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Capítulo 2. Metodologia de pesquisa

2.1 Unidades de análise

As unidades de análise (Yin, 2003) retidas como objecto de análise correspondem a uma amostra1 de dois grupos sociais distintos, que adiante se descreve.

Como referido na Introdução, considerou-se, para a delimitação dessas unidades, a totalidade do arquipélago, nas suas nove ilhas habitadas, distribuídas em dois grupos geográficos, barlavento e sotavento (veja-se o Mapa, na Introdução).

Com vista a cumprir o objectivo central deste estudo, fez-se um recorte estatisticamente representativo da população2 jovem e qualitativamente representativo dos líderes, dando origem às unidades que analisámos, a saber:

(i) alunos do ensino secundário (9.º ao 12.º anos de escolaridade, com idades compreendidas entre os 13/14 e os 18/19 anos);

(ii) falantes adultos, com idade superior a 28 anos, inseridos no mundo do trabalho e cujas actividades profissionais implicam um intenso uso da língua; este

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Por amostra entende-se parte ou subconjunto do universo ou população considerado (um conjunto de elementos abrangidos por uma mesma definição) e que representam a população a partir do qual foram seleccionados.

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Neste estudo o universo ou população é constituído por todos os alunos do ensino secundário do 9.º ao 12.º ano de escolaridade das escolas públicas de todos os concelhos do país.

grupo subdivide-se em professores de português do ensino secundário e em intelectuais, artistas, políticos e profissionais liberais (tais como jornalistas, advogados e médicos). A este subgrupo de personalidades públicas, por vezes com forte impacto social, convencionámos chamar “líderes”.

Cremos que este recorte é adequado à presente investigação pelo facto de permitir estabelecer a comparação de perspectivas de dois grupos de distinta faixa etária, nível de instrução e posição na hierarquia social. Dada a representatividade estatística da amostra da população jovem, os resultados obtidos para este grupo permitem igualmente, segundo cremos, propor generalizações relativamente a mudanças nas práticas linguísticas (em curso ou prováveis), a julgamentos sobre as línguas usadas em Cabo Verde ou a preconceitos linguísticos presentes nos diferentes grupos, entre outras. A opção de inquirir a população jovem justifica-se, antes de mais, por a média etária da população de Cabo Verde ser de dezassete anos, o que institui esse grupo como representativo dos falantes cabo-verdianos. Deles, espera-se obter dados que nos permitam prever mudanças não só nos usos associados a cada uma das línguas em presença, como mudanças de atitude face às mesmas. As características específicas dos integrantes desse grupo são, assim, relevantes:

(i) estão numa fase da vida de contestação dos valores sociais dominantes, o que os leva a nem sempre seguir os modelos dos pais, dos familiares mais velhos, dos professores (ou de outros indivíduos, passíveis de fornecerem modelos linguísticos e sociais) ou mesmo dos grupos dominantes. A tendência geral é a de formarem redes sociais de jovens com forte coesão interna, com valores e normas de comportamento específicos, buscando a afirmação pessoal (também) através da língua;

(ii) são, por outro lado, na perspectiva das redes sociais (Milroy 1992), um grupo relevante em termos de contactos humanos entre pares e com outros indivíduos extra- grupo. Com efeito, admite-se que desenvolvem bastantes relações interpessoais, numa multiplicidade de condições (com familiares, vizinhos, colegas de escola e de lazer, no âmbito de associações, …), mas com uma baixa complexidade de papéis, dadas as limitações dos seus domínios de actuação social (ou seja, aglomerados de relações densas, com grande número de laços abertos), Assim, é de pressupor que sejam indivíduos móveis a partir dos quais inovações tanto estritamente linguísticas como de opinião (informação e influência) são transportadas para o interior das respectivas famílias e destas difundidas para outros grupos. Na verdade, a maior parte dos seus

integrantes teve mais acesso à escolaridade do que os pais e restantes familiares e, consequentemente, tem muita influência sobre a própria família;

(iii) são, também, e embora tal seja aparentemente contraditório com o referido em (i), sensíveis a modelos associados a indivíduos/classes de indivíduos a que reconhecem prestigio intelectual, social e/ou linguístico, como é o caso dos líderes já referidos e, naturalmente, dos professores;

