosódico do português brasileiro; mas, é sempre importante lembrar, esse exemplo é apenas a ponta de um enorme iceberg a ser ain-da estuain-dado para somente depois podermos tirar quaisquer conclusões.

Inovações do português brasileiro:

perda da distinção pretônica entre /e/ e /

1. ɛ/;

a africação de /t/ e /d/ diante de /i/; 2.

a epêntese de /i/ antes de /s/ final; 3.

a vocalização de /l/ final; 4.

rompimento de encontros consonantais, como na pronúnica 5.

Epílogo

inserção de vogais finais, como na pronúncia

6. [ˈmɛ.kɪ] e não

[mɛk] para sigla MEC; o <r>-retroflexo; 7. redução de 8. [ʎ] para [l] ou [j]; generalização da próclise; 9.

uso dos pronomes

10. ele e ela como objeto direto;

monotongação de /ou/, principalmente no sistema verbal, como 11.

em [fa.ˈlo] por [fa.ˈlow];

desnasalização em finais de palavra, principalmente no sistema 12.

verbal, como em [ˈfa.lɐ] por [ˈfa.lɐm]; 13. queda de /r/, /l/ e /s/ finais.

Podemos ainda mencionar o uso mais generalizado do pronome

você, a falta de concordância numeral no sintagma nominal, a

simplifi-cação do sistema verbal, o uso generalizado de perífrases verbais, e ain-da uma menor resistência a empréstimos estrangeiros que o português europeu (usamos, por exemplo, frízer e não arca frigorífica).

Conclusão

Conclusão

Este livro apresentou o percurso histórico do latim ao português e abordou em seguida questões sobre a formação e a consolidação do por-tuguês brasileiro. Em paralelo aos fenômenos linguísticos analisados, apresentamos também a história externa que propiciou ao português várias de suas características linguísticas e também geopolíticas; afinal, foi devido às grandes navegações portuguesas que a língua de Portugal – um pequeno país – chegou aos quatro cantos do mundo e é hoje a sétima língua em número de falantes.

Como não podia deixar de ser, há inúmeros assuntos sobre os quais nada falamos. Ao leitor mais versado em história do Bra-sil, certamente fará falta comentários mais aprofundados sobre a imigração açoreana ao Brasil e as possíveis marcas que essa imi-gração deixou no português falado, por exemplo, em Santa Ca-tarina e em Belém do Pará. Fica aqui um convite à pesquisa e à leitura sobre esse tema. O leitor interessado encontrará nos livros arrolados nas Referências e nos sites citados no corpo do texto um bom começo.

Outros temas bastante importantes na história das línguas, prin-cipalmente quando se trata da consolidação e fixação de uma norma linguística para uma determinada língua em um dado país, são aqueles ligados à ortografia, lexicologia e gramática normativa, seu estabeleci-mento e implementação. O trabalho de lexicógrafos, gramáticos e de-mais estudiosos das línguas é de suma importância para que as línguas passem a representar Estados nacionais, funcionando, às vezes, como símbolo patriótico, ao lado de sua função como símbolo cultural e polí-tico. Esses certamente são temas muito interessantes, mas nosso espaço aqui já se acaba. Fica assim, mais um convite à leitura e à pesquisa.

Cronologia

Cronologia

Por volta de 4500 a 2500 a.C. – Desenvolvimento do protoindo-europeu

2000-1100 a.C. – Desenvolvimento do ramo anatólico (hitita, assírio)

2000-1400 a.C. – Desenvolvimento do ramo indo-ariano (sânscrito,

persa)

1600-1100 a.C. – Datação aproximada do grego micênico (linear B)

1000 a.C. – Datação provável do início do desenvolvimento do latim e

do grego antigo

753 a.C. – Fundação mítica de Roma

509 a.C. – Fim da monarquia etrusco-romana, início da República

390-387 a.C. – Invasões celtas na península itálica

343 – 282 a.C. – Expansão romana na península itálica

275 a.C. – Roma conquista as colônias gregas no sul da Itália

264-146 a.C. – Guerras púnicas

218 a.C. – Os romanos chegam à Península Ibérica

149 a.C – Roma conquista a Grécia após derrotar Corinto

146 a.C. – A Macedônia torna-se província romana

106 – 83 a.C. – Campanhas de Mário e Silas levam ao primeiro grande

conflito interno em Roma

59-50 a.C. – Primeiras campanhas militares de César

59 a.C. – Primeiro triunvirato: César, Pompeu e Crasso

49 a.C. – César cruza o rio Rubicão e marcha contra Roma; Pompeu

ordena o abandono de Roma

48 a.C. – Pompeu é derrotado na batalha de Farsália na Guerra Civil

contra César; César torna-se ditador de Roma

44 a.C. – Republicanos infelizes com o poder unificado nas mãos de

43 a.C. – Segundo triunvirato constituído pelo sobrinho de César, Ota-viano, além de Marco Antônio e Lépido

42 a.C. – Marco Antônio e Otaviano derrotam os assassinos de César na

batalha de Filipos

31 a.C. – Nova guerra civil entre Otaviano e Marco Antônio, que o

pri-meiro vence na batalha de Ácio

27 a.C. – Otaviano se proclama César Augusto, imperador de Roma.

14 d.C. – Morte de Augusto; seu sobrinho Tibério torna-se imperador

101 – 106 – Conquista da província da Dácia por Trajano

285 – Diocleciano divide o Império em ocidental e oriental

330 – Constantino estabelece Constantinopla como capital do Império

395 – Com a morte de Teodósio, o Império se divide permanentemente

476 – Com a pressão das invasões bárbaras e a instabilidade imperial, Rômulo Augusto, último imperador, é deposto, e o Império tem seu fim

507 – Expulsão dos visigodos da França para a Península Ibérica

711 – Invasão árabe na Península Ibérica

722–1492 – Movimento da Reconquista da Ibéria

800 – O Sacro Império Romano é instaurado com Carlos Magno, numa tentativa de reviver o Império Romano

813 – Concílio de Tours

842 – Juramentos de Estrasburgo

882 – Carta da Fundação da Igreja de Lardosa, documento latino-por-tuguês mais antigo do qual temos notícia

1173 – D. Afonso Henriques é reconhecido como Rei no condado Por-tucalense, desmembrado da Galiza

1175 – Notícia de Fiadores

Cronologia