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Em seu contexto, a biblioteca universitária é um sistema de informação que é parte integrante de um sistema mais amplo, que pode ser designado sistema de informação acadêmica, no qual, a geração do conhecimento é objeto da vida universitária. Considerando a biblioteca universitária dentro do seu contexto de inserção – uma universidade ou Instituição de Ensino Superior – é pertinente compreender que a sua atuação não poderá estar desvinculada do ambiente e cultura acadêmicos.

Yepes (2000) considera a universidade como a fábrica de ideias para a geração e socialização do conhecimento e a biblioteca universitária como instrumento de socialização desse conhecimento no que tange, especificamente, aos aspectos evolutivos propiciados pelas tecnologias de informação, quanto ao uso de novos formatos e ampliação do leque de usuários que se servem dos recursos e serviços de informação à distancia.

Na mesma perspectiva, para Fujita (2005) a universidade funciona como um organismo vivo, um agrupamento de pessoas em permanente interação com atividades específicas, cuja dinâmica utiliza e elabora documentos para registros e difusão do conhecimento em um processo cumulativo. Nesse ambiente, o principal insumo é o conhecimento e, por isso, a informação é uma das principais demandas

de uma comunidade de pessoas que possuem conhecimento e partilham incessantemente para a geração de novo conhecimento (FUJITA, 2005, p.99-100). A autora procura mostrar que o conhecimento é um processo cumulativo resultante da apropriação consciente da informação pelos sujeitos.

No tocante à natureza das suas atividades acadêmicas, é comum restringir-se a missão da universidade à trindade: ensino, pesquisa e extensão.

Esses papéis podem ser vistos como uma simples manifestação do século XX e ligados aos papeis fundamentais de criação, preservação, integração, transmissão e ampliação do conhecimento. [...] se adotada a terminologia contemporânea de redes computacionais, a universidade atual pode ser considerada como um servidor do conhecimento, que provê serviços e produtos, isto é, a criação, preservação, transmissão ou ampliação do conhecimento sob qualquer forma solicitada. (CUNHA 2000: p.75)

O papel da universidade do Século XXI foi discutido pela UNESCO, através do relatório presidido por Jacques Delors em 1996, que influenciou estudos e reformas nas políticas educacionais em vários países do mundo. O documento ressalta a função da universidade para aprendizagem permanente e ao longo da vida, enfatizando, simultaneamente, sua intervenção efetiva para o desenvolvimento sustentável. No âmbito da sua função social, “[...] as universidades podem pôr a sua autonomia ao serviço do debate das grandes questões éticas e científicas com as quais a sociedade se confronta e fazer a ligação com o resto do sistema educativo [...] desempenhando a função de centros de estudos, enriquecimento e preservação da cultura.” (DELORS, 1996, p.141). Além de preparar os indivíduos para o mercado de trabalho, tendência crescente e marcante da globalização econômica, a universidade preserva a sua clássica missão de lugar da cultura, constituindo um reservatório vivo do patrimônio da humanidade. A universidade responde a quatro funções essenciais: a) preparar para a pesquisa; b) dar formação altamente especializada e adaptada às condições da vida econômica e social; c) aberta a todos para responder aos múltiplos aspectos da educação permanente e; d) a cooperação internacional. (DELORS, 1996).

Cunha (2000) abordando os principais tópicos, que na sua concepção, iriam transformar a biblioteca brasileira em 2010, enaltece as mudanças que as universidades enfrentam e os possíveis reflexos em suas bibliotecas, que no contexto da globalização econômica têm provocado mudanças em todos os mercados nacionais e os governos vão alterando, gradualmente, as formas

tradicionais de apoio às IES, colocando obstáculos à alocação de recursos para essas organizações. As mudanças nos objetivos e gerenciamento deixam o futuro das universidades ao ritmo das inconsistências do mercado. Nesses termos “[...] a harmonia social e econômica entre a sociedade e a academia forjada no século XIX até meados do século XX entrou em colapso e foi suplantada pela disciplina do mercado. O corpo docente e seu conhecimento estão sendo transformados em Commodities (mercadorias) [...]” (CUNHA, 2000, P.72).

Essas mudanças vêm transformando as universidades, em que determinadas áreas do conhecimento, sobretudo ligadas à ciência, tecnologia e medicina têm maior visibilidade dentro das universidades, porque essas áreas têm um conhecimento que o mercado valoriza e, tradicionalmente, suas ligações com a indústria são marcantes (CUNHA, 2000). As áreas e serviços mais distantes do mercado, entre elas as humanidade, as ciências sociais e incluídas as bibliotecas, ficam naturalmente em desvantagem. Entretanto, importa referir que a tendência excludente e hierárquica do conhecimento dentro das universidades é um pensamento tradicional em que “[...] o direito e a medicina eram as duas profissões seculares cultas com lugar assegurado dentro da universidade medieval e com status no mundo fora dela.” (BURKE, 2003, p.27).

Isto faz parte das disputas internas e externas pelo monopólio da competência científica, visto que o campo científico é o lugar do jogo concorrencial (Bourdier, 1983). O que está em jogo, especificamente, nessa disputa é o monopólio da autoridade científica definida como “[...] a capacidade técnica e poder científico [...] compreendida como a capacidade de falar e agir legitimamente, que é socialmente outorgada por um agente ou instituição determinada.” (BOURDIER, 1983, p.122-123).

Cunha (2000) ressalta que o enfoque no mercado globalizante pode ser perverso para as bibliotecas universitárias porque elas são, tradicionalmente, centro de custos e não de captação de recursos. A mesma perspectiva foi explorada por Suaiden (2000) no seu estudo sobre a biblioteca pública na sociedade da informação, no qual critica o modelo de desenvolvimento sustentável em voga no contexto da globalização econômica, que privilegia áreas cujos resultados podem ser, facilmente, quantificáveis, negligenciando, por conseguinte, as áreas ligadas à cultura cujos resultados são numericamente invisíveis.

Nesse processo de transformação nas funções e atividades básicas da universidade decorrente das mudanças tecnológicas, as bibliotecas vão acompanhando essas dinâmicas. As bibliotecas em todas as épocas históricas foram dependentes da tecnologia, desde a passagem dos manuscritos para a utilização dos textos impressos, o acesso às bases de dados bibliográficos, o uso do CD/ROM e o advento da biblioteca digital, no final dos anos 90, altamente dependente das tecnologias de informação, demonstram que as bibliotecas sempre acompanharam e venceram novos paradigmas tecnológicos (CUNHA, 2000, p.75).

A subseção que se segue pretende refletir em torno do impacto das tecnologias de informação sobre a estruturação das bibliotecas universitárias, incluindo seu reflexo na transformação de suas funções tradicionais.