(iv) estão, finalmente, numa fase em que a escola faz parte da sua vida e em que, forçosamente, vivenciam novas experiências linguísticas e culturais. A faixa dos mais velhos, ao aproximar-se da entrada na vida activa, é particularmente interessante dado que, estando prestes a ter um papel interveniente na sociedade adulta, constitui um elemento importante na renovação de mentalidades e de práticas (Labov, 1976)

A decisão de não inquirir alunos do 7.º e 8.º anos (11-13 anos) deve-se fundamentalmente ao facto de, como decorre de Labov (1976:207), estes falantes não estarem ainda na idade de assimilar os juízos de valor sobre as línguas (que, segundo o autor, se situa entre os 14 e os 18 anos) nem de serem sensíveis ao valor social do seu próprio modo de falar e ao dos outros. A completa familiaridade com as normas da comunidade é atingida entre os 17 e os 18 anos, sendo nessa faixa etária que o interesse pela norma de prestígio é adquirido e ocorre a opção por adoptá-la. Adicionalmente, foram ponderadas as dificuldades que levantariam a idade e a habilidade linguística desses alunos face à natureza e extensão do questionário, assim como a excessiva dimensão de uma amostra que os incluísse. Com efeito, o número de alunos dessa faixa de escolaridade, a nível nacional, era de 25.876, no ano lectivo 2005/06 (14.228 do 7.º ano e 11.648 do 8.º ano).

A selecção dos informantes adultos como segunda unidade de análise justifica-se por esses indivíduos também manterem grande e variado tipo de relações sociais, numa multiplicidade de condições, e serem, como referido, potenciais modelos dos jovens, para além de as suas atitudes serem determinantes enquanto responsáveis pelo fomento e divulgação de ideias, influenciando assim o ritmo da mudança linguística. Segundo López Morales (1994:71, trad.) “os sujeitos dos estratos altos actuam fora dos seus territórios e cada um deles mantém contactos diferentes e particulares com muito mais indivíduos que, na maioria dos casos, não se conhecem.” Nesse sentido, interessará observar se

(i) nas suas actividades, que implicam o exercício de uma diversidade de papéis e uma multiplicidade de contactos, usam as duas línguas ou apenas o português;

(ii) sendo reconhecidos como formadores de opinião, as suas escolhas linguísticas e a sua visão sobre a situação linguística actual e a desejável, no futuro, trazem indicações importantes sobre as tendências que se anunciam, em termos de papel social das línguas e de política linguística;

(iii) por serem a elite da sociedade, constituem um modelo linguístico para os mais jovens e se, pelo seu perfil social, o português passa a ser considerado de maior prestígio, e a forma como o falam, como a mais correcta e adequada.

Entrevistar um grupo dos professores de português, especificamente, teve como objectivo fazer uma avaliação da sua própria proficiência nesta língua e, consequentemente, do(s) modelo(s) linguístico(s) fornecidos aos alunos, como input; consequentemente, retirar ilações sobre os resultados da aprendizagem do português pelos seus alunos e sobre a validade da hipótese de o nível de conhecimentos linguísticos ter consequências directas no sucesso ou no fracasso escolar, em geral.

Feita a apresentação do conjunto das amostras a partir das quais tentámos retirar conclusões que nos permitam fazer uma “radiografia sociolinguística” do Cabo Verde contemporâneo, convém assumir o seguinte: a população retida para este estudo não corresponde inteiramente às práticas mais correntes, nos estudos de sociolinguística quantitativa, que consistem em fazer um recorte com total equilíbrio entre as diferentes variáveis (número idêntico de falantes por faixas etárias, níveis de escolaridade, sexo, etc.), e se limitam, em geral, a um número relativamente pequeno de informantes. Este trabalho diferencia-se da grande maioria desses estudos, desde logo pelo seu próprio objectivo primeiro – delinear os grandes traços caracterizadores da situação sociolinguística de todo o arquipélago, numa perspectiva de macro-observação, de larga escala, e não analisar uma questão delimitada ou um pequeno conjunto de questões. Dado esse objectivo, impôs-se a necessidade de fazer recolhas a grande escala, com uma preocupação de representatividade estatística, mas também qualitativa, pelo que o recorte realizado não teve como preocupação essencial um estudo quantitativo, no sentido laboviano.

