2. Julio Cortázar e a política: itinerários
2.1 Alguns passos no rastro do Cortázar “político”
2.1.2 Unidade essencial ou unidade existencial?
Duas características, contudo, nos fazem aproximar dois estudos sobre Cortázar; uma delas é o caráter biográfico-literário dos trabalhos, que constroem trajetórias e trazem críticas internas sobre os escritos de Cortázar, e também a perspectiva de “unidade essencial” que trazem sobre o sujeito-objeto estudado. É o que aproxima Julio Cortázar, la
biografía, de Mario Goloboff e A construção do político em Julio Cortázar, de Carolina
Orloff30, nos quais vigora a ideia de “unidade essencial” em sua trajetória. Orloff levanta a
ideia na introdução de seu livro, citando a Goloboff:
Em seu caminho de apreensão dos contextos cotidianos, interpessoais, sociais, podem ser distintas as abordagens. Isso não autoriza a sustentar, como se costuma fazer (…) que houve em Cortázar dois períodos ou atitudes textuais diferentes, quase opostas, senão que, sobre a base de uma unidade essencial em sua preocupação, há manifestações diversas, talvez de outro signo, mas não radicalmente distintas31
(GOLOBOFF apud ORLOFF, 2015)
O trabalho de Orloff centra seu argumento na crítica das primeiras ficções de Cortázar: os romances póstumos Divertimento, El Examen e Diario de Andres Fava32; e em
30A biografia de Cortázar feita pelo professor de literatura e crítico literário argentino Mario Gerardo
Goloboff, professor da Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación da Universidad Nacional de La Plata (UNLP), Julio Cortázar, la biografía, 1998, é tida, por conta de sua abrangência panorâmica e intensidade analítica, como a principal referência biográfica do escritor. Foi publicada em português em 2014, ano do centenário de Cortázar, com o título Cortázar, notas para uma biografia. A tese de doutorado de Carolina Orloff (Representations of the political in selected writings of Julio Cortázar, 2009), PhD em Literatura Latino-Americana pela Universidade de Edimburgo, Escócia, foi publicada no Reino Unido, como livro, em 2013. Em 2014 foi publicada em espanhol, pela argentina Ediciones Godot e, em 2015, a versão eletrônica do mesmo livro.
31ORLOFF, Carolina. La construcción de lo político en Julio Cortázar. Buenos Aires: EGodot Argentina,
2015 (livro digital), posição 10-11/44. A posição de Goloboff aparece em “En Cortázar no hay dos épocas”, Clarín: Revista de Cultura, 10 de novembro de 2007, p.5.
32Divertimento, concluído em 1949, é um romance que traz temas cortazarianos que se consolidariam em
escritos posteriores: personagens que se reúnem em um grupo, o Vive como puedas, em que se discute sobre arte, literatura, pintura e música. Em El Exámen, concluído em 1950, veremos um círculo de personagens esperando por um exame final e divagando sobre literatura, filosofia e arte enquanto perambulam por uma assustadora e enevoada Buenos Aires, marcada pelas transformações sociais decorrentes que desembocaram no peronismo enquanto tradição política e movimento de massas, o que está significativamente representado neste romance. Rayuela traria, por sua vez, o Club de la Serpiente, do qual fazem parte o protagonista Horacio Oliveira, a Maga , o pintor Étienne, o casal Ronald e Babs (ele músico, ela ceramista), o chinês Wong e o romeno Ossip Gregorovious, que se reúnem para beber, debater sobre filosofia, arte, literatura, e
seus três romances publicados em vida, Los Premios (1960), Rayuela (1963) e Libro de
Manuel (1973). Orloff situa a presença do peronismo nessas obras, como ambiência
política e social, traduzida pela presença dos cabecitas negras, da adesão popular massiva a Juan Domingo Perón (significativamente expressa pelo 17 de outubro de 1945, na Plaza de Mayo), na Buenos Aires algo fantasmagórica para os protagonistas de El Exámen, que circulavam por uma cidade cada vez mais tomada por uma névoa espessa e por incômodos visitantes (“à noite chegou um trem de Tucumán com mil e quinhentos operários”33) que
realizam um ritual de adoração a um pedaço de osso. O peronismo aparece enquanto parte indissociável desse Cortázar “político” que posteriormente se encantaria pela Revolução Cubana e pela Nicarágua Sandinista. Ainda quanto à divisão ou unidade da trajetória de Cortázar, Orloff também ressalta que:
Levando em consideração que o próprio Cortázar fomentava a
interpretação de sua obra como estando marcada pela divisão dupla entre o apolítico e o político, o marco biográfico também é chave para elucidar algumas contradições existentes em meio à autoconstrução de Cortázar, que resultou ser sumamente convincente para muito biógrafos, assim como para muitos críticos literários.34
(ORLOFF, 2015)
Precisamente o receio de que esse expediente tão poderoso, o de dividir, incorra na deformação daquilo que tanto perseguimos, enquanto historiadores, nesse trabalho que “é fazer uma restituição de complexidades”35, a “possibilidade de fazer reviver ou de
'ressuscitar um passado' (…), restaurar um esquecimento e encontrar os homens através dos traços que eles deixaram”36, é preciso cautela ao pontuar trajetórias – como também
nos alerta Pierre Bourdieu em um conhecido ensaio sobre os problemas de conceber uma
reflexões do protagonista do romance, Andrés Fava. Diario de Andres Fava traz relatos curtos à maneira de
Un tal Lucas (1979). Divertimento e El Exámen foram publicados em 1986 pela Sudamericana, e Diario de Andres Fava foi publicado pela Alfaguara em 1995.
