5. UNIVERSIDADE, DESENVOLVIMENTO E TERRITORIALIDADE
5.4 UNIVERSIDADE E BEM-ESTAR SOCIAL REGIONAL/LOCAL
As reverberações dispostas por uma instituição pública de ensino superior a uma região vão muito mais além de questões econômicas direta e indiretamente geradas. Nesse sentido, Chiarello (2015) afirma que a essência da existência de uma universidade pública se refere ao papel que ela desempenha na sociedade, constituindo-se para a formação e o desenvolvimento do espírito crítico e da formação de uma autonomia emancipadora, devendo este ser o principal serviço qual a instituição deva prestar à comunidade.
De acordo com Covian (1979), as universidades públicas são espaços onde são discutidas questões científicas, políticas, sociais e culturais, a fim de polemizar sobre os delineamentos que estruturam as sociedades. Enquanto lócus da livre expressão crítica, esses centros de ensino, pesquisa e extensão devem se encarregar de formar sujeitos capazes de pensar criticamente e propor melhorias às questões centrais da sociedade e para o sistema de desenvolvimento imperante, bem como o regional e local. Nesse sentido, Icó e Fialho (2000, p. 114-116) pressupõem que:
A universidade, que em muito contribuiu para o avanço da ciência e da tecnologia – as quais servem, inclusive, de sustentação direta para o atual padrão de desenvolvimento – tem, diante de si, desafios ainda maiores como os de lidar com os efeitos que o próprio desenvolvimento vem imprimindo sobre a vida social, o meio ambiente e as pessoas.
A partir dessa citação, podemos perceber que existe um papel ainda maior no que se refere à essência do ensino público universitário de maneira geral, bem como na perspectiva regional e local, pois, as universidades, segundo Midlej e Fialho (2005) além de buscar novos caminhos para transformações positivas na qualidade de vida, devem articular conhecimento científico e realidade humana, nos seus mais variados níveis. Dessa forma, dada a sua complexidade e multiplicidade de funções, as universidades vêm cada vez mais se adequarem às dinâmicas sociais de cada região e local específicos.
As autoras ainda afirmam que, quando instituições universitárias são instaladas em determinada região, assumem os contornos socioespaciais dessa fração do território, incorporando, assim, o contexto local e os seus âmbitos de existência, seja econômico, político, cultural e histórico. Tais apontamentos permitem que uma universidade assuma relevância sobre a dinâmica específica dessas regiões no que tange ao desenvolvimento social.
Para Santos Júnior (2013), o tripé ensino, pesquisa e extensão universitária são, de maneira sublime, importantes elementos da universidade pública para a concretização da sua função social, na medida em que propicia a maior aproximação desta com a realidade local. Além disso, Santos Júnior (2013, p. 36), ao tratar da extensão universitária como elo entre universidade e sociedade, salienta que esta:
[...] é produtora de um conhecimento resultante das experiências nas quais os sujeitos se revezam nos papéis de autores e coautores de autonomia e interdependência e, quando são construídas numa relação dialógica, outros conhecimentos nascem a partir do entrelaçamento de visões de mundo semelhantes ou diferentes.
A Universidade Pública é uma entidade fundamental para o desenvolvimento socioeconômico da região onde está inserida, de forma a ter a capacidade de se moldar às especificidades de cada local para que possa haver maior resultado positivo à região, influenciando e sendo influenciada por ela, de maneira que, conforme Priori (2007), as entidades federais de ensino superior conseguem alcançar tal objetivo por meio dos seus projetos de ensino, pesquisa e extensão, conduzidos mediante as reais necessidades da região em questão, propiciando o melhor aproveitamento dos recursos materiais e imateriais da comunidade na busca do desenvolvimento justo e democrático (VARGA, 2000).
Além disso, segundo J. Santos (2013), as universidades públicas são estratégicas para a sociedade, sua principal financiadora, haja vista os retornos provindos das atividades de ensino, pesquisa e extensão, propiciando a atração de investimentos e a formação de recurso humano qualificado. Nessa perspectiva, as IES se consolidam na geração de competências territoriais para o desenvolvimento regional e local, pois nesses espaços ocorre a participação social, cujo objetivo é a melhoria da qualidade de vida frente aos impactos do sistema de desenvolvimento atual, ou seja, essa articulação entre ensino, pesquisa e extensão tende a conectar de forma mais eficiente a universidade às demandas e aos anseios regionais.