Por isso, na aplicação do questionário foi utilizada uma amostra estratificada (cf. Carmo e Ferreira 1998; Barros e Lehfeld 1994; López Morales 1994). Desse modo foi possível seleccionar uma amostra em que os estratos ou subgrupos de estratos,

previamente identificados na população jovem em estudo (anos de escolaridade, sexo e origem geográfica, ou seja, barlavento/sotavento e meio de residência, isto é, rural/urbano)3, estão representados em valor proporcional idêntico ao existente na população em estudo, assegurando-se, assim, a sua representatividade estatística. Para a selecção aleatória dos elementos pertencentes a cada um dos estratos, como recomendado, utilizou-se um programa informático, gerando-se as tabelas 1, 2 e 3 da secção 2.2.1.1., abaixo.

Na verdade, e diferentemente do que é usado nos estudos quantitativos da sociolinguística laboviana, uma amostra estratificada não pressupõe operar com número idêntico de falantes dos dois sexos, das duas zonas (rural e urbana) e das duas grandes regiões geográficas (Sotavento e Barlavento), mas sim com números calculados pelo próprio sistema estatístico, em função da população total e em proporção a ela.

Por isso, dada a realidade das escolas e a natureza estratificada da amostra, ficaram plasmadas nesta os desequilíbrios existentes na população, à data da recolha, quanto aos níveis de escolaridade oferecidos nas zonas de Sotavento e Barlavento. Mas esse não pode ser considerado um problema de concepção da amostra, mas apenas um elemento da realidade objectiva; idealmente, deveria existir equilíbrio na escolaridade das duas zonas geográficas, mas tal não era o caso.

Assim, a distribuição dos informantes jovens em função da variável sexo não é totalmente equilibrada. Identicamente, o aparente desequilíbrio quanto à variável meio

de residência explica-se por, à data da recolha, as escolas em zonas rurais do Sotavento ainda só terem alunos do 7º e 8º anos, o que explica que na tabela 3 (cf. secção 2.2.1.1, abaixo), gerada automaticamente pelo programa utilizado no processo de amostragem,4 os valores correspondentes sejam igual a zero; no Barlavento rural, por seu lado, apenas duas escolas estavam inseridas em zonas ainda consideradas rurais. Nesta medida, o Barlavento rural é aqui considerado como uma amostra complementar, que permite estabelecer confrontos parciais entre as zonas urbanas e rurais dessa área geográfica.

Por outro lado, relativamente aos adultos “líderes”, visto a intenção ser obter dados de figuras com relevo público, a selecção orientou-se apenas por esse critério,

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Para este factor, e tendo em conta que as escolas estão próximas das localidades de residência, tomou-se como referência a localidade em que a escola está situada; e, na classificação dessas localidades como urbano ou rural foi seguida a classificação dos concelhos e das suas localidades pelo Instituto Nacional de Estatística.

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adoptando-se, portanto, uma amostragem de casos típicos (Carmo e Ferreira, 1998); consideramos, assim, que o recorte adoptado é qualitativamente representativo, pelo conhecimento directo que temos da sociedade cabo-verdiana.

Em suma, procurou-se que as amostras, inevitavelmente condicionadas pela realidade social, como já referido, permitissem, contudo, confrontar as perspectivas de duas gerações distanciadas do ponto de vista etário e dos respectivos papéis na sociedade, no que diz respeito à dinâmica sociolinguística da sociedade cabo-verdiana.

A geração dos jovens constitui uma amostra de indivíduos nascidos após a independência; a dos adultos, daqueles nascidos durante o período colonial, alguns deles já no seu final.

Assim, as unidades de análise retidas e retomadas adiante são as seguintes:

Sexo

Zona Região Nível de escolaridade F M Total

Barlavento 9ª ao 12º ano 383 340 723 Urbana Sotavento 9ª ao 12º ano 401 402 803 Barlavento 9ª ao 10º ano 134 120 254 Rural Sotavento Total 918 862 1780

Tabela1 – Amostra dos jovens

Naturalidade Sexo Idade Escolaridade Total B S Outra F M 1ª FE 2ª FE E.Sec E.Médio/ E.Sup

28-49 A + 50 A E. Profis.

Líderes 7 8 -- 3 12 4 11 1 2 12 15

Profs. 4 9 1 8 6 8 6 -- -- 14(7Bac./7Lic) 14

Total 11 17 1 11 18 12 17 1 2 26 29

Tabela 2 – Amostra dos adultos