• Nenhum resultado encontrado

Capítulo IV. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: conteúdo,

4.2. Universalidade, indivisibilidade e interdependência

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência constitui um tratado completo, com Direitos Civis, Políticos, Econômicos, Sociais e Culturais; além de direitos específicos - analisados ao longo deste trabalho. Em conjunto, conformam a moldura dos direitos humanos das pessoas com deficiência. Ao discorrer sobre os direitos contidos nessa Convenção específica para as pessoas com deficiência, percebe-se claramente o caráter universal, indivisível e interdependente dos direitos humanos, compreendendo o conjunto de direitos e faculdades mínimos para que o homem possa realizar-se no âmbito físico, moral e intelectual.

Essa construção conceitual dos direitos humanos a partir de características tão essenciais foi afirmada desde a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, realizada em Viena no ano de 1993, a qual, ao tratar do tema, previu em seu parágrafo 5o que: “Todos os direitos humanos são universais, interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente de forma justa e equitativa, em pé de igualdade e com a mesma ênfase”.

A universalidade dos direitos humanos é aspecto que diz respeito ao reconhecimento de que todos os indivíduos têm direitos pelo simples fato de serem humanos, condição da qual decorre a sua dignidade. No caso dessa Convenção, sendo uma pessoa humana, o indivíduo beneficiário é tido como sujeito de direitos independentemente de ter ou não uma deficiência, aplicável as pessoas de todos os países, sem distinção de qualquer natureza, seja qual for o regime político dos territórios nos quais incide. Antes de mais nada, reconhece, respeita e promove a dignidade humana.

Nesse sentido, Norberto Bobbio proclamou o impacto da amplitude global dos direitos humanos:

Com essa declaração, um sistema de valores é – pela primeira vez na história – universal, não em princípio, mas de fato, na medida em que o consenso sobre sua validade e sua capacidade para reger os destinos da comunidade futura de todos os homens foi explicitamente declarado. (...) Somente depois da Declaração Universal é que podemos ter a certeza histórica de que a

humanidade – toda a humanidade – partilha alguns valores comuns; e podemos, finalmente, crer na universalidade dos valores, no único sentido em que tal crença é historicamente legítima, ou seja, no sentido em que universal significa não algo dado objetivamente, mas subjetivamente acolhido pelo universo dos homens.”137

A inter-relação, indivisibilidade e interdependência caminham juntas na concepção contemporânea dos direitos humanos. Corresponde à indissolubilidade entre os direitos humanos, conquistados ao longo da História. Cada avanço singular se soma ao todo, e se torna, em conjunto com os demais, indivisível, sendo, pois, os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, meras subdivisões teóricas, não podendo deixar de ser considerados direitos humanos. Referem-se à interação intrínseca entre tais direitos, sobrepondo-se à ideia de que os direitos possam ser aplicados de forma autônoma, sem interferir uns nos outros. Ou seja, não há que se falar na efetivação simplista de um direito sem que isso importe em consequências para outros direitos.

Em sessão na ONU, em 1988, a sua Comissão de Direitos Humanos registrou o posicionamento do governo brasileiro, previamente à Convenção de Viena, que corroborou o entendimento sobre a interdependência dos direitos humanos e,

ressaltou a interligação de todos os direitos humanos: civis, políticos, econômicos, sociais e culturais; considerou o desenvolvimento como um processo global em que todos os direitos humanos têm incidência, e a indissociabilidade entre a democracia e o desenvolvimento.138

Dessa forma, a natureza da indivisibilidade e a interdependência determinam ser possível a divisão dos direitos, em tese, para facilitar a sua aplicação, sendo certo que não se pode concretizar o primeiro conjunto de direitos, sem o segundo. Sobre este tema, bem definiu Celso Lafer como

direitos de crédito do indivíduo em relação à coletividade. Tais direitos – como o direito ao trabalho, à saúde, à educação - têm como sujeito passivo o Estado porque, na interação entre governantes e governados, foi a coletividade que assumiu a responsabilidade de atendê-los. O titular desse direito, no entanto, continua sendo, como nos direitos de primeira geração, o homem na sua individualidade. Daí a complementaridade, na perspectiva ex parte populi, entre os direitos de primeira geração, pois estes últimos buscam assegurar as condições para o pleno exercício dos primeiros, eliminando ou atenuando os impedimentos ao pleno uso das capacidades humanas. Por isso,

137 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992. p. 28.

138 UNITED NATIONS. Analytical Compilation of Comments and Views on the implementation and Further Enhacement of the Declaration

on the Right to Development Prepared by the Secretary-General, doc.E/CN.4/1989/1, de 21.2.1988, p. 5 apud TRINDADE, Augusto A.C. A

os direitos de crédito, denominados direitos econômico-sociais e culturais, podem ser encarados como direitos que tornam reais direitos formais: procuram garantir a todos o acesso aos meios de vida e de trabalho num sentido amplo, impedindo, desta maneira, a invasão do todo em relação ao indivíduo, que também resulta da escassez dos meios de vida e de trabalho.

139

Na elaboração da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Defciência houve largo debate acerca de se deveria o texto ser estruturado a partir da divisão entre direitos civis e políticos de um lado, e econômicos, sociais e culturais do outro. No entanto, prevaleceu o consenso140 de que essa divisão não deveria ser feita de maneira a reforçar essa dicotomia, uma vez que se tratam de direitos interdependentes.

A despeito da não-divisão explícita, dispõe o parágrafo 2o do artigo 4o, que trata das obrigações gerais dos Estados, que a aplicação dos artigos referentes a direitos civis e políticos será imediata, e no caso dos direitos econômicos, sociais e culturais, de forma progressiva, seguindo as teorias de direitos humanos que versam sobre a matéria, in verbis:

em relação aos direitos econômicos, sociais e culturais, cada Estado Parte se compromete a tomar medidas, tanto quanto permitirem os recursos disponíveis e, quando necessário, no âmbito da cooperação internacional, a fim de assegurar progressivamente o pleno exercício desses direitos, sem prejuízo das obrigações contidas na presente Convenção que forem imediatamente aplicáveis de acordo com o direito internacional.

Entendendo, pois, que independentemente das teorias de aplicação dos direitos humanos de forma imediata ou progressiva, estes são universais, indivisíveis e interdependentes - e diferentes não são os dessa Convenção – cumpre analisar os direitos descritos no tratado das pessoas com deficiência, a partir do bloco de Direitos Civis e Políticos, e do de Econômicos, Sociais e Culturais, sendo objeto de análise ainda a Acessibilidade, em separado, definida na Convenção como princípio e como direito.

139 LAFER, Celso. A Reconstrução dos Direitos Humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 127.

140 Dizia o Chairman na sua carta datada de 7 de outubro de 2005 para os membros participantes do processo: 9. You will recall that at the

end of our last meeting we had a discussion of the structure of the draft Convention. As we are now moving to a new stage of our work, I have therefore restructured it reflecting that discussion as best I can. I have also separated the draft Convention into four parts, consistent with the approach in other conventions. I have not separated civil and political rights from economic, social and cultural rights, as there were strong views that this should not be done. For ease of reference I have attached two charts comparing the old and new structures (annex II). Disponível em http://www.un.org/esa/socdev/enable/rights/ahcchairletter7oct.htm Acesso em 20 de março de 2009.