Para Santos Júnior (2013), as universidades se comprometem com o exercício da sua função social, por meio de delegação ao ensino, pesquisa e extensão universitária. Além disso, ainda conforme o autor, tal atitude pode ser percebida também como a democratização, a difusão e a produção do conhecimento gerado no ambiente universitário.
Por outro lado, as universidades públicas se apresentam também como importantes fontes para a atenuação dos problemas sociais próprios do sistema de desenvolvimento atual, uma vez que, segundo Bardagi e Hutz (2009), os problemas financeiros e a situação econômica dos estudantes têm impacto direto na desistência ou na inacessibilidade de sujeitos de baixa renda, que não conseguem conciliar trabalho e estudo, nem podem cogitar em deixar seus trabalhos para se dedicarem integralmente à sua formação, com o risco de perder sua única fonte de renda, sem a qual teriam sua qualidade de vida consideravelmente diminuída:
[...] dificuldades de cunho econômico podem interferir na trajetória acadêmica de estudantes de baixa renda, seja através da falta de recursos necessários para o acesso a importantes bens e práticas culturais, seja pela necessidade de conciliar estudos e trabalho (VARGAS, 2008, p. 50).
Dados da V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) das IFES, realizada ANDIFES (2018, p.28), revelaram que 26,6%
possuem renda familiar per capita de até meio salário mínimo e 26,9 % vivem com renda per capita de meio até um salário mínimo. Dessa forma, apurou-se que 53,5%
dos estudantes das IFES brasileiras vivem com até um salário mínimo per capita.
Observou-se ainda que apenas 29,9% dos estudantes das IFES possuem ocupação, 40,6% estão desempregados e 29,5% não trabalham. Além disso, a pesquisa demonstrou que há diferenças significativas no perfil de renda dos estudantes das regiões mais pobres. Nesse sentido, a renda mensal familiar bruta de ―até 3 salários mínimos‖ se faz presente em 67,4% dos alunos da região Norte e 62,2%, na região Nordeste. Tal fato evidencia ainda mais as desigualdades regionais, pois, sob o mesmo parâmetro de medida das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, esse percentual é de 39,9%, 42,1% e 42,9%, respectivamente.
De acordo com os enunciados anteriores sobre a esfera social do desenvolvimento, as universidades públicas também têm as suas reverberações no que tange à diminuição das desigualdades de renda da população, pois ela dá condições para que indivíduos de baixa renda adentrem o Ensino Superior e tenham condições de continuar seus estudos.
Dentre as variadas contribuições de uma universidade pública para uma região, de acordo com Lopes (2003), está a sua capacidade em gerar recursos
humanos especializados, que antes seriam destinados a serviços de baixo valor agregado.
Finatti et al. (2007), ainda nessa perspectiva, afirma que, para que um estudante conclua plenamente seu nível acadêmico, é necessário agregar à qualidade de ensino ofertado uma política universitária de assistência estudantil, que pode se materializar por meio de moradia, alimentação, saúde, esporte, cultura, lazer e auxílios-permanência.
Tais práticas de assistência estudantil têm impacto direto na formação dos estudantes e contribuem para diminuir as chances de abandono do curso (VASCONCELOS, 2010). Tratando-se ainda de municípios com índices altos de pobreza, baixa renda per capita, índice incipiente da população com nível superior e falta de políticas públicas de assistência social, estas ações universitárias repercutem ainda mais nas questões relativas ao desenvolvimento de local, considerando que, conforme Franco (1998), o desenvolvimento deve englobar as questões de cunho social, como o aumento da equidade e amenização das desigualdades.
Em pesquisa realizada pela ANDIFES (2018), revelou-se que 44% dos estudantes de graduação das IFES pertencem às classes C, D e E, e que 41% deles recebem até três salários mínimos. Amaral e Nascimento (2010, p. 3) entendem que os programas de assistência estudantil devem ser desenvolvidos e implementados como forma de acesso, permanência e conclusão dos sujeitos nas instituições públicas universitárias, para isso, partem do pressuposto de que a assistência estudantil se configura como uma política vital, quando se contextualiza com outras ferramentas de reverberação social de uma universidade pública, como ensino, pesquisa e extensão.
5.5 UNIVERSIDADE PÚBLICA E SUA REPERCUSSÃO PARA O