Observando, via narrativas, as relações entre as produções simbólicas comunitárias e elementos direta ou indiretamente condicionantes de sua existência, como meio ambiente, cultura, turismo, indústria, política, em diferentes proporções e com distintos objetivos – influenciando, motivando ou mesmo induzindo a práticas, culturas e modos de vida –, é possível propor uma mudança em termos de um deslocamento do olhar referente ao objeto de investigação – as culturas populares – passando não apenas a contemplar os bens culturais, como também a entendê-los enquanto elementos de uma ampla e dinâmica teia de articulações.
Nesse contexto, as narrativas populares de membros das comunidades tradicionais, enquanto signos e discursos ideologizados, são sintomaticamente reveladoras porque, entre outros aspectos, refletem a busca por soluções de reorganização cultural, impulsionadas por um processo
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dialético de transformações. Afinal, esses narradores são homens cujas falas, assim como os silêncios, sinalizam as mudanças sociais.
Para finalizar, é significativo destacar a importância de estar lidando com realidades em plena transformação, cujas tentativas de descrevê-las, mesmo através de múltiplos enfoques, utilizando contribuições de conhecimentos em várias áreas, como a antropologia cultural, os estudos de etnobiodiversidade, as leituras sócio-linguísticas, não pretendem encobrir as principais características das culturas populares: sua diversidade e sua mobilidade no interior das sociedades.
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CAMINHOS ETNOGRÁFICOS
Este capítulo traz uma abordagem contextual da pesquisa de campo e trata da descrição do universo estudado a partir de referenciais etnográficos, contemplando seus aspectos físicos (ambientais), humanos (sociais, culturais) e econômicos (referentes aos modos de produção e às forças interagentes neste processo). Em seu percurso, procurarei apontar os meus passos metodológicos, as observações sobre a pesquisa e a natureza das fontes que fundam esta investigação.
A investigação dos fenômenos que circundam as culturas populares e que respondem pela sua contextualização, desde o início dos estudos antropológicos, tem requerido métodos e técnicas de pesquisa postos em prática antes mesmo do contato com os membros das comunidades pesquisadas e, não raro, de meios de coletas que, devido ao aprimoramento tecnológico e à fidelidade no registro dos dados, a cada dia tornam-se mais utilizados em campo. Diante do risco de que a diversidade de técnicas se sobreponha às especificidades de uma investigação antropológica, torna-se imperativa a necessidade de o pesquisador adaptar as técnicas e métodos de pesquisa aos seus objetivos e, muitas vezes, às suas próprias limitações financeiras. Este, inclusive, tem sido um ponto em comum entre os estudos recentes que abordam questões referentes às culturas populares. Chamo atenção para trabalhos empíricos que demonstram essa orientação, provavelmente a partir das missões de Mario de Andrade, passando por referências mais recentes, como Osvaldo Elias Xidieh (1967, 1972, 1976, 1993) e Maria Isaura Pereira de Queiroz(1987), além dos questionamentos em torno do assunto, já comuns em referências teóricas das ciências sociais. Neste terreno continuamente posto à prova pela própria natureza do trabalho
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empírico, as conclusões parecem abrir espaço para as trilhas de caminhos individuais.
Oswaldo Elias Xidieh (1993) afirma que é durante a pesquisa de campo, tomando contato com o universo a ser estudado, que o pesquisador deve estabelecer seus caminhos metodológicos, e até mesmo, se necessário, criar ele próprio uma metodologia que se aplique aos fins da pesquisa, caso os métodos existentes se mostrem falhos aos objetivos da mesma. Seu trabalho sobre narrativas populares demonstra e justifica de forma esclarecedora esse posicionamento.
Maria Isaura Pereira de Queiroz, em texto sobre as entrevistas e histórias de vida (1987), alerta para a possibilidade de se ter que lidar, em campo, com situações impossíveis de serem transcritas. Ela considera imprescindível olhar atento do pesquisador para estas situações, não raro esclarecedoras durante o processo de análise das entrevistas. As pausas, o silêncio ou mesmo os gestos são, em suma, alguns elementos externos ao ato da fala cuja significação pode redimensionar o sentido do texto oral em uma situação real de entrevista, visto que tais elementos podem exprimir emoções e sentimentos por parte do entrevistado que dificilmente seriam captados pelo simples registro oral feito, por exemplo, através do gravador.
Recordo ainda Lombardi Satriani (1986, p. 62), que também dialoga com autores estrangeiros em busca de um consenso acerca dos passos metodológicos. Concordando com alguns deles, o escritor italiano chega à conclusão de que os discursos sobre a realidade devem mesmo surgir de uma análise rigorosa dos seus elementos, examinados sistematicamente e não apenas em destaque, mas em consonância com os aspectos globais que os circundam. Tal postura descarta, definitivamente, a aplicação de modelos pré- elaborados de pesquisa e de análise.
No tocante aos estudos da linguagem, Mikhail Bakhtin (1988) enfatiza ainda, na tentativa de estabelecer regras metodológicas a serem observadas, as relações entre o signo
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(superestrutura), a ideologia e a realidade (infra-estrutura), relações estas que implicam em condicionar a análise dos discursos à realidade que os determina enquanto tais, do ponto de vista ideológico.
Por fim, em consonância com os autores que fundamentam as minhas reflexões teóricas e metodológicas, muitos dos quais acima citados, outros que surgirão ao longo das descrições e análises, cumpre-me abordar alguns aspectos referentes a esta pesquisa relacionados à sua constituição. Somente após estas considerações, passarei então à descrição da mesma.