33CORTÁZAR, Julio. O Exame Final. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 56. Tradução de Fausto
Wolff.
34ORLOFF, Carolina. Op. Cit., pos. 16-17/44.
35SIRINELLI, Jean-François. “Sem mocinhos nem bandidos”: entrevista a Bruno Garcia. Rio de Janeiro:
Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 90, março de 2013, pp. 48-53.
36CERTEAU, Michel de. Rio de Janeiro: Forense, 2011, p. 27. Em “III. A história, discurso e realidade”, pp.
vida como “um todo, um conjunto coerente e orientado”37. Assim, a partir da ideia de
“unidade essencial”, estabelecida por Goloboff e reforçada por Orloff, para conceber a presença do político na trajetória de Cortázar, observamos que a ideia de unidade essencial traz dois termos que se reforçam mutuamente, de maneira centralizadora: a existência de uma certa coesão quanto a uma essência, algo que existe a priori e que acabaria sendo confirmado ou não através das contingências, das escolhas. O que propomos aqui é que se podemos compreender a trajetória de Cortázar (tal como compreendemos o conceito de “trajetória”, exposto no capítulo 1) enquanto uma unidade, ressaltando nisso a produção discursiva atrelada a seu nome e sobrenome, só podemos fazê-lo admitindo que se trata de uma unidade existencial. Sendo assim, a ideia de unidade existencial nos serve para compreender melhor o cenário de possibilidades em que o escritor, enquanto sujeito, fez determinadas escolhas – em detrimento de outras, refletindo a posição que ocupava ou buscava ocupar dentro do campo literário latino-americano. A própria noção identitária de “latino-americano” aparece em Cortázar antes mesmo da entrada vitoriosa das tropas do exército rebelde em Havana, nos primeiros dias de janeiro de 1959, como veremos adiante. Em resumo, se há unidade, ela se dá em torno de um volume de produção discursiva que envolve cartas, ensaios, crônicas e demais escritos de ficção (contos, romances, relatos breves, novelas) reunidos sob um nome de autor; e dessa unidade dizemos existencial para contrabalancear essa ideia de unidade, pontuando que a presença do político em Cortázar, embora nunca estivesse ausente, apresentou-se em graus variáveis de intensidade e envolvimento, cuja materialidade buscamos examinar. Assim, essa perspectiva confere destaque às escolhas feitas por Cortázar, nos planos profissional, literário e político, uma vez que essas três instâncias não apareciam dissociadas no processo de acomodação no interior do campo literário latino-americano ao longo dos anos 1960 e 1970. Sendo assim, é importante observarmos os sentidos que Cortázar atribui à própria trajetória e à própria obra, bem como suas escolhas profissionais e literárias, que denotam táticas individuais empreendidas no sentido de alinhar-se com as estratégias38
próprias da dinâmica do mercado editorial, em busca de notoriedade e reconhecimento do público e de seus pares – em um período em que as batalhas dos intelectuais na esfera da 37BOURDIEU, Pierre. “A ilusão biográfica”, in: AMADO, Janaína & FERREIRA, Marieta Moraes. Usos e
Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV (8ª edição), p. 184.
linguagem e da estética (e que ocorriam simultaneamente às instalações de guerrilhas pela América, Ásia e África) era parte constitutiva de um meio intelectual cujo vocabulário político e posições públicas eram, basicamente, de esquerda, e que, a partir de 1959, teve convergência em Havana e na Revolução Cubana.